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Dilemas do homem atual

Filosofia | 13/10/2017 | | IFE BRASIL

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A figura de Sônia, do livro Crime e Castigo, de Dostoiévski, traduz o diagnóstico do genial escritor russo para o homem contemporâneo. Sônia é uma menina de 17 anos, filha de um pai alcoólatra e irresponsável e de uma madrasta deprimida, neurótica, agressiva e tuberculosa, com vários irmãos daqui e dali. Neste contexto, Sônia é levada, pelas circunstâncias, à prostituição para o sustento da família, mas nunca deixou sua fé de lado.

Contudo, ao contrário da percepção esperada pelo leitor e, principalmente, por Raskólnikov, um estudante influenciado por teorias sobre a origem estritamente humana da moral, na tradição de Maquiavel a Nietzsche, Sônia não guarda rancores do próximo. Muito pelo contrário, sente misericórdia por todos e, inclusive, por sua clientela, composta por bêbados, doentes e velhos que possuíam seu corpo de menina em troca de uns rublos.

Sônia não brilha para nós, seres voltados para o nosso umbigo, simplesmente porque ela ama. Para ela, se alguém ama, então é livre. Segundo o autor russo, quando Sônia, em seu movimento de amor, torna-se opaca (antes, uma menina perdida que, agora, necessita reencontrar-se), estamos no reino do niilismo chique e científico, a saber, a ciência e sua cultura, incapaz de produzir valores perenes.

O homem atual é caracterizado por um relativismo cultural e histórico, fruto do próprio processo filosófico e científico contemporâneo que, por vezes, é apontado como a única solução para uma boa convivência democrática, dentro do espectro da “tolerância às diferenças”, fato gerador daquilo que foi chamado por Ratzinger como a “tolerância intolerante”, mormente quando o debate público refere-se à dimensão religiosa do homem.

No entanto, tal espectro gera, sob outro ângulo, um impasse intelectual e prático, sobretudo no campo dos inúmeros dilemas éticos que vivemos, muitos dos quais encerram verdadeiras aporias, a serem “superadas”, em muitos países, pelos trabalhos das Cortes Constitucionais que, ultimamente, ao invés de interpretar a realidade jurídica a partir das chaves de leitura existentes na realidade ontológica, têm resolvido inovar nessa mesma realidade, ao arrepio do conselho de Gadamer: “Se queres dizer algo sobre um texto, deixe que o texto lhe diga algo antes”.

Outro dado marcante do homem atual é sua completa dependência de toda situação que realize seu desejo. Aliás, tal constatação, que poderia ser meramente empírica, deixou essa esfera e ingressou no terreno axiológico, como um dos poucos e válidos critérios de valor. Some-se o apego generalizado pelas coisas materiais, as quais precisam ser adquiridas de forma imediata, paradoxalmente, na mesma velocidade com que, depois, saturam a pessoa, um círculo vicioso gerado pela dinâmica de uma “sociedade de mercado”, em que tudo é precificado e que são criadas sempre novas “necessidades”, com o intuito de o mercado satisfazê-las depois.

Assim, a tríade relativismo-consumismo-hedonismo substituiu, num só golpe, o eixo que sustentou a humanidade por séculos, formado pela transcendência, esperança e caridade. Evidentemente que a assunção daquela tríade foi fruto do desenvolvimento do pensamento moderno, definido, primeiramente, pelo paradigma de cisão entre filosofia e teologia (Descartes) e entre filosofia e ciência (Kant). Ato contínuo, tomou corpo o paradigma de identidade, o qual identifica o absoluto com a história (Hegel) ou com a ciência (Comte), acompanhado, depois, pelo paradigma do efêmero, que nasce com a adoração do tempo, e, ao cabo, pelo paradigma do desprezo à verdade (pragmatismo), seguido de sua negação (niilismo).

Entretanto, não se trata de refutar totalmente a cultura moderna, pois pensamos que muitas de suas facetas contribuíram materialmente para o incremento do tesouro intelectual da humanidade, naquilo que de sentido transcendente subsistiu em cada esforço em direção à órbita veritativa. As lições úteis devem ser conservadas: dentre as quais, uma maior sensibilidade filosófica na captação dos erros de algumas correntes de pensamento e a depuração epistemológica de uma visão estritamente intelectualista da filosofia.

Diante desse “humanismo antropocêntrico” que assinala a humanidade atual, convém refutar o antropocentrismo e não o humanismo, porquanto é legítima uma fecunda valorização do homem, mas não a sua absolutização, que degenera no niilismo mais pedestre. Em substituição, propomos um “humanismo teocêntrico”, infenso a alguns atavismos nostálgicos da Idade Média, justificantes da historicidade dessa importante época humana e que, hoje, padecem de sentido, sem refutarmos o magnífico desenvolvimento das ciências no curso dos últimos séculos, desde que suas conquistas respeitem a dignidade da pessoa humana.

Dessa forma, acreditamos que as ciências e a filosofia não mais estarão, como outrora, numa relação de instrumentalidade nos confrontos com a teologia, conferindo-se, por outro lado, o lugar certo na ordem de valores para as mais elevadas formas do conhecimento. É induvidoso que uma inteligência formada exclusivamente pelos hábitos mentais da tecnologia e das ciências dos fenômenos dificilmente vive um ambiente normal aberto para o transcendente. Não obstante, a inteligência natural, que opera no senso comum, está centrada no ser espontaneamente e, com frequência, dá muitas pistas para o conhecimento da verdade para aqueles cujo coração está aberto a tanto.

Nunca os homens tiveram tanta necessidade do clima intelectual da filosofia e da teologia, irmanadas num propósito específico: o homem. Talvez, por isso, exista algum medo nesta aventura existencial, a única senda eficaz para reintegrar a inteligência ao seu funcionamento mais natural e profundo e, logo, reconciliar suas vias com o caminho próprio da transcendência.

Nesse momento, a menina Sônia torna-se menos opaca, e podemos perceber que ela é, na literatura, a encarnação do verdadeiro humanismo que vaga, como um cego, pelas “Sibérias” do pensamento humano. Ela está sempre pronta a nos fazer ressurgir, como fez com Raskólnikov que, depois da leitura da passagem evangélica sobre a ressureição de Lázaro, inicia seu processo de regeneração existencial e moral rumo ao resgate do homem novo de São Paulo apóstolo, esse homem teocentricamente reconciliado consigo mesmo.

 

André Gonçalves Fernandes é graduado cum laude pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Mestre e Doutorando em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP. Juiz de direito titular de entrância final. Pesquisador do grupo Paideia, na linha de ética, política e educação (DGP – Lattes) e professor-coordenador de metodologia jurídica do CEU-IICS Escola de Direito. Coordenador Acadêmico do Instituto de Formação e Educação. Juiz Instrutor/formador da Escola Paulista da Magistratura. Colunista do Correio Popular de Campinas. Consultor da Comissão Especial de Ensino Jurídico da OAB. Coordenador Estadual (São Paulo – Interior) da Associação de Direito de Família e das Sucessões. Membro do Comitê Científico do CCFT Working Group, da União dos Juristas Católicos de São Paulo e da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas. Detentor de prêmios em concursos de monografias jurídicas e de crônicas literárias. Autor de livros publicados no Brasil e no Exterior e de artigos científicos em revistas especializadas. Titular da cadeira nº30 da Academia Campinense de Letras.

 

 

 

Espírito de Dunquerque

Opinião Pública | 16/08/2017 | | IFE CAMPINAS

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“Caro pai, fui assistir ao filme que combinamos ir juntos no último mês de janeiro, quando você ainda entendia as coisas e respondia por seus atos: ‘Dunkirk’, outra película para nossa galeria de filmes da IIGM, evento que seu pai, meu avô, participou como soldado da FEB, para desespero de sua mãe, minha avó.

Você resolveu ir embora antes. Paciência. Perdeu um trabalho cinematográfico bonito, com um visual impecável, uma fotografia maravilhosa e um áudio – e mesmo a ausência dele – que nos transporta para a condição de mais um soldado nas praias e nos céus de Dunquerque.

São três narrativas – a do aviador, a do soldado e a do pai de famíila – que protagonizam e rivalizam entre si, intercaladamente, em arcos narrativos distintos e que, durante uma semana perdida de 1940, acentuam a dificuldade prudencial nas decisões cruciais e os egos inflados que costumam pagar a conta com muitos cadáveres.

Mas não é só. O filme, por retratar uma retirada geral e, como dizia Churchill, não se ganham guerras com debandadas, é o oposto de outras obras do gênero a que pudemos assistir juntos, amado pai, como ‘Band of Brothers’, ‘Pacífico’, ‘A Conquista da Honra’ e ‘O Resgate do Soldado Ryan’.

Aqui, não há uma batalha final, um enfrentamento militar clássico vencido sem munição e na ponta da baioneta ou mesmo uma virada militar estratégica, padrão ‘General Patton’, de última hora: existe um ambiente desolado e apocalíptico sem a pornografia de guerra, um cenário de vergonha na praia repleta de soldados zumbificados pela derrota e um teatro de operações militares dominado pelo inimigo alemão na terra e, sobretudo, no ar.

O desenho do enredo praticamente nos conduz para uma postura estática, a mesma que, ao longo do filme, é vivenciada pelo grisalho oficial da marinha real britânica, quando contempla as poucas vinte milhas náuticas que separam as silenciosas falésias de Dover das turbulentas areias das praias de Dunquerque.

Entretanto, estimado pai, nas entrelinhas das ações das três linhas narrativas dessa jornada nada épica existe algo bem visível por detrás do manto diáfano de toda essa humilhação existencial. Algo que lhe agradaria muito, como militar e historiador que, durante 50 anos, você foi. Nesse filme, descortina-se a epopeia do cumprimento do dever-missão por meio de uma série de valores que você nos ensinou em casa.

Valores que, hoje, são apresentados como peças de um museu de obsolescências morais do século XX. Algo que foi bom, que não existe mais e que ajuda como azeite na alma atribulada pela ausência de compromisso ético, realidade que pauta o cotidiano das sociedades do século XXI.

Certamente, isso lhe incomodaria muito. Para essas almas, esses valores poderiam ser sonhados no conforto de uma poltrona de cinema. Todavia, no frenesi dos dias que se sucedem, eles não teriam mais sentido. E nem mesmo a noção de dever-missão. Uma combinação niilista-pessimista de Sartre com Bauman.

Lembro-me daquilo que você chamava de ‘idealismo prático’: o idealismo que muda a vida e que não somente tempera o final de tarde com pipoca e refrigerante diante da telona. Não somos peças de museu. Somos reais e um filme de guerra, você dizia, é perfeito se nos leva a transformar nossa vida diária numa grande película de chamado ao sentido de dever-missão.

Quando Dunquerque ficou no horizonte continental e o último soldado inglês aportou na ilha, Churchill fez seu famoso discurso ‘We shall fight on the beaches’ e, lá no meio da exortação, ao dizer que ‘nunca nos renderemos’, o estadista que mais admiro só fez, amado pai, reforçar sua lição doméstica de dever-missão.

Como na evacuação inglesa, do caos de nossas vidas, é possível, no meio da névoa da guerra interior, na expressão de Clausewitz, fazer emergir uma derrota virada ao avesso, pelas sendas do espírito que ali, naquelas praias, uniu o aviador, o soldado e o pai de família: o espírito de um dever que se converte em missão existencial. O espírito de Dunquerque.

É isso, querido pai. Fico por aqui. Saudades e obrigado”.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 16/08/2017, Página A-2, Opinião.

Um tesouro a descobrir

Opinião Pública | 15/06/2016 | | IFE CAMPINAS

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Um amigo resolveu pregar uma peça e postou uma foto de uma planície toda branca e, num relance, parecia um campo coberto de neve, iluminado pelo sol a pino. Curti a foto e o elogiei dizendo que, finalmente, ele não havia publicado nenhuma vaca sendo ordenhada, um monte de saco de cebola enfileirado ou qualquer imagem de padrão agropecuário. Nada contra as vacas ou as cebolas. Tudo contra o odor campestre que ambos exalam.

Logo em seguida, veio a resposta: “Isso aí é uma plantação de algodão aqui em Brasília!”. Ele não perdoou e disse que enganar juiz não é muito difícil no Brasil. Depois, mandou uma foto do STF e perguntou para mim quando iria para lá. Respondi que não tenho amigos políticos e me sinto mais confortável entre juízes de carreira. Ele afirmou: “Você tem ótimos amigos então!”. Emendei: “E você é um deles! Desde o ginásio”.

Toda vez que o tema da amizade surge, lembro-me sempre de um amigo cético que tem uma pérola sobre o assunto: “A amizade, como o amor, não passa de um nome!”. Nominalismos à parte, quem não crê na amizade, certamente, é um indivíduo sem amigos. Por isso, vale o conselho de Cícero: “Penso que deveis perguntar sobre a amizade aos que a praticam”.

Contudo, hoje, quem for seguir a sugestão do mais ilustre orador romano, vai ter alguns problemas no caminho. Há muitos que creem ser a amizade algo supérfluo e uma coisa do passado. Os interesses econômicos e a ambição de poder do mundo dos negócios e da política limitam muito o espaço necessário para relações pessoais desinteressadas e sinceras. O mesmo vale para as órbitas social e acadêmica, onde as fogueiras das vaidades nunca se apagam. Em todos esses campos, networking é o novo nome da amizade.

Nesses meios, as pessoas costumam ser apreciadas pelo que têm e não pelo que são, ou seja, pelas vantagens materiais e imateriais que podem nos proporcionar. Ter “amigos” é uma política de trato a fim de se ter mais possibilidades de privilégios e recomendações. Desde suplente de diretor de quadra de bocha até cargo comissionado na presidência de alguma empresa pública.

Aqui em Pindorama, muitos atribuem esse trato “político” da amizade aos tempos de Pero Vaz, quando, em sua famosa carta do “Achamento”, ele já teria solicitado, para Dom Manuel, um favor para seu genro. Vista dessa forma, a amizade perde seu valor e vira uma fonte de injustiças. Históricas, inclusive.

Outro obstáculo no cultivo da amizade atende pelo nome de sociedade massificada. Adorno, lá atrás, já alertava que “nos dias atuais, falta vida e sobra coesão. Nossa sociedade sobre de uma unidade imposta, de uma aglutinação forçada e violenta. São multidões esmagadas pelo império das leis, pelas necessidades técnicas e pelas exigências materiais”.

Esse tipo de sociedade conduz seus indivíduos à despersonalização e, progressivamente, o sujeito deixa de agir como um ser singular, livre e criativo, cujo efeito mais deletério é o de perder a capacidade de se relacionar intimamente.

Surgem indivíduos gregários, solitários e que repetem, como autômatos, as formas abstratas que aprenderam, sem nenhum vigor, entusiasmo ou convicção verdadeiramente pessoal. Some-se a isso o crescente predomínio do público sobre o privado, quando não uma invasão daquele no mundo da intimidade do relacionamento pessoal. As individualidades cederam espaço para as coletividades.

Ao contrário da vida animal, é preciso que se redescubra nossa condição de pessoa e se valorize isso: no fundo, nós somos, para os outros, nossas irrepetíveis individualidades. Sem dúvida, é um bom propósito nesse ano em que reencontrei minhas turmas de ginásio do Porto Seguro e de direito do Largo de São Francisco. Resgatar a amizade, pelo que são, de cada um daqueles que escreveram no livro da minha vida. Não sem estar acompanhado de um bom destilado ou fermentado, pois, afinal, como diz outro grande amigo, nunca cultivei amigos e amigas tomando leite de vaca. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, pesquisador, professor, coordenador do IFE Campinas e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 15/6/2016, Página A-2, Opinião.

[resenha de filme] “Ponte dos Espiões”: A sedutora criatividade do cumprimento do dever (por P.G. Blasco)

Cinema | 08/04/2016 | | IFE CAMPINAS

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Bridge-of-spies-204x300

“Bridge of Spies” (2015)
Diretor: Steven Spielberg.
Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda.
141 minutos.

Entrou em cartaz [no ano passado] sem estardalhaço nenhum. No jornal, não encontrei estrelas qualificando o filme. Surge sem fazer barulho, em low profile, como o advogado protagonista, Jim Donovan, nesta magnífica história contada pelos irmãos Cohen, e magistralmente orquestrada por Spielberg. Bastam esses nomes para dispensar qualquer necessidade de propaganda. Fui atrás do filme e assisti duas vezes, no intervalo de um par de semanas. Senti uma necessidade imperiosa de apreciar, de saborear, a historia, o modo de contá-la e, naturalmente, a interpretação soberba de Tom Hanks.

A dupla Spielberg-Hanks é um arco voltaico de potencia superior. Vale lembrar O Resgate do Soldado Ryan, um dos filmes que mais me marcaram, um verdadeiro sonho de consumo em educação. Lá se mostra como é possível formar a vida de um homem, norteando seus próximos 40 anos, com uma frase –acompanhada do exemplo heroico- pronunciada in artículo mortis: “James, faça por merecer”. Frase esta, que escolta o jovem James Ryan todos os dias da sua vida, reflete sobre ela, lhe faz ajustar seu comportamento ao gabarito que lhe foi sugerido. Impactante. Emociono-me cada vez que a vejo, o que acontece com bastante frequência, por conta de conferências e seminários nos quais estou envolvido profissionalmente.

É fato conhecido a habilidade que Spielberg tem para mergulhar em histórias reais e injetar nelas humanismo. O fato histórico torna-se palatável, próximo, personalizado, como fazem os bons escritores de romances históricos e de biografias. A História, fria e distante, é iluminada com a presença de personagens de carne e osso, que carregam consigo tudo o que acompanha o quotidiano do ser humano: dilemas, medos, sofrimento, heroísmo, entusiasmo, júbilo. As suas produções – A Lista de Schindler, Amistad, por dar exemplos- rodeiam-se de possibilidades humanas, também de arte e poesia, o que lhes faz transpirar ensinamentos. É um humanismo plasmado em celuloide, que educa, ensina, eleva o espectador.

Pablo González Blasco é médico (FMUSP, 1981) e Doutor em Medicina (FMUSP, 2002). Membro Fundador (São Paulo, 1992) e Diretor Científico da SOBRAMFA – Sociedade Brasileira de Medicina de Família, e Membro Internacional da Society of Teachers of Family Medicine (STFM). É autor dos livros “O Médico de Família, hoje” (SOBRAMFA, 1997), “Medicina de Família & Cinema” (Casa do Psicólogo, 2002) “Educação da Afetividade através do Cinema” (IEF-Instituto de Ensino e Fomento/SOBRAMFA, São Paulo, 2006) , ”Humanizando a Medicina: Uma Metodologia com o Cinema” (Sâo Camilo, 2011) e “Lições de Liderança no Cinema” (SOBRAMFA, 2013). Co-autor dos livros “Princípios de Medicina de Família” (SOBRAMFA, São Paulo, 2003) e Cinemeducation: a Comprehensive Guide to using film in medical education. (Radcliffe Publishing, Oxford, UK. 2005).

Publicado originalmente no site de Pablo González Blasco, link <http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2015/12/20/ponte-dos-espioes-a-sedutora-criatividade-do-cumprimento-do-dever/>. Acesso em 07/04/2016.

[resenha de filme] "Ponte dos Espiões": A sedutora criatividade do cumprimento do dever (por P.G. Blasco)

Cinema | 08/04/2016 | | IFE CAMPINAS

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“Bridge of Spies” (2015)
Diretor: Steven Spielberg.
Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda.
141 minutos.

Entrou em cartaz [no ano passado] sem estardalhaço nenhum. No jornal, não encontrei estrelas qualificando o filme. Surge sem fazer barulho, em low profile, como o advogado protagonista, Jim Donovan, nesta magnífica história contada pelos irmãos Cohen, e magistralmente orquestrada por Spielberg. Bastam esses nomes para dispensar qualquer necessidade de propaganda. Fui atrás do filme e assisti duas vezes, no intervalo de um par de semanas. Senti uma necessidade imperiosa de apreciar, de saborear, a historia, o modo de contá-la e, naturalmente, a interpretação soberba de Tom Hanks.

A dupla Spielberg-Hanks é um arco voltaico de potencia superior. Vale lembrar O Resgate do Soldado Ryan, um dos filmes que mais me marcaram, um verdadeiro sonho de consumo em educação. Lá se mostra como é possível formar a vida de um homem, norteando seus próximos 40 anos, com uma frase –acompanhada do exemplo heroico- pronunciada in artículo mortis: “James, faça por merecer”. Frase esta, que escolta o jovem James Ryan todos os dias da sua vida, reflete sobre ela, lhe faz ajustar seu comportamento ao gabarito que lhe foi sugerido. Impactante. Emociono-me cada vez que a vejo, o que acontece com bastante frequência, por conta de conferências e seminários nos quais estou envolvido profissionalmente.

É fato conhecido a habilidade que Spielberg tem para mergulhar em histórias reais e injetar nelas humanismo. O fato histórico torna-se palatável, próximo, personalizado, como fazem os bons escritores de romances históricos e de biografias. A História, fria e distante, é iluminada com a presença de personagens de carne e osso, que carregam consigo tudo o que acompanha o quotidiano do ser humano: dilemas, medos, sofrimento, heroísmo, entusiasmo, júbilo. As suas produções – A Lista de Schindler, Amistad, por dar exemplos- rodeiam-se de possibilidades humanas, também de arte e poesia, o que lhes faz transpirar ensinamentos. É um humanismo plasmado em celuloide, que educa, ensina, eleva o espectador.

Pablo González Blasco é médico (FMUSP, 1981) e Doutor em Medicina (FMUSP, 2002). Membro Fundador (São Paulo, 1992) e Diretor Científico da SOBRAMFA – Sociedade Brasileira de Medicina de Família, e Membro Internacional da Society of Teachers of Family Medicine (STFM). É autor dos livros “O Médico de Família, hoje” (SOBRAMFA, 1997), “Medicina de Família & Cinema” (Casa do Psicólogo, 2002) “Educação da Afetividade através do Cinema” (IEF-Instituto de Ensino e Fomento/SOBRAMFA, São Paulo, 2006) , ”Humanizando a Medicina: Uma Metodologia com o Cinema” (Sâo Camilo, 2011) e “Lições de Liderança no Cinema” (SOBRAMFA, 2013). Co-autor dos livros “Princípios de Medicina de Família” (SOBRAMFA, São Paulo, 2003) e Cinemeducation: a Comprehensive Guide to using film in medical education. (Radcliffe Publishing, Oxford, UK. 2005).

Publicado originalmente no site de Pablo González Blasco, link <http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2015/12/20/ponte-dos-espioes-a-sedutora-criatividade-do-cumprimento-do-dever/>. Acesso em 07/04/2016.