
Foto por Dan Bøțan no Unsplash.
Educar com o Cinema é tema que me tem acompanhado nos últimos anos. Tive ocasião de escrever artigos, publicar livros, dar conferências em congressos internacionais, apresentar-me em programas de TV. E, em quase todos os cenários, a pergunta que surge é similar: “Você não é médico? E isto do cinema, como se encaixa na sua vida?”. A pergunta procede e, até tal ponto, que mesmo quando não a fazem eu mesmo a coloco e respondo. Afinal, é necessário justificar o tempo que se dedica a um trabalho que já ultrapassou de longe as proporções de um simples hobby.
Dizer que os médicos de hoje estão munidos de excelente preparação técnica, não é novidade. Como, infelizmente, também não o é afirmar que carecem, na maioria, da sensibilidade suficiente para lidar com o ser humano doente, que sofre e se confia aos seus cuidados. Fala-se em humanizar a medicina, quando na verdade o que se gostaria é de injetar doses de humanidade nos médicos para ver se o paciente consegue, de algum modo, se fazer entender pelo profissional que está destinado a cuidá-lo e, muito absorvido pela técnica moderna –e necessária- parece esquecer o paciente, ocupando-se apenas com a doença.
Para um professor de medicina –como é o meu caso- trazer o médico de volta ao que realmente importa, o paciente, é um desafio diário e uma necessidade na formação dos jovens profissionais. E os que levamos algumas horas de vôo nesta empreitada formativa sabemos que não é tarefa fácil lembrar aquilo que é óbvio …..e que se esquece: a pessoa que sofre. Recursos assim chamados “humanizantes” não passam de remédios paliativos, que têm tanto de superficial como de ineficaz. Cursos de ética, aulas de psicologia e de relacionamento, grupos de estudo, não conseguem a pesar da imensa boa vontade dos organizadores, o seu objetivo. E o divórcio entre o médico que se diverte com a técnica, e o paciente que caminha em desamparo com a sua moléstia continua.
O Cinema tem se mostrado um recurso eficaz para promover a reflexão, para fazer as pessoas pensar. Estudantes e médicos, profissionais da saúde, são convidados através desta metodologia a refletir sobre as suas atitudes. E o resultado é que a reflexão surge como o verdadeiro núcleo do processo humanizante. De modo talvez excessivamente simples, pode se dizer que humanizar é, em primeiro lugar, lembrar ao médico que ele, médico, é um ser humano, e que o paciente também o é. Algo evidente embora esquecido com muita freqüência. E a reflexão traz isto à tona com vigor. Se o cinema nos ajuda a pensar e a refletir sobre as coisas essenciais da vida, converte-se em recurso educacional de valor para formar pessoas e, naturalmente, para melhorar a formação dos médicos. Aqui está a resposta à pergunta que costuma inaugurar os vários cenários educacionais aos quais sou convocado.
Mas isto que funciona para os médicos, não funcionaria para qualquer pessoa? Evidentemente que sim. Daí que o que se iniciou como uma necessidade docente específica –trazer os estudantes de medicina para o lado humano do enfermo- amplia suas possibilidades educacionais com enorme espectro. A razão é simples: O universo da afetividade – sentimentos, emoções e paixões – vêm assumindo um crescente papel de protagonista no mundo da educação. As emoções do aluno não podem ser ignoradas neste processo. Cabe ao educador contemplá-las e utilizá-las como verdadeira porta de entrada para compreender o universo do estudante. Formar o ser humano requer educar sua afetividade, trabalhar com as emoções. Como fazer isto de modo ágil, moderno, compreensível, eficaz? O Cinema mostra-se particularmente útil na educação afetiva, por sintonizar com o universo do estudante onde impera uma cultura da emoção e da imagem. Educar as atitudes supõe mais do que oferecer conceitos teóricos ou simples treinos; implica promover a reflexão que facilita a descoberta de si mesmo, e permite extrair do núcleo íntimo do ser humano um compromisso por melhorar. Professores, estudantes, líderes empresariais, educadores familiares agentes sociais, recursos humanos e todos os que têm a gestão de pessoas como objetivo profissional encontrarão no meu mais recente livro “A Educação da Afetividade através do Cinema” uma metodologia simples, acessível e divertida para aperfeiçoar seu desempenho. Onde há pessoas querendo melhorar e alguém querendo educar o cinema tem vez.
A abordagem pedagógica clássica costuma dividir os objetivos educacionais em três grandes categorias: assim os cognitivos, os psicodinâmicos e os afetivos, implicando respectivamente a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento de habilidades e a educação da afetividade. Enquanto os dois primeiros são de fácil avaliação ou, pelo menos, passíveis de uma avaliação objetiva –através de provas, testes e desempenho de aptidões- avaliar a qualidade da educação afetiva é tema que entranha muito maior complexidade. Não há como medir com “objetividade” o crescimento ou a correta orientação da dinâmica afetiva do educando; e como sempre acontece com aquilo que é difícil medir, corre o risco de ser esquecido, ou colocado no âmbito da pura arbitrariedade. Em outras palavras: cada educador avalia a educação afetiva como quer, ou como pode, ou simplesmente deixa fazê-lo. Isto significa que, na prática, muitas vezes nem é levada em consideração ao estabelecer os objetivos educacionais. Pretender uma avaliação objetiva –análoga á praticada com os conhecimentos técnicos de física ou de história e geografia, por colocar um exemplo- é desconhecer a natureza do fenômeno, querer juntar litros com metros, ou medir o amor por quilogramas. A dificuldade na medida, na avaliação, é porque talvez não se trate tanto de medir como de fomentar e promover a afetividade.
Pablo González Blasco é médico (FMUSP, 1981) e Doutor em Medicina (FMUSP, 2002). Membro Fundador (São Paulo, 1992) e Diretor Científico da SOBRAMFA – Sociedade Brasileira de Medicina de Família, e Membro Internacional da Society of Teachers of Family Medicine (STFM). É autor dos livros “O Médico de Família, hoje” (SOBRAMFA, 1997), “Medicina de Família & Cinema” (Casa do Psicólogo, 2002) “Educação da Afetividade através do Cinema” (IEF-Instituto de Ensino e Fomento/SOBRAMFA, São Paulo, 2006) , ”Humanizando a Medicina: Uma Metodologia com o Cinema” (Sâo Camilo, 2011) e “Lições de Liderança no Cinema” (SOBRAMFA, 2013). Co-autor dos livros “Princípios de Medicina de Família” (SOBRAMFA, São Paulo, 2003) e Cinemeducation: a Comprehensive Guide to using film in medical education. (Radcliffe Publishing, Oxford, UK. 2005).
Texto publicado no site de Pablo González Blasco, em 25/08/2007, link: http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2007/08/25/educar-as-emocoes/.









Tinha lido a crítica no jornal e chamou-me a atenção o motorista poeta. Depois chegou um desafio desses que, como sem querer, te lançam no grupo de colegas da faculdade, por ter criado uma fama imerecida de crítico de cinema. Dizia mais ou menos assim: “Assisti a um filme minimalista do Jim Jarmusch “Paterson” que indico. Curiosamente, pelo site de cinema ImDb acessei uma crítica do filme em espanhol cujo resenhista se chama Pablo Blasco…embora sei que não é você”. Recolhi a luva, e a guardei para ver a melhor ocasião para o duelo. Pouco depois outro amigo me espetou: “Tenho o filme para você. Paterson. Veja e me diga o que lhe parece”. Não havia mais o que esperar, agora com duas luvas no bolso. O duelo -um modo de dizer- estava lançado, quase que em simultânea, como aquele primeiro onde D’Artagnan enfrenta os três mosqueteiros, chegam os guardas de Richelieu e acaba conquistando a confiança de Athos, Porthos e Aramis.
Não sei se o filme seria a poesia no quotidiano ou melhor, transformar o afazer quotidiano em poesia, o que é muito mais difícil. Fazer da prosa diária poesia, como dizia um santo contemporâneo. Em qualquer caso, temos diante um ensaio que faz pensar, mas não é um filme intelectual, porque o quotidiano -a rotina mais chã- inunda todos os fotogramas. Um motorista de ônibus, interpretado por um ator de sobrenome Driver. Coincidência? O nome do protagonista é o mesmo da cidade onde vive e dirige o seu ônibus: Paterson. Também é o mesmo nome de uma série de poemas de William Carlos Williams que era nascido na região e, naturalmente, um ícone admirado pelo motorista.
Rotinas tremendas, que se sucedem dia após dia, com uma meticulosidade que dá para ajustar o relógio. Tempos curtos, espremidos, do horário de trabalho, para alinhavar alguns versos no caderno que Paterson carrega sempre consigo. Enquanto esquenta o ônibus, depois do almoço, numa parada ao voltar para casa. E em casa está Laura, a esposa, sempre mudando o visual, mas sem sair dos tons em branco e preto. Uma variedade desafiante do que é possível fazer apenas com duas cores. A mulher que quer mudar tudo, transforma, mas não sai do bicolor. Como um avião na pista, corre, supera o carro de fórmula 1, mas falta-lhe puxar do mancho para decolar. O mancho é justamente a poesia, que permite ver as coisas com perspectivas diferentes, com altura, volume, relevo, enfim, profundidade insuspeitada.
Houve conversas sobre o filme, que acabam decantando nestas linhas. Alguém me disse: “E o que você achou do contraste entre ele (sempre a mesma rotina) e a esposa (constante mutação), do tipo Parmênides X Heráclito?” Confesso que o touché que me chegou nesta comparação com os filósofos pré-socráticos fez-me pensar. E tive de responder à estocada com o primeiro que me veio à cabeça, também em moldes filosóficos: “Sim, o branco e preto constante da Laura (que tem o nome da mulher ideal de Petrarca, não por acaso) é algo que me fez pensar. Ela muda, sim; mas conserva o padrão branco e preto, e com ele transforma absolutamente tudo. Não sei se é Heráclito e Parmênides, ou mais Aristóteles e Tomás de Aquino com a essência, substancia e os acidentes. Tem o que permanece e o que muda. Mas o fundo está lá”.
Diz Fernando Pessoa, que muito entendia de poesia: “A vida é terra, e vive-la é lodo / Tudo é maneira, diferença ou modo/ Em tudo quanto faças sé só tu/ Em tudo quanto faças sé tu todo”. Somos rotina, pouca coisa, terra que os primeiros pingos das adversidades, transformam os sonhos em barro, nos melecamos por inteiro. Não há como evitar a condição de que somos pó, um recado bíblico, e voltaremos ao pó. A diferença é por nossa conta, a atitude que consegue transformar o pó rotineiro em verso romântico. A poesia conduz à reflexão que busca sentido no que faz diariamente, e justamente porque o encontra, dedica-se com afinco. A rotina -disse alguém- não é fazer as coisas de sempre, mas fazê-las ‘como sempre’. O que nos arranca da modalidade -do ‘como sempre’- é justamente o olhar poético. E essa atitude nos protege das vicissitudes -do lodo- que sempre chega, dos imprevistos, porque conseguimos chegar mais longe com a perspectiva poética.
Sem perder a condição de pó sofredor, de poeira que outros pisam ao caminhar, mas com a dignidade de quem sabe se elevar por cima do rasteiro e trivial. Vem à minha mente -esse é o risco da poesia, que uma puxa outra- os versos do poeta espanhol, Quevedo, quando fala da morte, e que estampo no original pela força que leva dentro: “Cerrar podrá mis ojos la postrera sombra que me llevare el blanco día (…)Alma a quien todo un Dios prisión ha sido, venas que humor a tanto fuego han dado/ médulas que han gloriosamente ardido, su cuerpo dejará, no su cuidado/ serán cenizas, mas tendrán sentido/ polvo serán, mas polvo enamorado”. Reduzidos a pó, após a morte, mas com o palpitar presente que fazem dos restos pó enamorado, cinzas com sentido, nas que permanece o mesmo cuidado estético e apaixonado.
A poesia do quotidiano, o caderno do motorista Paterson, evoca aqueles flash-mobs que encontramos no Youtube, onde no meio de uma praça, no mercado municipal, começam a soar acordes e de repente surge o brinde de La Traviata, o coro dos peregrinos de Nabuco, o Hino da Alegria, da nona sinfonia de Beethoven. E lá, entre o açougue e a peixaria, com roupas do ofício, marcadas e fétidas, tenores, sopranos e barítonos configuram um cenário lírico impensável em aquelas circunstâncias. E some o cheiro a peixe, a sujeira, enquanto o gari se transforma em Alfredo que convida a Violeta (até o momento a feirante de frutas) a abandonar a vida frívola e acompanha-lo nas aventuras do amor. Sem trocar de roupa, sem cenários, ao natural, porque a enxurrada artística releva os detalhes da rotina.
Houve quem disse que depois de Auschwitz a poesia não teria vez. E outros que, diante das carências humanas, se perguntavam qual o sentido da poesia em tempos de miséria, pois não enche as barrigas. Vendo Paterson e sentindo a dimensão da poesia fica claro que a colocação é justamente a contrária: a poesia nos salva do naufrágio no quotidiano, da miséria humana -própria e alheia- porque é alavanca que permite levantar-se sobre a poeira que nos cega e irrita. Outra lembrança abre-se espaço na memória: a figura de Mandela preso na cela, naquele filme superior de Clint Eastwood, 
As tais lembranças de amor eterno é mais um caso desastroso de tradução doméstica. Por que não manter o nome original italiano em tradução literal -embora o filme seja falado em inglês- A Correspondência? Mania de inventar moda, e de colocar em risco algo que não te pertence, e que pode desestimular a assistir este filme especial. Um filme dirigido por Tornatore, com música de Ennio Morricone, e interpretado por Jeremy Irons é algo que, no mínimo, é preciso ver. Um filme em inglês, mas com alma italiana. Daí a importância do título, que forma parte de todo o pacote, ou melhor, da obra de arte.
Mas as reflexões que destilam são muitas e apetitosas. Temos aqui um elogio rasgado aos recursos técnicos de comunicação moderna: mídia eletrônica, redes sociais, e-mails, mensagens por celular, e muitos outros. E todos eles comandados por um velho professor de astronomia, alguém profundamente humano, com uma cultura notável, experimentado na vida, que sabe e gosta de viver bem. Vale a pena entender este aparente paradoxo, porque hoje critica-se dos velhos que não estão atualizados na tecnologia moderna, que lhes custa acompanhar os próprios alunos -uma geração que parece nutrida com aplicativos dissolvidos no leite materno.
Um paradoxo que, na verdade, não existe. O que Jeremy Irons faz nas aparições na tela do computador -ou quando acusa presença por outros recursos- é um maravilhoso exemplo de conteúdo: quando há densidade e substância naquilo que se comunica, os recursos inovadores tornam-se extremamente úteis. Imaginemos, por exemplo, o que Cervantes ou Shakespeare no século XVI, Tomás de Aquino no XIII ou Agostinho de Hipona no V, poderiam ter feito se dispusessem de um computador. Ou o Cardeal Newman, que escreveu mais de 30 mil cartas, teria feito com os e-mails. É um exercício de imaginação interessante, que raramente as pessoas fazem, embora admirem toda a produção literária destes e de tantos autores…com tão poucos recursos.
Vivemos momentos de uso compulsivo de redes sociais e recursos de comunicação, para não comunicar absolutamente nada. Relacionam-se com multidões sem ligar o mais mínimo para ninguém em particular. Um uso descaradamente banal da capacidade de interagir com o próximo. Falta conteúdo pessoal -algo que eu quero dizer a alguém – e acaba-se importando de Power points melífluos e tediosos, filmes de WhatsApp embrulhados em canções de ninar, e ainda solicitam que enviem para todos os amigos. Misericórdia. Tenha amigos para isso. Na verdade, o buraco é mais fundo: as pessoas podem ter o que dizer, mas são incapazes de se exprimir, um analfabetismo preocupante da própria interioridade que recorre a emoticons, e outros produtos servidos nas prateleiras da internet, para ver se encaixam com a sua necessidade de transmitir algo: um pensamento, um desejo, um grunhido que seja….
Vale a pena ler o artigo… se o leitor for capaz. Porque lá se adverte que mesmo leitores vorazes estão perdendo a capacidade e o fôlego para leitura. O modo como a informação nos chega, formata não somente o conteúdo (quando existe) mas molda os hábitos do pensamento. Escritores, que sempre são os que mais leem, reconhecem que não conseguem enfrentar Guerra e Paz. E mesmo nos formatos eletrônico, os olhos surfam com rapidez, sem assimilar conteúdos.
Mas, a culpa não é deles. É dos velhos. “A juventude está perdida com todos esses celulares, com a internet, ninguém presta atenção na aula, nem à mesa, nem fala mais”. A condenação da tecnologia não resolve nada. Não é possível postular um retorno às cavernas, ou ao pombo correio, ou andar em jegue. O desafio é mesmo o conteúdo, e cabe aos velhos injetar a tecnologia moderna com experiência e sabedoria. Mostrar que tudo o que a modernidade nos oferece, pode ser magnífico quando existe substância, densidade, gosto, estética e até transpira humanidade.
(Miekkailija). Finlandia, Alemanha, 2015. Diretor: Klaus Härö. Intérpretes: Märt Avandi, Liisa Koppel, Ursula Ratasepp, Lembit Ulfsak, Joonas Koff, Marvel Leesment, Kirill Käro. Duração: 93 min.
Um clube de esgrima, com espadas de madeira, para crianças interioranas, algumas muito pequenas. Rapazes de calça curta, meninas de saia xadrez e trancinhas, um professor esgrimista, e um sonho. Está servido o filme. É que na verdade, como muito bem sabem o que se dedicam a educar, o conteúdo do que tem de ser ensinado é mero detalhe: o que realmente conta e faz toda a diferença, é a paixão por ensinar, a vontade de saber tirar dos alunos o seu melhor.
A Finlândia como pais moderno não e alheio a isto. Contou-me um amigo há algum tempo, que foi até lá para comprovar o que na Europa se denomina o milagre da Finlândia. “Em que consiste isso -lhe perguntei”. Ele disse-me que há uns 30 anos o índice de suicídios juvenis era muito alto nesse pais. Decidiram então fazer um pacto de estado priorizando a educação. P que aspira ao prêmio Nobel. E, quando os professores se aposentam, as empresas privadas lutam encarniçadamente por eles, porque ter um professor como diretivo é um verdadeiro privilégio. Esse é o milagre da Finlândia. Embora o nosso filme se situe algumas décadas antes de este cenário, já pode apalpar-se o gosto que desperta ser professor.
Não apenas gosto e privilégio, mas responsabilidade, porque educar é de fato embarcar num projeto -no mesmo barco, afinal estamos à beira do Báltico- junto com o aluno. Remamos todos juntos, conseguem-se as conquistas em grupo, o trabalho em equipe é fundamental, e ninguém pode abandonar o barco antes da hora. Marta, a jovem protagonista encara o professor que desapareceu por alguns momentos durante o concurso de esgrima: “Nunca mais nos abandone. Não podemos lutar sozinhos”. A presença do professor, silenciosa e serena, é condição para que o aluno possa dar o seu melhor.
Educar te complica a vida, não é atividade isenta de riscos, asséptica, onde o professor toma suas precauções para que aquilo não ultrapasse os limites razoáveis de um emprego. Em teoria, é assim, mas todos os filmes de professores mostram o encanto de arriscar, de ser criativo, de ir além -muito além – do razoável, do cumprir tabela. O esgrimista é mais um exemplo daquilo consegue se livrar nunca desta atividade. Não é um emprego, mas uma atitude.
Andava eu na rua, pensando com os meus botões nestas ideias, quando me deparei com uma patrulha da prefeitura cortando árvores que se inclinavam perigosamente. Aproximei-me deles e sugeri que podassem também uma árvore torta que ameaçava cair em cima da nossa casa: “Tem que fazer um ofício e esperar a vez”. Logo entendi que aquele grupo não tinha nada da criatividade docente que ocupava a minha cabeça. Desisti, e o comentei com o guarda do modestíssimo hotel que está do lado da casa. Ele me disse: “Isso é porque plantam as árvores muito grandes”. “Como assim? ”-perguntei-lhe. “Sim, quando a árvore é plantada pequena, tem tempo de que a copa cresça ao mesmo ritmo que as raízes. Mas se ela é já alta, as raízes não têm tempo de se desenvolver, e por isso entorta fácil.”. Sorri, e voltei satisfeito: a passividade que tomava conta dos funcionários públicos e que me deprimiu, foi desarticulada rapidamente pelo comentário sábio, de um homem de limitada cultura, mas observador.
A educação, pensei, tem de ser fisiológica, desde pequenos, como as crianças do filme. Dar tempo a que cresçam e de que as raízes mergulhem, para garantir solidez. Querer ultrapassar etapas -uma educação fast-food, ou suplementar com toneladas de informação, até em formato de aplicativos- não renderá árvores solidas. Com o passar do tempo, e as inclemências, acabarão entortando, ou mesmo serão arrancadas, e causarão desastres. Precisamos de tempo fisiológico para desenvolver raízes. O que significa paciência, serenidade, criatividade e acompanhar: estar sempre por perto, não os deixar lutar sozinhos.