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Por que não sou de esquerda

Opinião Pública | 21/07/2017 | | IFE CAMPINAS

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Taxpayer March on Washington: Conservative protesters walking down Pennsylvania Avenue, Washington, D.C.

O pensamento político atual parece indicar que tanto faz em que uma pessoa acredita. Afinal, todos os partidos são iguais e corruptos da mesma forma. Sem desmerecer esse ponto de vista, penso ser importante, neste momento de crise política, meditar sobre qual rumo queremos tomar. Como espero deixar evidente não só no título, mas no que se segue, qualquer caminho que tenha o socialismo como bandeira é equivocado.

O primeiro erro da esquerda, e que é a sua principal bandeira, é a questão da justiça social. Quem se diz dessa corrente acredita estar do lado dos menos favorecidos e, portanto, do bem. Não há dúvidas que, em um País como o nosso, a injustiça é gritante. Contudo, os socialistas acreditam que a solução para tal problema é a onipresença do Estado, que garantiria o bem-estar social através de benefícios sociais. Eles acreditam no Estado como um distribuidor das riquezas que, em última instância, pertencem ao povo. Isso é falso, pois a riqueza é gerada por quem trabalha e paga impostos. O Estado só tem dinheiro porque tira de quem o produz. Há um consenso de que é importante que a maioria trabalhe para que o Estado socorra cidadãos que não podem pagar por serviços básicos. Porém, o que os governantes de esquerda fazem é criar clientes privilegiados que, em troca desses benefícios, cada vez maiores, votam naqueles que as garantem.

Um exemplo que ilustra essa questão é o sistema de cotas. No último dia nove de julho, Fernando Reinach escreveu um brilhante artigo sobre o tema. Nas considerações iniciais, partiu da ideia de desigualdade existente no sistema de ensino: 68% dos alunos ingressantes na USP vieram de escolas particulares. Ante essa injustiça, ponderou que há duas formas de resolvê-la: “A escola pública pode melhorar sua qualidade, garantindo que seus alunos passem no vestibular, ou a universidade pode discriminar favoravelmente os alunos da escola pública, dando pontos extras ou garantindo uma fração das vagas para esses alunos.” É o igualitarismo socialista: em vez de buscar formas de melhorar o ensino para aqueles que precisam, buscam igualar a todos na mediocridade.

O segundo erro da esquerda é o de acreditar que esse Estado distribuidor de riquezas alheias para garantir o igualitarismo deve ser imposto. A democracia busca o consenso através da persuasão, do convencimento, sempre respeitando as leis, que garantem a sua existência. Mas a esquerda acredita que sua agenda deve ser imposta, já que não se trata apenas de uma visão melhor do que deveria ser uma sociedade, mas sim de uma fé, cujo dogma essencial é: “a história de todas as sociedades existentes até então, é a história da luta de classes”. Quem não aceita esse pressuposto é um opressor que deve ser eliminado.

Ora, se a história é explicada pela luta de classes, está centrada na matéria, na luta por posses, consequência óbvia do materialismo ateu de Marx. Como bem nota Benjamin Wilker, o slogan de Marx poderia ser: ”você é aquilo que produz”. Só isso? “O homem precisa de comida, vestimenta e abrigo e, no entanto, ele não é um mero fabricante do ramo alimentício-têxtil-imobiliário. Ele tem uma alma, ávida pela verdade, pela beleza e pela felicidade, uma avidez que transcende sua simples existência animal”. Pode-se considerar que muitos que se dizem de esquerda jamais leram Marx e não concordam com essa visão reducionista de ser humano. Certo, mas é preciso compreender quais são os pressupostos quando se discute a respeito de Estado de bem-estar social, da busca pelo igualitarismo e do recurso à violência para impor essas ideias à sociedade: Marx.

Mas tampouco vejo no liberalismo uma saída viável. Essa corrente de pensamento considera o Estado como um empecilho e acredita que a sociedade deve ser regida pelo mais estrito individualismo. Na atual crise do pensamento político não é tarefa simples definir um posicionamento. Contudo, considero que o pensamento conservador, tal qual descrito pelo filósofo inglês Roger Scruton a quem, aliás, devo grande parte dessas considerações, é o mais efetivo. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

Eduardo Gama é professor, membro do IFE-Campinas e da Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição de 21/07/2017, Página A2 – Opinião.

Até logo, estimado pai!

Opinião Pública | 19/07/2017 | | IFE CAMPINAS

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Como toda criança, eu quis ter um pai. Alguém que fizesse nosso medo se reduzir ao tamanho de uma formiga. Com asas nas mãos para me carregar nas noites insones. Com uma voz doce para cantar para mim. Alguém que já me amasse desde o ventre materno e que zelasse pela fragilidade da minha vida. Desde então, você deu tudo o que tinha e o que não tinha para mim.

Até a mamãe passou a ser de nós dois e você trabalhava dobrado para eu poder estudar no melhor colégio. Seu amor meio desajeitado me encantava, mas eu sei o quanto eu tumultuei sua vida. Abusei de sua bondade e de sua paciência com meu espírito crítico. E de seu lugar na cama, sempre jogado para a beirada dela. Mas bastou que eu crescesse um pouco para você se sentir recompensado.

Quando me apoiou em ser diplomata e, quando desisti da ideia para ser juiz, sempre me deu a liberdade de iniciativa. E me preparou para a responsabilidade das escolhas que fiz antes mesmo que estivesse pronto para lidar com elas.

Sempre por meio de muito estudo e entrega anímica. Mesmo quando ficava fazendo tarefa atrás da porta, só para ouvir o som das chaves do outro lado, seguido do abraço caloroso que sempre vinha depois. Seu olhar firme e sua postura estóica sempre me serviram de inspiração para seguir em frente.

É certo que fugi do serviço militar, como o diabo foge da cruz. Mas tenho uma coleção invejável de filmes de guerra, a que assistíamos juntos, e um rifle de assalto que, embora não seja de verdade, é de air soft e isso foi suficiente para que nos divertíssemos muito no tiro ao alvo.

Sempre perdi para você no futebol de areia, mas você era minha torcida na superação dos meus limites. Mas ganhei nos livros. Você tinha um mil e eu já passei dos quatro. E, agora, vou herdar e cuidar com carinho dos seus. A Elena, sua neta, ao que parece, herdou seu natural pendor para a história. Teremos, a longo prazo, uma forte concorrente no hábito de leitura.

Quando saí de casa aos 17 anos, rumo às Arcadas do Largo de São Francisco, você acreditou em mim, quando eu mesmo duvidava das minhas habilidades. Quando virei juiz aos 23 e me casei aos 25, você disse que eu poderia ter adiado um pouco mais e chorou tanto que, então, descobri seu coração de soldado.

O mesmo coração de soldado que pulsou efusivamente quando o Pedro, seu primeiro neto, nasceu. Aliás, ele também tem um coração de soldado: ontem, quando você já estava em coma, ele, bravamente, testemunhou, ao meu lado, seu suspiro final. Suas mãos faleceram em contato com as dele. E as minhas também.

É claro que também nos desentendíamos: tipo de música (Sabbath, Iron, Bono, Mozart e Chopin ou Gil, Caetano, Chico, Beethoven e Liszt), shows de rock (avisados sempre de última hora), valor da mesada (invariavelmente baixo), volume do som (no máximo), banana (cozida ou frita), arrumação do quarto (semanal ou semestral), serviço militar (facultativo ou obrigatório), Brasil (sempre o país do futuro), grandes generais (Alexandre ou Rommel), política (monarquia ou república).

Mas só no acidental. No substancial, deu-me um fervoroso amor à pátria, uma educação nas virtudes e na fé católica apostólica romana. Tudo isso virou baliza para os caminhos que enfrento diariamente. Com você, eu aprendi a importância de se deixar pegadas das quais pudesse me orgulhar depois.

Com a Regina ao meu lado, essas pegadas ganharam em sentido, alcance e número. Por isso, de certa forma, você foi minha medida em muitas coisas e, assim, seu amor me ajudou a achar meu lugar no mundo: lugar de filho, pai e, um dia, de avô nessa grande aventura da vida.

Você foi cedo demais! Mas entendo: quis ir para junto de seus pais justamente no mês em que eles se foram num passado já longíquo. Até nisso, você deu exemplo de amor familiar. Obrigado e “Selva”! Requiescat in pace!

PS: meus filhos e seus netos – Pedro, Cauã, João Vitor, Elena e Letizia – agradecem também. Sobretudo a Letizia, que teve a felicidade de estar em nossa última foto juntos, quando você falava que iria escrever mais um livro. E escreveu mesmo. Na ardidura de cada um de nossos corações.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 19/07/2017, Página A-2, Opinião.

Novilíngua

Opinião Pública | 12/07/2017 | | IFE CAMPINAS

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Gosto de ler os textos dos jornais e panfletos acadêmicos. Uns valem pelo rascunho que proporcionam no verso, outros para aprimorar nosso nível de acerto à distância no lixo, outros para nos dar vergonha do nível de analfabetismo funcional dos alunos do nível superior e outros ainda pelas novas palavras que nos são ensinadas e manejadas com uma desenvoltura machadiana.

“Transfobia”, “autoidentidade de gênero”, “feminicídio”, “pansexualismo”, “família patchwork”, “eutanásia preventiva”, “gravidez indesejada”, “interrupção terapêutica da gravidez”, entre tantas outras novas palavras, muitas delas já usadas com naturalidade na mídia escrita e falada. A logomaquia é uma realidade muito comum nas sociedades em que a ideologia fala mais alto que a racionalidade.

A mais nova palavra com a qual me deparei, implementada de forma embrionária no laboratório do jornalismo acadêmico, é uma justaposição curiosa: “ultracatólico”. Logo, ela seguirá seu ciclo: uma vez fermentada, deixará a mídia marrom universitária e chegará na pena de algum formador de opinião anti-clerical da grande mídia.

Num primeiro olhar, tenho a impressão de que os católicos converteram-se num bando de fanáticos perigosíssimos, até porque ninguém é idiota o suficiente para achar que o qualificativo “ultra” não tenha sempre uma conotação negativa. Ou melhor, “ultra” negativa.

Num segundo olhar, é inevitável que o epíteto sirva tanto para o “catolicismo buffet” como, com mais lógica ainda, para o “catolicismo rottweiler”. Em suma, todo católico, só pelo fato de sê-lo, pois a metanarrativa de mundo dessa religião não tem mais espaço numa realidade líquida, já merece a tarja de “ultra”.

Como sempre sucede com a linguagem, é necessário definir a palavra antes de usá-la. Quem é o “ultracatólico”? Vamos dar a resposta real: é aquele indivíduo que não pode ser suportado por nossa sociedade aberta que, de aberta, está mais para fechada, porquanto patologiza quem não pensa e age segundo as linhas mestras da mentalidade contemporânea, ainda que tenha ponderáveis ou melhores argumentos contrários.

Exemplos abundam. Na barriga de aluguel, vende-se como algo normal o pagamento de uma mulher pobre para realizar a gestação de um ser que, ao nascer, ela terá que renegar como filho ou filha. Por isso, para se evitar tal incômodo, pretende se afirmar que esse filho ou filha tenha três pais.

Se um indivíduo nega-se a aceitar a normalidade desse contrato de locação do útero alheio, porque o comércio de seres humanos fere a dignidade da pessoa humana ou porque é biologicamente insustentável uma paternidade biológica tripartite, então, ele é um “ultracatólico”. Mesmo com apoio em argumentos de razões públicas, isso não adianta: a objetividade biológica ou a tutela de um direito universal viram um dado ideológico.

É impressionante a agenda da novilíngua. Lança-se uma palavra que não se entende muito bem e se declara que o apoio às suas pretensões consiste em militar em prol do “partido da verdade”. Impõe-se, como um pensamento único, toda a doutrina que sustenta esse neologismo e quem corre por fora converte-se em paladino da mentira, do ódio ou de qualquer fobia formada por uma nova composição por justaposição.

Se um católico não se adapta à nova fé, deve perder sua cátedra, sua profissão e sua palavra na mídia, mesmo que se oponha com argumentos baseados na racionalidade filosófica ou científica. Voltamos a “1984”. Nada significa nada, o “duplipensar” vira regra, as referências objetivas converteram-se em paradigmas superados e, como efeito, nada pode ser mais defendido de forma convicta.

Não se pensa e se aceita a novilíngua com um sorriso. Aceitam-se as lições de doutrinação na escola e na televisão. Em nome do relativismo total, defende-se, fanaticamente, dogmas construídos a partir da agenda dos ideólogos do mercado de ideias.

Quem não comunga com a “verdade oficial”, torna-se indigno de participar do jogo social. De fato, o totalitarismo não foi exclusividade dos bigodes de Stalin: a novilíngua é sua nova forma, testada e aprimorada na pena do estudante engajado – seu agente júnior – e, depois, consolidada na pena do formador de opinião militante – seu agente sênior. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 12/07/2017, Página A-2, Opinião.

A religião secular e seus órfãos

Opinião Pública | 05/07/2017 | | IFE CAMPINAS

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Nas redes sociais, as semanas passam e as notícias são as mesmas: em alguma universidade estadual ou federal, um restrito e ativo grupo de estudantes – os que não estudam – impediu o andamento de uma palestra ou de um seminário, porque o tema é muito “sensível”, recebeu o selo trigger warning ou safe space e, por isso, pode incomodar os demais estudantes – os que estudam.

Nossas instituições de ensino superior, no campo das humanidades, em sua maioria, são instituições de superior “desensino”. Mais lembram estufas de sensibilidade e ressentimento, onde reina a pauta do politicamente correto, concretizada pela aprovação de códigos de linguagem que impõem um modo concreto de pensar e de se expressar sobre uma série de assuntos complexos , como raça, sexo, moda, casamento, religião e sociedade de classes.

A julgar pela minha experiência acadêmica, a maioria dos estudantes é pacífica, quer aprender e estudar e não fica “sensibilizada” com ideias conservadoras ou que provenham do senso comum. O problema está na minoria atuante: intolerante, violenta e que age com mentalidade de seita religiosa.

Para essa turma, as universidades são espaços sacros, onde os supostos ofendidos – qualquer tipo de minoria política – são como o bezerro de ouro das escrituras: merecem endeusamento. Se algum aluno – o que estuda – resolve subverter essa ordem sobrenatural, surgem as ameaças e as represálias além de um ou outro coquetel molotov.

Várias são as causas desse fenômeno, mas a ocupação dos centros de saber pelos pensadores à la rive gauche é a principal delas. E, como a maioria deles é jacobina, logo, nutre um espírito religioso, típico dos extremismos políticos, mimetizado a partir dos traços fundamentais da tradição judaico-cristã. Surge, então, a religião secular.

Aron recorda que tanto o socialismo quanto o nazismo foram ideologias salvíficas, com adoração pública a um líder messiânico e que terminaram rivalizando-se entre si no número de cadáveres empilhados, com destaque para o socialismo que, ainda hoje, persiste no museu de obsolescências políticas com duas peças de destaque, Cuba e Coréia do Norte.

A queda dessas utopias criou uma legião de órfãos religiosos e o vácuo espiritual foi tomado pelo pensamento politicamente correto. Nesse novo credo secular, aquela legião age com novos rituais sacros – como o silêncio obsequioso, os avisos de conteúdo e os espaços seguros – e novos caminhos de santidade e de perdição.

No primeiro caminho, temos as minorias políticas, compostas somente de “bons selvagens”, canonizáveis aprioristicamente pela mídia. No segundo, estamos nós, que pertencemos à maioria que cultiva o preconceito inconsciente, o substituto contemporâneo da falsa consciência marxista.

No fundo, essa nova religião não é capaz de provocar qualquer tipo de catarse intelectual, porque não conduz o aluno à reflexão profunda das ideias e nem a um diálogo construtivo e cordato entre posições opostas. Os alunos transformam-se em ventríloquos de uma realidade alienada e tornam-se inabilitados a enxergar a realidade maior que os transcende.

E a mentalidade de seita cria um index ideológico disfarçado de respeito, a se prestar para a proliferação do vitimismo sociológico, da intolerância politicamente correta e do patrulhamento de quem se “atreve” a suscitar algum tipo de pensamento que afete o estilo de vida e as suscetibilidades jacobinas desses lunáticos religiosos.

Alguém poderia dizer que a solução desse problema passaria pela tese universalmente consensual de que a “educação é tudo”. A educação é uma condição relativamente necessária, porém insuficiente. A extinta União Soviética alcançou um alto nível científico. Cuba diz ter o melhor sistema educacional e a Índia exporta cientistas como nós exportamos soja. Contudo, não são exemplos de prosperidade, porquanto a prosperidade só se dá com a liberdade de expressão.

Uma universidade desejável e possível seria aquela aberta ao todo no âmbito intelectual, habitada por estudantes livres para pensar e responsáveis no agir consequente. Entretanto, infelizmente, algumas gerações discentes ainda passarão até que as ilusões dos órfãos da religião secular se dissipem. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 05/07/2017, Página A-2, Opinião.

Lava-jato, avante!

Opinião Pública | 28/06/2017 | | IFE CAMPINAS

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No atual debate sobre os rumos do país, é natural que haja divergências de natureza política, com exceção daquelas provenientes do único fã-clube que estima políticos bandidos. Aliás, isso é muito saudável, pois as diferenças de opinião demonstram a vitalidade e a riqueza de uma democracia, desde que sustentada por uma necessária comunhão entre política e moral, fato que Platão já havia observado durante seus embates com os sofistas.

Tal comunhão deveria consistir na conjugação entre a participação na polis, ou seja, na arena política, e a busca individual da areté, expressão que representava o conceito grego de excelência individual, alcançada mediante uma educação integral (paideia) para a formação de um cidadão virtuoso como pessoa e capaz de desempenhar qualquer função na sociedade.

Em suma, um homem perfeito e um perfeito cidadão. Essa era a garantia para que a democracia grega não degenerasse na demagogia e para que as instituições sociais fossem preservadas das tentações de um governante absoluto, realidades vistas, hoje, na Venezuela. Bom, mesmo naquela época, o próprio Platão sentiu os efeitos disso, ao sofrer nas mãos do tirano de Siracusa.

Por aqui, nessa terra onde os amadores não têm vez, vivemos um período ímpar em nossa história: temos a chance de nos livrar de uma geração de políticos que mais lembra um entulho demagogo e que viveram na cornucópia entre o público e o privado, sobretudo no que concerne à apropriação indébita de dinheiro público via caixa dois, doação ilegal e contas na Suíça. E, nesse caso, a operação Lava-Jato em cena e mostra a importância do Poder Judiciário, sobretudo dos juízes de primeira instância, nessa faxina de ética e de resgate dos valores republicanos, no sentido romano da expressão.

Quando meu pai me questionou, no segundo ano da graduação, lá nos idos de 1994 nas Arcadas do Largo, as razões do meu abandono à diplomacia em favor da judicatura, eu disse que serviria meu país melhor nessa função, porque, como diplomata, não teria independência funcional. Ficaria lambendo as botas do presidente ou do ministro do Itamarati de plantão. Como, de fato, sucedeu para os diplomatas entre 2003 e 2014.

Meu pai, como militar, estudioso e escritor de livros sobre história do Brasil para os colégios militares, para a ESG e a ECEME, respondeu-me que a minha geração seria responsável pela virada institucional do Brasil e pelo fim do histórico absolutismo do Poder Executivo no cenário político.

E que os juízes teriam um importante protagonismo nisso, pois acreditava que os outros dois poderes seriam incapazes dessa auto-depuração ética. Depois, como conhecia o filho que tinha, disse: “Vai, vai fazer a parte que lhe cabe nisso, porque eu ainda quero escrever um livro sobre esse novo capítulo da história brasileira”.

Quando ingressei na magistratura em 1998, aos 23 anos, ele foi o mais efusivo em casa e me lembrou que, para grandes poderes, há grandes responsabilidades. E recomendou, por ainda ser muito novo, muita prudência e nenhum amigo político. Hoje, ele não mais responde por seus atos. Não será capaz de escrever nem uma linha, quanto mais um novo capítulo ou mesmo um livro.

Mas sei que minha geração de juízes de primeira instância, espalhada pelos rincões do Brasil e exercendo um sadio protagonismo judicial e que não se confunde com o lamentável ativismo, simbolizada pelo juiz Sérgio Moro, está fazendo a parte que nos compete constitucionalmente, ao mesmo tempo em que cumpre a profética afirmação de meu pai.

Temos nossos problemas, um ministro do STF que fala mais que a boca, corporativismos sem mais espaço, uma minoria de maus juízes, benefícios questionáveis, alguma juizite aqui e ali, mas afirmo categoricamente que, a ser verdadeira a máxima aristotélica de que o agir segue o ser, então, a julgar pelas decisões tomadas por inúmeros juízes de várias localidades contra a corrupção política, não tenho a menor dúvida de que nossa instituição detém o maior número de quadros éticos dos três poderes.

Ao cabo, não fazemos mais do que nossa obrigação para com o cidadão e os destinos de nossa nação, sem abuso de autoridade, porque o único abuso de autoridade em moda é o de político roubar o erário público e permanecer impune. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 28/06/2017, Página A-2, Opinião.