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Filhos de escanteio

Opinião Pública | 03/04/2019 | | IFE CAMPINAS

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Estava olhando lâmpadas para a casa num determinado supermercado da cidade. Às minhas costas havia um senhor reclamando. Parecia falar sozinho. Bom – pensei eu – talvez seja um maluco mesmo. Passaram-se alguns segundos e olhei ao lado. Vi um jovem que parecia estar com ele. Era seu filho, um jovem adolescente. Dali a pouco ouço o senhor comentando para o garoto algo como: “Você veio pedindo dica para passar de ano, eu lhe dei e você deixou a por** do ano passar. Você é um filho da p*** mesmo” e, reclamando, disse algumas coisas mais.

Meio maluco esse senhor com certeza é. Talvez seja alcoólatra. E antes que associem alcoolismo com renda, eu estava num supermercado frequentado notavelmente pelas classes A e B. E esse senhor não aparentava ser pobre. Mas, enfim, permanece o fato objetivo: a relação desse pai para com seu filho.

Logo pensei no que este jovem iria se tornar recebendo uma educação assim. Desde o início reparei que o garoto tinha um perfil meio deprimido, ou de baixa auto-estima. Momentos depois, já em outra seção do supermercado, pude cruzar com ambos novamente e confirmei tal perfil: cabisbaixo, pouco ânimo e retraído. Evidentemente, não dá para saber o que se passa naquela família e não se pode julgá-los. Pode ser também que estavam num dia mal, mas acho difícil. Dada a “naturalidade” com que o senhor tratava o garoto daquele modo, isso dava a entender que aquele tipo de situação não era algo muito raro em suas vidas.

O ponto, porém, é que essa situação que acabo de descrever fez-me pensar em como diversos pais têm tratado e educado seus filhos nos dias de hoje. Um modo é justamente o que aparentemente vi nesse senhor. É como se o “velho” tivesse a obrigação de dar o sustento e a vestimenta que isso só já estaria OK. Quantos pais não são assim com seus filhos hoje?! Tratam seus filhos e filhas à semelhança de um animalzinho: o importante é dar de comer, beber e vestir. Claro que, além disso, os colocam na escola e lhes propiciam de algum modo o lazer.

No entanto, olhando de certo ponto de vista, parece que estão a educar um animal de zoológico: o importante é dar aos filhos elementos para a sua “sobrevivência”: comida, bebida, escola e divertimento, mesmo porque, assim, a “fera” ficaria – repito, ficaria – “domada”. Dando isso aos filhos, os pais poderiam ficar em “paz”.

Não é preciso haver estupidez para que o tipo de educação que acabo de rascunhar se realize. Muitas vezes certos pais não são estúpidos, mas mesmo assim tratam seus filhos quase como se fossem animaizinhos. Assim, pais preocupam-se e se ocupam sobremodo consigo mesmos, só pensando em si mesmos, de tal modo que aos filhos restam elementos para a sua “sobrevivência”. Dão o necessário e estão até fisicamente presentes, mas espiritualmente ausentes para os filhos, por assim dizer. Estes, por sua vez, são deixados aos mais variados tipos de entretenimento: videogames, séries televisivas, Internet, celular, assim como outras ocupações, a exemplo do esporte. Alimentação, vestimenta etc. estão garantidos…, mas será que está havendo boa educação e amor genuíno, de doação de si próprios aos filhos? Ou os próprios interesses, hobbies, trabalhos etc. estão de tal modo tomando espaço que os filhos ficam de escanteio?

Penso que muitos pais não têm consciência clara disso, embora eu possa estar enganado nisso e em todo o restante que acabo de descrever. Acontece que, nessa mentalidade, bastaria satisfazer os sentidos e dar o necessário que a educação e a formação estariam prontas. No entanto, somos muito mais do que nossa sensibilidade, mais do que a educação formal que recebemos e mais do que aquilo com que nos ocupamos. De nada adianta dar de comer e beber, de nada adianta colocar na escola e em outras ocupações, se não se gasta tempo com os filhos para estar presente com eles, para se doar a eles gratuitamente. Com os pais pensando só em si próprios, restando pouco espaço para os filhos, estes ficam tristemente de escanteio, sofrem e fazem sofrer.

João Toniolo é mestre e doutorando em Filosofia e membro do IFE Campinas. E-mail: joaotoniolo@ife.org.br.

Artigo originalmente publicado no jornal Correio Popular, Edição de 3 de Abril de 2019, Página A2 – Opinião.

Assédio e amor

Opinião Pública | 17/07/2018 | | IFE CAMPINAS

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Outro dia, enquanto entregava as redações para os alunos, ouvi uma estudante contar a outra uma história de balada. Dizia a jovem que meninos puxavam as garotas pelos cabelos na expectativa de algum contato. Perguntei se era um jeito novo de paquera. Ela respondeu, não sem certa indignação, que sim.

Nem tive tempo de exclamar “no meu tempo não era assim”. Veio-me à memória um episódio da minha adolescência. Falamos, portanto, do início dos anos noventa. Em uma casa noturna, os meninos faziam um corredor em locais estratégicos nos quais elas passavam. Alisavam os cabelos delas, puxavam-nas pelo braço. E tudo isso era paquera. Alguns podem dizer que se trata de uma volta ao tempo das cavernas. Porém, duvido que algum arqueólogo possa nos contar como era o flerte em épocas tão remotas…

Também sou da época em que ficar era algo normal. Lembro-me de não gostar desse tipo de relacionamento. Achava o namoro algo muito mais interessante do que a conquista de uma noite. Contudo, foi só uns anos mais tarde que consegui dar o meu grito de independência e afirmar: “Sou homem para casar. De agora em diante, não fico com mais ninguém.” Ou melhor, se ficasse, seria com o intuito de não largar mais. Não foi fácil, pois a mentalidade das relações descartáveis já me impregnara. Além disso, encontrar outra pessoa com o mesmo ideal era bem difícil.

Para ser sincero, não me surpreende o crescimento dos casos de assédio. É uma consequência direta de se tratar o desejo com desdém e as pessoas como veículos de boas sensações. Ora, o desejo sexual é o desejo por uma pessoa. Como bem nota o filósofo Roger Scruton, ele se dá por um olhar interessado: “É o olhar de interesse sexual que precipita o movimento da alma, pelo qual duas pessoas saem da multidão em que estão presentes, ligados por um conhecimento que não pode ser expresso em palavras, e oferecem um ao outro uma comunicação silenciosa que ignora tudo, a não ser eles mesmos”. Significa, portanto, que essa pessoa se distingue para mim entre tantos e que indico ter propósitos para ela, continua o autor.

Pela sua natureza, o desejo sexual visa a um compromisso existencial. Quando não se puxa os cabelos, mas se olha para a outra pessoa, ela ganha uma singularidade que não vejo em mais ninguém, apenas no ser que é o centro das minhas atenções. No momento em que transformo essa pessoa em uma conquista, em uma demonstração de poder, em alguém cuja vontade pouco importa, a relação acontece no campo da utilidade. É a mesma relação que temos com as coisas.

Hoje já não se fala mais “ficar” com alguém. O verbo dava uma impressão de certa continuidade, deixava aberta a possibilidade a outras “ficadas”, o que poderia redundar em namoro. Tudo na condicional, o que já demonstrava uma clara intenção de não se comprometer. Os jovens dizem “pegar”, no sentido de agarrar-se com alguém. Substituem a famosa frase “é pegar ou largar”, por “é pegar e largar”, para depois pegar e largar, e assim sucessivamente. Parece picuinha analisar os termos ou gírias que cada geração utiliza para as suas relações, contudo as palavras mostram o nosso pensamento. Nesse caso, a maneira como os jovens encaram as relações.

Temo que nesse “pegar” resida uma carência. O que a nossa geração deixou de herança para eles? Relações desfeitas, amores provisórios, que, não raras vezes, lhes causaram grandes feridas. O que eles não sabem é que essas relações esporádicas apenas agravam o seu sofrimento. Além disso, pode impedi-los de viver um grande amor. Por quê? Porque o amor exige tempo. A paixão idealiza; busca igualar o desejo que sinto por uma pessoa com as pretensas qualidades que ela possui. Os anos de convivência com outro ser nos conduzem a uma visão mais equilibrada, verdadeira e, portanto, a um amor mais profundo, porque já não tem origem na nossa idealização, e sim em quem a pessoa é. Ficar ou pegar é para imaturos, tanto faz a idade; já o amor é para gente grande, moralmente falando.

Eduardo Gama é professor, membro do IFE-Campinas e mestre em Literatura pela USP.

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 17/07/2018, Página A-2, Opinião.

Amor, ontem e hoje

Opinião Pública | 18/10/2017 | | IFE CAMPINAS

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Recentemente, conversava com uns amigos sobre os tempos de faculdade. Cada um indicou seu maior legado. Para uns, foi a formação acadêmica; para alguns, foram as amizades; para outros, foram as festas e os jogos universitários. Para mim, foram tempos inesquecíveis em muitos sentidos, mas o maior legado do Largo de São Francisco foi o amor. E, por isso, sempre que vou ao centro de São Paulo, passo por lá, sento-me entre aquelas arcadas históricas e simplesmente me desligo por alguns instantes do mundo em volta.

A qual amor me refiro? O amor ao direito, à minha profissão, aos estudos, aos meus amigos, aos injustiçados e à minha segunda namorada, que se casou comigo depois. Mas não necessariamente nessa ordem, porque corro o sério risco de ter problemas lá em casa. Assim, deixemos as causas de lado e concentremo-nos na pessoa amada.

Quando amamos uma pessoa, parece que nossa vontade é catapultada a uma capacidade de criar sem fim. Talvez isso decorra do fato de que uma pessoa é sempre uma fonte de novidades. Criar é fazer que existam coisas novas. O mais criador que existe é o amor: “todo amor é criador e não se cria mais que por amor”, já disse o poeta.

Por exemplo, nesse afã criativo, o amor aguça a capacidade de superar as dificuldades para unir-se e conhecer ao ser amado. Busca sempre novas formas de afirmação do outro. Mas, busca, sobretudo, uma coisa fundamental: sua perpetuação imortal no outro, ainda que a morte, um dia, venha a separar os amantes fisicamente.

Cada um de nós é um ser intrinsecamente amoroso, é uma realidade amorosa. Seria interessante estudar histórica ou socialmente a condição amorosa, que se realiza de formas muito diversas, com variações de intensidade e de conteúdo, nas manifestações reais da vida pessoal ou literárias da vida social. E relacionar esse dado com a atitude face àquela imortalidade.

Será que não existem épocas em que o homem sente fortemente a pretensão de imortalidade, tem vivo interesse por ela, por continuar vivendo sempre, precisamente porque tem uma realidade intensamente amorosa? Pelo contrário, não sucederá que, em épocas em que a capacidade amorosa decai, o nível amoroso anda baixo, produz-se diretamente uma queda no desejo de imortalidade, da pretensão de perdurar?

Apesar do ceticismo que, infelizmente, mina a capacidade de amar das pessoas nos dias atuais, ainda há manifestações culturais, principalmente na música e na literatura, que enaltecem aquela perpetuação imortal do amor. À medida que se ama, necessita-se continuar vivendo ou voltar a viver depois da morte para continuar amando. Recordo-me de uma bela afirmação de Agostinho: “meu peso é meu amor, por ele sou levado onde quer que eu vá”. É o peso da vida humana, o amor, que nos carrega de uma parte a outra.

Hoje, tenho a impressão de que vivemos numa crise de amor. O amor, essa constante disposição da vontade humana, deu lugar para os afetos, sempre instáveis, em todos os relacionamentos. E, num ambiente de pluriafetividade, não há espaço para um desejo de imortalidade. É o aniquilamento do amor. Tudo passa a ser fugaz e superficial. Líquido.

“Tu que eu amo, não morrerás”, é a feliz fórmula de outro poeta. Isso significa a impossibilidade de se pensar no fim da pessoa amada. Necessita-se dessa pessoa para que a vida tenha sentido. Se o homem estivesse destinado a perecer, não seria tudo um enorme engano, uma espécie de brincadeira de mau gosto? A vida teria um sentido? Mas o que impulsiona essa maneira de ver as coisas é precisamente o amor.

Se não se ama, tudo cai na própria base e já não importa nada. Em outras palavras, quem não ama com aquele afã criativo de eternidade, não só não deseja continuar a viver, mas já converteu sua vida num tremendo engano. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes. Ph.D., é juiz de direito, professor-pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras

Artigo publicado no jornal Correio Popular​, edição 18/10/2017, Página A-2, Opinião.

Um não sei que especial

Opinião Pública | 26/07/2017 | | IFE CAMPINAS

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O dia 26 de julho, desde muitos séculos foi estabelecido na liturgia da Igreja como a celebração da memória de São Joaquim e Santa Ana, pais de Maria e, portanto avós de Jesus Cristo. Desta memória litúrgica nasceu a comemoração do Dia dos Avós.

Convivi alguns anos com meus avós maternos, os paternos já haviam falecido antes mesmo que meu pai tivesse se casado e ao longo de minha vida fui me deparando com muita gente mais vivida que ocupou um pouco esse posto de avô ou avó. Meus avós maternos eram gente muito simples, nasceram e viveram sua vida toda na pequena cidade mineira de Andradas, de onde saíram poucas vezes. Eram figuras veneradas por mim e tinham um “não sei que” de especial que desde menino me fazia querê-los muito bem e desejar estar com eles, em especial para ouvir as histórias que contavam do tempo em que viveram na roça, quando minha mãe ou meus tios nasceram, o que faziam, que dificuldades passaram… Não falavam muito, mas ainda assim me sentia amado por eles e ouvir isso verbalmente pouco me importava.

Muita gente distingue o amor “afetivo” do amor “efetivo” e há muito de verdade nesse tipo de distinção. Lembro-me de meu avô que foi agricultor a vida toda, taciturno, observava tudo, não tinha o costume de fazer carinho ou coisa do tipo, mas sabia que eu gostava muito de café e quando ia beber o seu já tirava do armário uma xícara a mais e me avisava que ia tomar seu café. Isso já era o suficiente para que eu entendesse que ele me queria bem.

Minha avó preocupava-se em me fazer comer o tempo todo e em me arranjar do melhor modo para poder dormir ou brincar na sua casa. Minha mãe, como quase toda mãe, julgava que eu abusava dessa bondade querendo sempre que possível ir passar uns dias na casa deles e, não raro, me advertia que não deveria aceitar nenhum convite para passar muito tempo por lá, porém, a cada uma das férias escolares que se avizinhavam, mesmo com as negativas de minha mãe, no fundo eu sempre esperava por aquela visita na casa de meus avós, no qual minha avó acabava perguntando em público, diante de toda família, quando eu iria passar uns dias por lá. Nunca combinei nada com ela e nem teria coragem de fazê-lo, mas como que numa cumplicidade inconsciente a pergunta sempre vinha precisa e certeira, quase constrangendo meus pais a permitirem que eu ficasse um tempo por ali. Mesmo sabendo que meus pais não gostariam que aceitasse, eu nunca recusava.

Minha relação com meus avós sempre foi desse amor efetivo, sem muitas palavras, sem muitos afetos exteriorizados, mas algo simples, direto e claro. Eles sabiam que eu os amava, mesmo sem eu nunca ter lhes dito e o mesmo ocorria comigo. Meu avô morreu numa dessas minhas visitas de férias. Era janeiro, as aulas ainda demorariam a começar. Em maio do ano seguinte foi a vez de minha avó. Com a morte de ambos as férias já não eram mais iguais, mas a memória de ambos me fazia pensar no quanto foi bom tê-los por um tempo, porque de todas as histórias que eu ouvia de minha mãe, incluindo as correções severas de que ela e meus tios foram alvo, essas eram coisas que nunca tinham acontecido comigo e que talvez o afeto que meus avós não souberam ou não puderam lhes dar, foi de certo modo direcionado a mim e aos outros netos, como que numa reserva de amor que era para os filhos, mas que as dificuldades da vida os levaram a oferecer a nós, felizes receptores daquilo que faltou a nossos pais.

Enquanto finalizo estas linhas, vejo se repetir na vida de minha filhinha, ainda bebê, um pouco de minha história: o avô paterno dela também se foi antes que eu casasse, mas ainda que o uso da razão de modo pleno lhe escape, hoje foi dia de levá-la pela primeira vez ao túmulo de seu avô para lhe dizer que ali estava alguém que me ensinou a como ser pai. Celebremos alegremente a vida dos avós que se foram, daqueles que estão conosco e as marcas indeléveis que o convívio com eles imprime em nossas vidas!

L. Raphael Tonon é professor de História, Filosofia e Ensino Religioso, gestor do Núcleo de Teologia do IFE Campinas (raphaeltonon@ife.org.br).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 26/07/2017, Página A-2, Opinião.

Reformistas conformistas

Opinião Pública | 01/02/2017 | | IFE CAMPINAS

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Uma das maiores reivindicações das mulheres atualmente – expressa não apenas publicamente nos movimentos feministas, mas também em confidências sobre relacionamentos – diz respeito à objetificação da mulher. As propagandas de cerveja, a indústria pornográfica e os casos de estupro comprovam, de forma explícita, o fenômeno. No entanto, a questão não se restringe a tais abomináveis situações, também se apresenta, de forma menos patente, nas relações pessoais.

Apesar de se creditar a objetificação da mulher à mentalidade machista, seu fundamento é anterior, tem como princípio os ideais utilitários. O utilitarismo, que configura hoje um sistema filosófico, se manifesta – usualmente de maneira inconsciente – na forma de conduta da sociedade moderna. Ao considerar o prazer como único e maior bem ao qual o ser humano aspira e, por conseguinte, como o fim de sua existência, concebe-o também como único parâmetro da norma moral das ações humanas. Dessa forma, tudo é tido como meio para atingir o fim máximo do prazer, inclusive a pessoa humana.

A despeito de sua presença em diversas épocas, a mentalidade utilitarista assumiu uma forma especialmente perniciosa no campo da sexualidade, principalmente com a chamada “liberação sexual”. Tornamo-nos “livres” para usar e sermos usados. Desse modo, o “amor” converte-se numa fusão de egoísmos: cada um defende o próprio egoísmo e aceita servir ao egoísmo alheio, sob a exigência de que o outro se disponha a satisfazer o seu. A pessoa rebaixa-se à condição de instrumento, uma vez que trata o outro como tal. A reciprocidade no egoísmo – cujos interesses podem ser a satisfação sexual, afetiva ou qualquer outra – em certo momento, revela seu caráter frágil de conveniência passageira.

Como antítese ao ideal utilitarista, está o princípio personalista, segundo o qual a pessoa é um bem que não se coaduna com a utilização e, portanto, não pode ser tratada como um objeto de prazer. O valor da pessoa não está, pois, subordinado à sua utilidade. O prazer desfrutado não é um fim em si, mas uma consequência da única atitude à altura do valor da pessoa humana: o amor. “Não basta desejar a pessoa como um bem para si mesmo, é preciso, além disso e sobretudo, querer o bem para ela. Esta orientação da vontade e dos sentimentos, altruísta por excelência, é chamada por S. Tomás de “amor benevolentiae” ou simplesmente “benevolentia”. O amor de uma pessoa por outra deve ser benevolente para ser verdadeiro, caso contrário, não será amor, só egoísmo.”, assinala um dos principais propagadores do personalismo, Karol Wojtyla – posteriormente Papa e hoje São João Paulo II.

Na luta interior de todo ser humano, a comodidade de voltar-se para si e, por consequência, usar-se dos demais, promove satisfações momentâneas, mas corrói as relações, que se tornam fugazes e descartáveis. Por outro lado, optar por fazer-se dom para o outro exige sacrifícios mas, ao contrário, além de suscitar alegria duradoura, constrói relações verdadeiras e maduras.

O combate à objetificação da mulher, e da pessoa humana no geral, requer, evidentemente, a recriminação da indústria pornográfica, cinematográfica, da moda e do marketing que mercantilizam o corpo feminino. Porém, reclama também o questionamento de nossa inserção enquanto agentes atuantes desta realidade cultural, e não como entes externos, alheios ao problema ou meras vítimas do “sistema”.

Parece cômodo ignorar que a objetificação consentida, permanece objetificação – o consentimento pode tornar o ato juridicamente legal, mas moralmente persiste como uma afronta à dignidade da pessoa. Parece conveniente desprezar nossa condescendência com formas menos evidentes de objetificar ou ser objetificado e culpabilizar tão somente instituições ou ideologias, sem que isso demande uma mudança de conduta própria. Mas, infelizmente, de reformistas em relação à sociedade e conformistas em relação a si mesmos, o mundo já está repleto. Revolucionários de passeata há muitos, estão em falta revolucionários no amor.

Beatriz Figueiredo de Rezende é graduanda em Ciências Econômicas na Unicamp e membro do IFE Campinas.