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[sátira] Carreiras para nossos filhos – por Evelyn Waugh

Literatura | 03/11/2017 | | IFE BRASIL

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O jornalista completo.

Segredos do sucesso na imprensa

Na semana passada, contei a você como tornar-se um repórter junto a um dos nossos jornais populares. Em um mês, mais ou menos, você estará apto a identificar-se com aquela inefável organização de influência oculta e regeneração moral, “A Imprensa”; você estará apto a fazer um telefonema a pessoas totalmente estranhas usando o mágico “Daily Excess falando” e terá a certeza de que será ouvido respeitosamente; a sua palavra mais singela reverberará até a última mesa de café da província, constituindo e depondo governos, criando novos estilos para a decoração das mesas e para o mobiliário dos berçários, censurando romances, descobrindo assassinos, dissecando os segredos mais profundos da vida nacional. Ao redor da sala dos repórteres você verá também jornalistas. Perdido em sonhos de poder oriental, você espera ser chamado para tomar parte no trabalho.

Pode ser que você tenha de esperar um bom tempo. Qualquer dia, num dos escritórios do periódico, pode ser que um velhinho seja visto revirando os arquivos com um olhar de expectativa e, de vez em quando, virando-se para a porta do editor. Ele tinha sido contratado temporariamente durante a guerra, na época em que os jornalistas eram um produto escasso. Até obteve certa vez um quarto de coluna com uma entrevista com um chefe de estação cujo filho tinha capturado um espião. Desde então o jornal mudou de dono, editores vieram e se foram, mas ele continua a alimentar esperanças de conseguir mais uma “matéria”.

Muito depende de como você passa os primeiros dias no escritório. Há um certo número de pessoas que conseguem ficar sem fazer nada por um longo período sem parecerem entediadas. A seu tempo, essas almas privilegiadas serão presenteadas com todas as manifestações da prosperidade mundana. Enquanto espera por trabalho, você é confrontado com o duplo problema de manter-se animado e de permanecer sóbrio. Só aos repórteres mais experientes é permitido ficar bêbado no escritório.

Eventualmente uma “matéria” lhe será concedida. Você verá o editor do jornal se aproximando: “Ei, Waugh”, dirá talvez ele, “acabaram de achar um cadáver de mulher em uma das Salas de Escultura da Academia Real. Você pode sair e ir atrás do assassino”, ou “Aqui está um novo romance escrito por um cara que uma vez esnobou o editor. É só sentar aí e banir o livro, pode ser? Bom garoto”, ou então “Estou te mandando hoje à noite de avião para o Porto Said. Queremos uma série de artigos sobre a vida noturna na parte nativa”.

É possível que ele peça algo assim; mas é mais provável que seja algo do tipo, “Ei, dá pra ir até o zoológico e escrever uma matéria sobre como os animais estão se preparando para o Natal?” (na verdade essa é uma das favoritas dos editores), ou “Estão abrindo uma nova represa em Hendon. Acho que não deve dar uma matéria, mas seria bom você aparecer a fim de evitar que alguém se afogue”, ou “Dizem que vai haver uma nova moda em matéria de suíças para homens. Consiga algumas opiniões a esse respeito – uma atriz, um bispo, uns fidalgos”.

Em casos desse tipo, o procedimento correto é ficar imediatamente de pé, tomar o chapéu e o guarda-chuva e cair fora do escritório como quem corre apressadamente para o cinema mais próximo. Geralmente de nada adianta entrevistar pessoas. Se se tratar de gente interessante, eles não vão querer encontrar você; e se eles recusaram uma entrevista, é bem possível que dêem uma olhada no seu jornal no dia seguinte. O que se deve fazer é simplesmente ir até um cinema, sentar-se por uma hora ou algo assim, fumar um cachimbo e pensar no que poderiam ter dito. Mesmo que o bispo em questão de fato olhe o seu jornal no dia seguinte e descubra que ele está fazendo o possível para banir o uso de suíças na sua diocese, é improvável que ele vá fazer algo a respeito.

O jornalismo das colunas sociais é uma arte à parte, algo com o qual qualquer homem ou mulher jovens podem ganhar muito dinheiro. Duros comentários são feitos sobre a “venda de amigos” por aqueles que nunca são vendidos. A verdade, é claro, é que a sociedade secretamente adora a publicidade a seu respeito. Quando você se tornar conhecido como o “Sr. Fofoca do Daily Express” a sua publicidade social estará assegurada, e então convites vindos de gente completamente estranha cobrirão a decoração da sua lareira.

Aquela idéia popular de um convidado não desejado, escondido atrás de cortinas e palmeiras usando roupas de aluguel para eventos noturnos, rabiscando os escândalos dos grandes em seu bloco de anotações, pode ter tido o seu fundamento no passado; mas hoje as coisas são bem diferentes. Sua maior dificuldade é evitar ferir os sentimentos daquelas coisinhas espertas que clamam pela sua atenção. “Pobre Peter”, elas dizem, “ele realmente não está bem de vida, e é tão corajoso tentando se sustentar. Seria uma boa ajudá-lo quando for possível. Quer saber? Vou ligar para ele e dizer o que vou usar hoje na casa da Sra. C.”. Clubes noturnos “fechados” imploram para que ele peça admissão; restaurantes lhe oferecem refeições; famosos retratistas oferecem surpreendentes detalhes sobre as suas vidas privadas. Seu telefone toca continuamente enquanto vozes ansiosas trazem “rumores” sobre seus próprios relacionamentos; todos estão loucos para ajudá-lo.

Entretanto, a sua carreira durará pouco. E lá estão as baronesas alucinadas lutando por um lugar nas animadas danças-da-cadeira da Fleet Street. Nomes tendem a se repetir na sua coluna na medida em que as pessoas da sua relação se tornam mais insistentes; ele colocará uma fotografia da fidalga viúva Lady C. com a inscrição “Lady C., uma das Pessoas Jovens de Destaque que pode ser vista todas as noites no Cocktail Club”. Algo dará errado e ele terá de procurar uma nova carreira.

Literatura.

O caminho para a fama

Há muito o que dizer em favor das Artes. O que elas têm de exclusivo é oferecer a única carreira em que o fracasso comercial não é, necessariamente, algo negativo. Uma aparência desgastada e uma vida irregular são não só perdoáveis ao artista, mas também algo que se espera dele. A Arte oferece a justificativa certa para uma preguiça profunda e prolongada, e em caso de sucesso traz uma recompensa bastante desproporcional ao esforço despendido.

De todas as Artes, a mais recomendada ao jovem iniciante é a literatura. A pintura é uma bagunça; a música é barulhenta; e as artes aplicadas e o artesanato exigem um certo nível de habilidade. Já a arte de escrever é limpa, silenciosa, e pode ser praticada em qualquer lugar, a qualquer tempo e por qualquer pessoa. Tudo aquilo de que você precisa é um pouco de tinta, uma folha de papel, uma caneta e um vago conhecimento de ortografia. Até esta última não é necessária caso você empregue um datilógrafo competente.

Tudo o que você precisa fazer é escrever “Capítulo Um” no cabeçalho da sua folha de papel e de agora em diante, para o melhor ou para o pior, você é um escritor. Muitos não irão além disso.

O melhor livro para se começar é uma biografia. Se você quer ser bem sucedido com ela, escolha como assunto alguém muito famoso sobre o qual se tem escrito muitos livros. Muitos escritores jovens cometem o erro de escolher algum clérigo do período carolíngio ou um viajante do século XVIII. Eles acabam ficando profundamente interessados no seu tópico de estudo, passam dias sombrios na Sala de Leitura do Museu Britânico e escrevem uma obra elegante, cuidadosamente documentada. Mas ela faz sucesso? Não. A razão é que ou o editor nunca ouviu falar do seu clérigo ou viajante, e deste modo não se dá ao trabalho de mandar escrever uma resenha do livro, ou então ele caiu nas mãos de alguém que pessoalmente se tinha sentido atraído pelo personagem, sabe a respeito dele tanto como você e achou melhor escrever ele mesmo o livro. Nesse caso ele pulará sobre todas as inevitáveis inexatidões com terrível severidade.

Por outro lado, se você escolhe alguém como Disraeli ou Shakespeare ou Pitt, o Velho [1], pode ter certeza de que terá o que chamam uma “acolhida respeitosa”. Isso significa que todos os críticos famosos que escrevem artigos semanais em periódicos eruditos verão no seu livro uma deliciosa oportunidade de mais uma vez emitir as suas excelentes opiniões sobre Disraeli ou Pitt, ou sobre quem quer que seja que você tenha escolhido. Toda vez que a vida de alguém realmente famoso é publicada, eles vêm com aquele velho artigo que escreveram quando estudavam em Oxford. São duas colunas fáceis para eles e, se estiverem se sentindo amáveis, mostrarão a sua gratidão escrevendo um prefácio aos seus ensaios com alguma pequena alusão ao seu livro. “Um novo escritor, vindo ao seu mister com jovial exuberância mas maduro entendimento”, eles escreverão, “novamente trouxe a lume a sempre atual e fecunda questão que envolve Pitt, o Velho”.

Você não ganhará muito dinheiro com esse primeiro livro, mas irá obter toda uma lista de comentários gentis que o seu editor poderá estampar na contracapa do próximo a ser publicado. Este deverá ser um romance, de preferência um que seja levemente perturbador. Sua biografia fez de você um “homem de letras” e deixou clara a sua integridade de propósitos. Editores que viram a referência respeitosa a você feita por alguns críticos de nota sofrerão de letargia ao pensarem em banir o seu livro.

As resenhas não preocupam muito quando se trata de um romance. O importante é fazer as pessoas falarem dele. Você pode fazê-lo forçando a sua entrada nos jornais de outro modo. Tente atravessar o Canal; seja preso injustamente em um parque público; desapareça. Há inumeráveis meios de atrair a atenção do público. De qualquer modo, um grave acidente em um vendaval deve ser suficiente para assegurar-lhe uma comissão para uma série de artigos sobre “A Igreja” ou tópico semelhante.

Daí em diante a sua fama está assegurada. Pedirão o seu conselho por telefone a respeito de questões atuais; fotógrafos oferecerão poses complementares; você será inundado de cartas de viúvas de clérigos morrendo de fome oferecendo-se para trabalhar para você como datilógrafas, caso ganhem uma máquina de escrever e um curso por correspondência. Pedirão a você que dê uma palestra nos Estados Unidos e que dê consultoria especializada nos tribunais, e os restaurantes lhe pagarão para colocar no seu próximo livro cenas de sedução envolvendo seus estabelecimentos.

Finalmente, após uma vida feliz e plena, você poderá esperar um título de nobreza, uma pensão na Listagem Civil e um funeral na Abadia de Westminster, desde que você jogue as suas cartas com sucesso no início.

Educação.

Algumas verdades sobre o ensino

Uma coisa esplêndida na educação é que todo mundo a deseja; e, assim como a gripe, ela pode ser transmitida a qualquer pessoa sem que nos livremos dela. Quando chegamos à idade em que nos tornamos insuportáveis em casa, somos mandados às escolas e lá retidos enquanto nossos pais ainda tenham dinheiro. Se eles são realmente ricos, podem continuar “educando-nos” por toda a sua vida, mandando-nos de universidade a universidade pelo mundo afora. Do ponto de vista deles, as vantagens da educação são enormes. Através de um expediente muito simples eles se livram das responsabilidades morais e inconvenientes físicos de nos terem em casa. Quando acabamos na cadeia, eles podem dizer: “Muito bem, muito bem, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Nós lhe demos uma excelente educação”.

Tendo sido educado, você nunca passará fome; você pode sempre, chegando a sua vez, educar. Por irregular, mal pago e muitas vezes absurdamente ridículo que seja o emprego de professor, ele está sempre acessível – sejam quais forem os nossos fracassos na vida. É o grande privilégio, que não pode ser perdido por nenhuma desventura ou desgraça. É o orgulhoso direito do inglês instruído de instruir os outros.

Certa feita, tive a oportunidade de conversar com um homem de meia idade que parecia já ter sofrido todos os infortúnios que podem atingir um homem na vida civilizada. Ele fora expulso da sua escola pública por roubo e mandado a Cambridge em razão de um alcoolismo crônico; fora réu em dois casos de divórcio e cumprira pena de trabalhos forçados por chantagem; fora privado do seu salário durante a guerra por crimes demasiado terríveis para serem aqui mencionados e salvo da pena de morte em razão de deserção por intervenção do Armistício. “Então veja só”, concluiu ele, “não havia outra saída a não ser me tornar professor”. Naquela ocasião ele dava aulas de futebol e geometria numa escola particular de sucesso. “Não ficarei muito tempo nesse emprego”, ele admitiu, “mas eles sempre me mandam embora com uma boa recomendação e a ficha limpa. O senhor compreende, eles não ousam admitir terem empregado um sujeito tão perverso como eu. Isso é ruim para a reputação da escola”.

Nunca se deve pensar que é fácil a vida de um professor de escola. Bem ao contrário. As escolas particulares inglesas são para as classes instruídas o que os miseráveis asilos paroquiais [2] são para os miseráveis. O alívio é oferecido a todos os que queiram se aproximar, mas concedido na forma mais intragável que seja possível. As primeiras horas, a relação próxima com homens tão degradados e banidos do reino da Esperança como você, as risadas sarcásticas e o desprezo de garotinhos incansáveis, a grosseira petulância das matronas e das esposas dos diretores, tudo isso e muitos outros incômodos menores, demasiado numerosos para serem referidos aqui, são o preço que você precisa pagar apenas para sobreviver.

Os diretores, ao contratá-lo, admitirão livremente que “não há futuro nisso aí”. Ninguém sabe como ou onde os diretores de escolas particulares morrem; talvez, quando se tornam muito velhos para ir adiante, sejam discretamente incinerados pelos alunos.

Todavia, algumas escolas são menos ruins do que outras, e um velho guerreiro sempre acaba por descobrir meios de mitigar alguns dos desconfortos mais agudos. A coisa mais fácil do mundo é conseguir um emprego. Você se inscreve numa agência e ela o apresenta a alguns diretores. Vista-se limpa e pacificamente para a entrevista e escolha a gravata para garotos de alguma escola pública de boa reputação. Não deixe o diretor interrogá-lo a respeito da sua pessoa. Tome a iniciativa e comece a perguntar-lhe a respeito da sua escola. Qual o tamanho da piscina? Qual a porcentagem dos garotos que aprendem música? Quantas partidas eles ganharam no último período? Quais são as chances de se conseguir um jogo de golfe de quando em vez? O vigário local é da High Church? [3]

Deixe muito claro que é você que o está entrevistando. Depois de uns 10 minutos, diga: “Bem, tive uma boa impressão a respeito da sua escola, e acho que ficarei contente por trabalhar lá. Quando começa o próximo período letivo?” Ele dirá um tanto hesitante, “Ah, e sobre o salário?” Diga: “Mil e quinhentos, mais lavanderia”. Então ele dirá: “Está bem”.

Quando chegar à escola, lembre-se de se comportar como um homem mundano diante de seus colegas. Compare a escola com as outras em que você já esteve de modo desfavorável, e sugira que você só permanecerá nela por um ano mais ou menos, até que o seu tio venha a falecer deixando-lhe uma bela fazendinha no norte. Eles não lhe darão crédito, mas esse é o tipo de malandragem que eles esperam de você; ela preserva a auto-estima da sala dos professores. Narre alguns dos seus bons “excessos” nos lugares “quentes” e sugira alguns casos amorosos.

Com os garotos é essencial assumir uma atitude de severidade inflexível desde o início. Qualquer sugestão de bom humor ou humanidade contribuirá para o seu descrédito. Castigue o primeiro garoto que cochilar ou deixar cair um livro. O uso desse método durante aproximadamente uma semana estabelece a correta atmosfera de submissão hostil. A partir disso você conseguirá fazer com que as coisas sigam o seu curso natural. Certa feita eu tive aulas com um professor de matemática cuja fórmula invariável, logo ao entrar na sala, era “Abram os seus livros de Álgebra na página 116. Leiam a explicação sobre as equações simples. Façam o máximo que conseguirem de cada exercício. Confiram as suas respostas e me entreguem as suas anotações ao final de uma hora”. A seguir, abria um dos romances do Sr. Nat Gould [4] e passava o resto do tempo em paz.

É de boa praxe escrever um tipo qualquer de diagrama na lousa em caso de inspeção. A maioria dos diretores, entretanto, acaba por chegar à conclusão de que esse tipo de visita mais atrapalha do que melhora a reputação da escola.

Crime.

Como ser rico e desonesto

Afinal de contas, não há profissão que ofereça melhores oportunidades aos rapazes e moças de iniciativa e bom senso do que o crime. Evidentemente, nos dias que correm, a última moda em legislação fez de todos nós, em certo grau, criminosos. O mero ato de violar a lei não tem em si mesmo valor algum para ninguém. Ninguém se aproxima da prosperidade comprando cigarros tarde da noite ou estacionando o carro em frente à porta do vizinho.

Não tenho a intenção de recomendar uma carreira de ofensas menores desse tipo, e nem uma que envolva aquelas soberbas orgias de degradação aptas a levar os nossos lordes do comércio às estonteantes alturas de uma declaração do imposto de renda de sete dígitos. Eu me refiro na verdade a uma estável rotina de desonestidade e violência por meio da qual qualquer jovem de capacidade pode, com razoável boa sorte, sustentar-se com algum conforto e assegurar uma velhice repleta de lazer.

Apenas essa carreira permite a um jovem de boa educação e instrução regular iniciar já numa posição superior à dos seus rivais. Em todas as grandes nações, com exceção de uma, essa vocação constitui ainda hoje uma ligeira afronta em virtude de um resquício dos dias teocráticos da Idade das Trevas. Os adiantados Estados Unidos conseguiram superar esse preconceito, e por isso lá o crime é praticado abertamente por pessoas de sentimentos refinados e posição social elevada. Mas na Inglaterra, com algumas honrosas exceções, a classe criminosa provém quase inteiramente de pessoas de poucos recursos. Existem mil vezes mais Bill Sikes [5] do que Raffles [6]. Iniciar-se no crime com portentosos antecedentes de classe-média; estar preparado, em caso de flagrante, com um fácil “Boa noite, seu guarda”; ter um ou dois primos na carreira episcopal prontos a darem testemunho de que você possui boa índole; tudo isso, embora não pareça importante, conta muito para os padrões da sociedade atual.

Outra grande vantagem que o crime oferece sobre outras atividades e profissões são os feriados. Não se trata de um trabalho de período integral. Alguns dos nossos delinqüentes mais bem-sucedidos passam os seus dias como tutores universitários ou condutores de ônibus.

É uma boa começar de uma vez com algo ambicioso. Muitos jovens entram para o crime com uma série de especulações precipitadas e pouco frutuosas: uma nota de dez shillings de um caixa não vigiado, seis moedas na caneca de um mendigo cego, uma ou duas jardas de seda de uma loja de tecidos. Só depois de terem sido descobertos e repreendidos é que se decidem a construir a sua carreira a sério, mas nesse momento a sua reputação, que representa nove décimos do seu capital, já está arruinada.

O assassinato é, evidentemente, o rei dos crimes. Mas o homicídio com vistas ao lucro raramente dá certo, pois ele naturalmente atrai a atenção para o seu autor. De longe o melhor, o mais básico dos crimes de utilidade é o roubo cometido com violência. Tudo o que você precisa fazer é armar-se com um martelo, cobrir a parte inferior do seu rosto com um lenço e esconder-se atrás de uns arbustos numa área rural pouco freqüentada. Espere até alguém passar, certificando-se de que ele ou ela esteja decentemente vestido e apresente uma débil constituição física. Então saia do seu esconderijo, acerte-os em suas cabeças, pegue o dinheiro e volte para casa a tempo de tomar um banho antes do jantar. Talvez seja a própria simplicidade do processo que encoraje tantas pessoas a tentar algo mais elaborado. Naturalmente ele tem a desvantagem do lucro incerto; mas isso é esperado em todos os crimes, com exceção do suicídio.

O seguinte crime genial pode ser cometido mais ou menos uma vez por ano. Você entra em um hotel e pede uma bebida que se possa pagar com uma nota de cinco libras. Quando o garçom voltar com o seu troco, diga a ele que, com toda segurança, você lhe tinha dado uma nota de dez libras. Ele dirá que com certeza foi uma nota de cinco libras. “Bem”, você diz, “eu sei que se trata de uma nota de dez porque descontei essa manhã um cheque de 30 libras. Eis as outras duas. Veja, elas têm números consecutivos. Dê uma olhada no caixa e veja se não há uma nota de dez libras com um número consecutivo”. O garçom vai até lá, descobre que há e volta com abundantes desculpas e o troco de cinco libras, o qual você dividirá, de acordo com uma proporção que julgue razoável, com o seu cúmplice que, dez minutos antes de você entrar, trocara uma nota de dez libras no balcão.

Outro crime cometido com surpreendente freqüência consiste em ir a uma loja Cartier e dizer: “Sou o Lorde Beaverbrook. Por favor, me dê aí uns diamantes”, e então sair e vendê-los. Esse expediente chama-se “falsidade ideológica com o desiderato de lograr, quando à evidência de culotes não se tratar, que estes manifestamente, e com emprego de ardil, enganados sejam”.

A invasão de domicílio é mais um artesanato do que uma arte, e não deve ser tentada sem a assistência de um entendido. Uma valiosa dica, quando se empreende um trabalho desse tipo, é vestir um pijama e calçar umas pantufas; assim, se alguém o interromper, você pode fingir que é um sonâmbulo.

Outra precaução similar que se deve ter antes de arriscar invasões a domicílio à luz do dia é ter por perto um amigo usando o uniforme de um sanatório. Se você for pego, basta que ele se aproxime e diga, “Perdão pelo incômodo, senhor. O cara tem um parafuso solto. Pensa que é o Charles Peace” [7], e o coloque imobilizado num táxi.

Uma última coisa: depois de cada crime, uma boa é ferrar o seu cúmplice. Se você não o fizer, mais tarde é ele quem vai ferrá-lo.

Título original ‘Careers for our Sons’, impresso na coletânea A Little Order, Ed. Donat Gallagher, 1978.

Tradução de Julio Lemos.


[1] William Pitt (1708-1778), primeiro Conde de Chatham. Estadista inglês que liderou o país durante a Guerra dos Sete Anos, conhecido como The Great Commoner por se ter recusado durante muito tempo a aceitar um título de nobreza.[2] O autor refere-se aos Union Workhouses, temidos pensionatos para viúvas, orfãos e anciãos estabelecidos na Inglaterra desde o século XVI.

[3] Ala da Igreja Anglicana mais próxima à Igreja Católica, também conhecida como anglo-católica.

[4] Nathaniel Gould (1857-1919), jornalista e romancista inglês, autor de alguns best-sellers.

[5] Personagem de Charles Dickens presente em Oliver Twist, famoso pela sua maldade; um homem de modos violentos e de “baixa extração social”.

[6] Arthur J. Raffles, personagem criado por E. W. Hornung, era um ladrão de jóias que vivia na companhia da alta sociedade vitoriana.

[7] Famoso ladrão e assassino inglês.

Publicado na revista-livro do Instituto de Formação e Educação (IFE), Dicta&Contradicta, Edição 4, Dezembro/2009. Disponível em <http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/carreiras-para-nossos-filhos/>. Acesso em 03/11/2017.

Thomas Pynchon: a paranóia e o Underground – por Luiz Felipe Amaral

Literatura | 28/07/2017 | | IFE BRASIL

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Fonte: http://against-the-day.pynchonwiki.com/wiki/index.php?title=Main_Page

 

Thomas Pynchon é um escritor misterioso. Recluso como J.D. Salinger, pouco se sabe sobre ele. Ao que consta, suas últimas aparições públicas ocorreram em episódios de Os Simpsons, em que o autor, ou melhor, seu respectivo personagem animado, aparece com a cabeça coberta por um saco de papel pardo, obviamente para lhe proteger a imagem. São numerosas (e divertidas) as teorias e os rumores sobre a sua real identidade: há quem diga que Pynchon é Jim Morrison, vocalista (supostamente) morto do The Doors, ou que é Bob Dylan ou ainda o famigerado Unabomber… Tudo que é pynchoniano está cercado de mistério.

Mas existem certezas sobre ele, ou ao menos algumas informações oficiais.

Thomas Ruggles Pynchon Jr. é americano de Glenn Cove, NY. Nasceu em maio de 1937 e estudou na Universidade de Cornell, tendo interrompido temporariamente seus estudos para servir na marinha. Depois de Cornell, trabalhou em Seattle, na Boeing. O núcleo de sua obra é composto por seis romances, V. (1963), O Leilão do Lote 49 (1966), O Arco-Íris da Gravidade (1973), Vineland (1990), Mason & Dixon (1997) e Against the Day (2006), além de um livro de contos, Slow Learner (1984)[1]. De forma geral, o premiado Pynchon é tido como um dos maiores escritores da segunda metade do século XX e como um expoente do pós-modernismo literário (o que quer que isso seja).

A ficção pynchoniana abarca uma infinitude de temas e o faz em uma variedade de estilos: ciência, ideologia, percepção, paranóia, racismo, música e matemática são tratados ao mesmo tempo e por perspectivas diferentes, às vezes pela dos romances beat, às vezes pela dos de espionagem e às vezes pela dos históricos, mas sempre pela dos histéricos. E histeria é nele uma palavra chave. Os romances gigantescos, não lineares, saturados de personagens e de digressões levaram o crítico James Wood a enquadrar a obra de Pynchon em algo que chamou de “realismo histérico”: um subgênero do pós-modernismo que, no limite da simplificação, significa tramas e escritas complicadas.

Contudo, no meio do caos desse universo, há uma série de características que se destacam em sua prosa. Por mais que os temas sejam muitos, eles são recorrentes. E um dos grandes destaques dessa obra é a idéia de que há sempre algo agindo de forma secreta, de que existem agentes no subterrâneo determinando a parte observável da realidade. Coincidência ou não (e nesse texto tenta-se argumentar que não), a obsessão de Thomas Pynchon pelo que existe no subterrâneo não é nada surpreendente quando se considera sua outra obsessão: a reclusão.

* * *

O subterrâneo de fato aparece freqüentemente em Pynchon. Tanto como lugar físico quanto como lugar metafórico. Já no seu primeiro romance, V., vemos o protagonista Benny Profane subir e descer as linhas de metrô nova-iorquino como um ioiô humano, ou então caçar crocodilos nos esgotos da cidade. Against the Day, o romance mais recente, tem cenas em minas, em túneis em construção e, inclusive, uma viagem pelo “centro da Terra” nessa estranha ligação subterrânea entre os dois pólos do planeta que o dirigível Inconvenience é forçado a atravessar.

Mas não é o underground físico que nos interessa. Em uma obra de poucos livros, mas ainda assim gigantesca em tamanho, esses trechos que ocorrem debaixo da terra são interessantes apenas como manifestação simbólica, por assim dizer, de um tema. Interessantemente, tal tema, no meio de todas as confusões pynchonianas (e são muitas), está sempre presente, de uma forma ou de outra. Em certas vezes ele fica mais claro; em outras, encoberto pelos trocadilhos, sátiras, piadas e perversões tão típicas do autor.

A idéia de que o destino do mundo ou de nossas vidas individuais é determinado por personagens que vivem nas sombras é comum aos romances de Pynchon. Em V., seguimos Sidney Stencil, filho de um espião inglês, enquanto segue a obsessão sua e de seu falecido pai pela personagem que dá título à obra. Por mais que a trama dê boas informações sobre a identidade de V., ela nunca é revelada com certeza.

Em O Leilão do Lote 49, Oedipa Maas (Édipa, em português) começa a trabalhar no inventário de seu falecido ex-namorado, Pierce Inverarity, apenas para se descobrir na conspiração que envolve um sistema de correio paralelo ao oficial (e obviamente secreto), que está em operação desde o final da idade média e que deixa (propositalmente ou não) pistas de sua existência em peças de teatro e em selos postais. Para uma dona de casa californiana sob cuidados psiquiátricos (os do Dr. Hilarius), isso é demais. Em outra trama californiana, a de Vineland, Zoyd Wheeler, um hippie que precisa agir como louco uma vez por ano para garantir seu pagamento por invalidez mental do governo, vê-se procurado pelo temível agente federal Brock Vond, que começa um cerco secreto contra Zoyd.

Against the Day, passado nas décadas que antecedem a Primeira Guerra Mundial, lida, em um nível, com as maquinações de milionários e filantropos; em outro, com os planos revolucionários de socialistas e anarquistas; e, por último, com as batalhas secretas que as grandes potências mundiais travam na véspera do conflito. Em meio a isso, surgem questões sobre a natureza do tempo e do processo histórico, da ciência e da matemática. Em outro romance histórico, Mason & Dixon, dois astrônomos do século XVII vêem-se à mercê das ordens esotéricas da British Royal Society. Nesse mundo setecentista, enquanto Mason e Dixon viajam para a América pré-revolucionária, algo como uma conspiração sino-jesuíta transmite-se pelas páginas do romance.

É obvio que as tramas, da forma como acabam de ser retratadas, não passam de simplificações. E o são em um sentido muito específico: enquanto não são um retrato abrangente das histórias de Pynchon (e devemos nos perguntar, tendo em vista a complexidade, se é possível fazer um retrato abrangente de cada um desses romances), as perspectivas acima trazem, sem erro, elementos constituintes e relevantes delas, por mais que estejam longe de as esgotar. Essa observação se faz ainda mais necessária quando se pensa no que é tida como a maior obra de Thomas Pynchon: O Arco-Íris da Gravidade.

* * *

O Arco-Íris da Gravidade é um romance gigantesco em vários sentidos: no tamanho, nos temas, nos estilos e na linguagem. O mais próximo que tem de um protagonista é o tenente do exército americano Tyrone Slothrop. Por uma série de motivos, nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial Slothrop perambula pela Europa, esbarrando em americanos, russos e nazistas. O clima de paranóia é generalizado, tanto em Slothrop, que foi vítima de experimentos científicos quando criança, como nos agentes da White Visitation, um ramo do serviço secreto britânico responsável pela guerra psicológica (e pela parapsicológica também), e como também no schwarzkommando, uma divisão misteriosa do exército alemão.

Entretanto, é necessário ter em mente que o subterrâneo não está apenas nas agências de espionagem e nos conspiradores. Interessantemente, as personagens de Pynchon estão com muita freqüência ligadas ao underground. Não importa a época das histórias; há sempre um grupo de pessoas abertas a novas verdades ou novos modos de viver. É notável, por exemplo, a presença em V. da Whole Sick Crew, um grupo de artistas de vanguarda, interessados na cultura do jazz na Nova York dos anos 50. Em O Leilão do Lote 49, temos The Paranoids, uma banda de rock que, no auge da “invasão britânica” dos Beatles, insiste em cantar com um falso sotaque inglês; e, em Vineland, os punks de Billy Barf and the Vomitones. Exemplos à parte, para Pynchon, a presença da contracultura ou do apelo beat da segunda metade do século XX é contrapartida para a presença de aventureiros e revolucionários no século XIX. Os grupos mudam, mas o significado fica.

Contudo, o interessante não é apenas a presença desses grupos, mas a relação que eles têm com outro tipo de personagem que está na essência de Pynchon: a figura do loser. Benny Profane, Tyrone Slothrop, Zoyd Wheeler e, em menor grau, Oedipa Maas têm todos algumas características comuns. São personagens deslocados, com dificuldade de se encaixar em grupos, ou na sociedade em si. É como se tudo que fizessem desse errado. Em resumo, são personagens inseguros ou de personalidade fraca, a quem não resta muita coisa senão vagar pelo mundo, mais ou menos movidos por inércia.

Por fim, existem todos os outros personagens pynchonianos. Cientistas, marinheiros, médicos, ninfomaníacas, cães que falam, lâmpadas elétricas. Se de perto ninguém é normal, os personagens de Pynchon não o são nem de longe. E é esse o grande motivo da opção por nomes estranhos (Dr. Genghis Cohen, Fergus Mixolydian, Professor Vanderjuice, Ernest Pudding): mostrar o seu descolamento com relação à realidade.

E a realidade pynchoniana pode ser desesperadora. Pynchon é um escritor da modernidade, isso fica claro pela sua escolha de tempos e de temas. A América pré-revolucionária de Mason & Dixon, a belle époque de Against the Day e o cume da Segunda Guerra Mundial de O Arco-Íris da Gravidade têm em comum o fato de serem momentos determinantes da modernidade. Por outro lado, a presença da ciência, da matemática, das ideologias, da tecnologia, da cultura pop também é marca, e até caricatura, da modernidade.

* * *

Mas o aspecto central da modernidade que Pynchon retrata com maestria é outro e essencial: a complexidade. As tramas convolutas, gigantes, os inúmeros personagens, e a linguagem não constante que varia entre capítulos, todas são características de um mesmo fenômeno moderno que o autor deseja expressar: a quantidade estupefaciente de informação. Nesse sentido, os romances chegam a ser caóticos e o ficam ainda mais quando percebemos que possivelmente podem existir relações entre eles. Há instituições e personagens que cruzam romances; o universo pynchoniano é um só.

Nesse contexto, é imediato se perguntar como agem ou reagem as personagens deslocadas e inseguras de Pynchon, principalmente quando se chocam (e “chocam” é uma palavra interessante, pois designa o encontro de partículas que se movem por inércia) com seus colegas do underground e com um cenário incerto, em que podem todos ser vítimas de conspirações.

O resultado não é bom. Não é bom e é composto, grosso modo, por desorientação, desespero e paranóia. A desorientação é perceptível pelo comportamento inercial das personagens. Oedipa Maas, por exemplo, passa um dia fazendo trabalho de detetive em São Francisco para acabar se encontrando, sem querer, no exato local onde havia começado e sem ter conseguido obter uma única grande conclusão. A questão é: será a desorientação fruto de um universo entrópico apenas ou de tal universo combinado com certos tipos de pessoas?

Há também o desespero. Pois se a paranóia é uma opção irrealista diante do caos, como explicar as evidências encontradas, os fatos que a investigação trouxe à tona? Nesse momento, tem-se o oposto de visão autocentrada que será, como veremos, a do paranóico: passa-se a duvidar da própria percepção. Principalmente quando se descobre que o Dr. Hilarius trocou os antidepressivos por alucinógenos (O Leilão do Lote 49) ou quando a obsessão sua e de seu pai é desmontada, literalmente, pedaço por pedaço (V.).

Por fim, há a paranóia. Diante de uma realidade inabarcável, uma tendência dessas personagens é organizar todas as informações disponíveis, conflitantes ou concordantes, em uma trama tão complexa quanto autocentrada. Pois o interessante do paranóico não é a simples crença na conspiração, mas a crença de que ele possui um papel principal nela, de que é ele sozinho que a deve expor, ou de que ele sozinho é seu alvo. Há um momento, em O Leilão do Lote 49, em que Oedipa Maas, lembrando da riqueza de seu antigo amante, considera que todo o percurso e tudo o que encontrou foi orquestrado por Pierce Inverarity, sendo ela a vítima de uma grande practical joke. O caso é ainda mais grave com Tyrone Slothrop, em O Arco-Íris da Gravidade, que se vê como uma peça central da Segunda Grande Guerra. Mas a pergunta fica: é plausível que a paranóia seja apenas um tipo de wishful thinking, algo como uma providência menor para aqueles que não crêem na Providência maior?

Neste momento, uma breve digressão talvez nos ajude. A natureza histórica de uma parte relevante da obra pynchoniana não serve apenas para dar contexto às tramas. Como se viu acima, o tempo é um elemento essencial da mensagem que Pynchon quer passar. Isso é patente em todo Mason & Dixon, mas especialmente em um episódio no qual se discute a adoção do calendário gregoriano e os onze dias que “sumiram” (na adoção, passou-se do dia 2 para o dia 13 de setembro). Além disso, em Against the Day o tempo é enfocado tanto do ponto de vista das teorias científicas quanto da relação que as pessoas têm com ele. Isso fica claro em um trecho muito ilustrativo do papel do subterrâneo em Pynchon e, logo, do espírito do presente artigo:

“No Simplon, a partir de 1898, um enorme túnel esteve em construção a fim de ligar as linhas de trem entre Brigue, na Suíça, e Domodossola na Itália, substituindo uma viagem de nove horas por diligências puxadas a cavalo. […]

“Entre as muitas superstições dentro da montanha, estava a crença de que o túnel era ‘terreno neutro’, isento não apenas de jurisdições políticas, mas do próprio Tempo. Os Anarquistas e Socialistas de turno tinham sentimentos mistos acerca da lenda; sofriam com ela, mas ela também se faria a sua libertadora, se ao menos conseguissem sobreviver para voltar a ver o dia” [2].

As questões do tempo (o passar dos dias), do Tempo (o processo histórico) e da paranóia se misturam. O típico loser pynchoniano, aliás, se vê como uma vítima da história. A distinção recém feita é fundamental e o é porque na verdade não se sabe o quanto das teorias conspiratórias é fato ou não. Afinal, por mais inverossímil que possa parecer, não é impossível que Pierce Inverarity tenha pregado uma peça em Oedipa Maas. A ambigüidade entre o que a realidade é de fato e o que é uma projeção da paranóia é, em Pynchon, mais desorientadora que toda a entropia e todo o caos dos seus romances.

* * *

Eis, portanto, uma forma de entender a literatura de Thomas Pynchon. A sua obra nasce do conflito entre o mundo real e o subterrâneo e joga nesse conflito um tipo muito específico de personagem. Ao mesmo tempo, visto que é uma literatura sobre a modernidade, tais personagens são imersos em quantidades gigantescas de informação. Nesse processo as personagens tendem ao desespero ou à paranóia. É essa a mensagem de Pynchon. Muito simples para aquele que é tido como um dos escritores mais complexos do nosso tempo, não? Em V. há algo que descreve esse sentimento:

“Mas era uma teoria certinha, e ele estava apaixonado por ela. E o único consolo que tirava do caos presente era que a sua teoria conseguia explicá-lo” [3].

Mas a descrição acima tem como objeto justamente os sentimentos de um desses personagens de Pynchon, deslocados e paranóicos. É perfeitamente possível que todo o esforço de análise das linhas acima não passe de uma “teoria certinha”. Principalmente se lembrarmos que tudo o que é pynchoniano é cercado de mistério. No limite, a interpretação que se faz nesse texto tem a mesma probabilidade de estar certa que de estar errada, de ser adequada ou não. Mas será essa a questão interessante?

* * *

Talvez seja mais interessante comparar aquilo a que Pynchon submete os seus personagens com aquilo a que submete os seus leitores. Não é só Oedipa Maas, Benny Profane ou Tyrone Slothrop que se vêem cercados de entropia e “incumbidos” de organizá-la. Ao escrever romances gigantescos, com digressões exaustivas e múltiplos personagens, Pynchon obriga o leitor a lidar com uma quantidade de informação não muito diferente daquela que joga em cima de seus protagonistas.

Além disso, a obsessão que o autor tem pela reclusão o transforma na figura do conspirador. Pynchon escreve do subterrâneo. Dali envia mensagens enormes e complexas. Não se sabe se há algo coeso a interpretar na sua obra ou se ele simplesmente está “pregando uma peça” nos leitores. Há, nesse sentido, um delicioso paralelo entre o autor e seus leitores, de um lado, e a realidade e as personagens, de outro.

Não é de se espantar, portanto, que as reações à obra de Pynchon sejam tão parecidas com as de seus personagens. Muitos ficam no desespero, taxando os romances de ilegíveis. Foi essa, aliás, a opinião do conselho do Prêmio Pulitzer acerca de O Arco-Íris da Gravidade, por mais que o romance tenha sido indicado unanimamente (não houve prêmio de ficção em 1974). Outros pendem para o lado da paranóia, e da mesma forma há toda uma série de teorias díspares sobre o autor. Há quem afirme que ele é anarquista, há quem afirme que é conservador, há quem afirme que defende o ludismo.

Restam os romances e os contos. Thomas Pynchon sem mistérios (sem desespero e sem paranóia) é um ótimo escritor, cria enredos divertidos, tramas envolventes e sátiras contagiantes. É um mestre em retratar as situações mais improváveis e os diálogos mais estranhos. Sabe tanto contar piadas como descrever aquele tipo de amor bobo tão próprio dos adolescentes (mas não apenas deles). E sabe descrever como ninguém.

O bom do mistério é que ele abre espaço para surpresas. Ainda em 2009, apenas dois anos depois de lançar um livro com mais de mil páginas, Pynchon publicou Inherent Vice, um romance “meio noir, meio viagem psicodélica” com o detetive hippie Doc Sportello. Estranhamente, Inherent Vice é o romance de leitura mais fácil que Pynchon já escreveu. Mas se engana quem pensa que o mistério acabou: também em 2009, depois de Modern Times, Bob Dylan  lança não um, mas dois álbuns novos. Enfim, talvez os dois sejam de fato a mesma pessoa…

Luiz Felipe Amaral é mestre em economia pela FEA-USP e membro do IFE.

 


NOTAS:

[1] No Brasil, a Editora Paz e Terra publicou V. (1988), já a Editora Companhia das Letras publicou Vineland (1991), O Leilão do Lote 49 (1993), O Arco-Íris da Gravidade (1998) e Mason & Dixon (2004). Todos se encontram esgotados, exceto os dois mais recentes.

[2] “At the Simplon a massive tunnel project had been under way since 1898 to connect train lines between Brigue in Switzerland and Domodossola in Italy, replacing a nine-hour trip by horse-drawn dilligence. […]

“Among the many superstitions inside this mountain was the belief that the tunnel was ‘neutral ground’ exempt not only from political jurisdictions but from Time itself. The Anarchists and Socialists on the shift had their own mixed feelings about the history. They suffered from it, and was also to be their liberator, if they could somehow survive to see the day” (Against The Day, Penguin Press, Nova York, 2006, pp. 652-654).

[3] “But it was a neat theory, and he was in love with it. The only consolation he drew from the present chaos was that his theory managed to explain it” (V., Harper Perennial Modern Classics, Nova York, 2005, p. 199).

 

Artigo publicado originalmente na revista-livro do Instituto de Formação e Educação (IFE), Dicta&Contradicta, edição 4, dezembro/2009.

Vida que se recolhe ao invisível: notas sobre Rilke – Juliana P. Perez

Literatura | 07/07/2017 | | IFE BRASIL

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Um retrato de Rilke pintado dois anos depois de sua morte por Leonid Pasternak.

Em 1917, em um de seus textos críticos fundamentais, Tradition and Individual Talent, T. S. Eliot escreve que o significado da obra de um poeta só pode ser percebido no contraste e na comparação com escritores e artistas já falecidos. E acrescenta:

  “…quando se cria uma nova obra de arte, ao mesmo tempo acontece algo com todas as obras de arte que a precederam. Os monumentos existentes formam entre eles uma ordem que é modificada pela introdução da obra de arte nova (realmente nova). Antes de a nova obra chegar, a ordem existente está completa; e para que essa ordem persista após a chegada da novidade, toda ela tem de ser modificada, mesmo que seja de maneira quase imperceptível. Assim, as relações, proporções e valores de cada obra para com o todo reajustam-se; e isto é conformidade entre o velho e o novo”.

Não por acaso cito Eliot no início de um breve ensaio sobre a poesia de Rainer Maria Rilke (1875-1927): a aguda observação do poeta americano serve aqui como critério para a leitura dos textos de Rilke e explica por que, a meu ver, Neue Gedichte (“Novos poemas”), Sonette an Orpheus (“Sonetos a Orfeu”) e Duineser Elegien (“Elegias de Duíno”) são livros que ainda despertam o interesse de um leitor atento. A eles juntam-se Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (“Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”), Rodin, Briefe über Cézanne (“Cartas sobre Cézanne”), escritos no mesmo período.

O aparecimento de uma novidade real, no sentido de uma transformação no interior de um conjunto de textos que constituem uma “tradição”, explica por que 1922, ano em que Rilke publica Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno, tornou-se uma data de referência na história da literatura: esse também foi o ano de publicação de textos como The Waste Land, de Eliot, e Ossi di Sepia, de Eugenio Montale, por exemplo. Entre nós, 1922 apenas tentou ser um ano importante. No primeiro caso, os livros citados não só alteraram significativamente sua respectiva tradição literária, como provocaram mudanças em literaturas de outras línguas. No caso brasileiro, uma certa agitação no Teatro Municipal pode ter sido, para quem o queira, até mesmo divertida – mas não alteraria de fato as “relações e proporções” no interior de nossa literatura. O melhor de Machado de Assis, para citar apenas um exemplo, faz-nos reavaliar não somente José de Alencar, mas também Eça de Queiroz, Gustave Flaubert… E assim por diante.

Quando Rilke publica, em 1899, Die Weise von Liebe und Tod des Cornets Christoph Rilke (“A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke”), e quando, seis anos mais tarde, lança Das Stunden-Buch (“O livro das Horas”), sem dúvida já se revela como uma das grandes vozes da poesia de língua alemã. Ambos os livros tiveram grande êxito junto ao público leitor. Mas, até ali, Rilke não fizera nada além de selecionar seus motivos e trabalhar com um repertório de imagens caras à poesia alemã, sob a inquietação que as leituras de Nietzsche, a relação com Lou Andreas-Salomé e a forte impressão das viagens feitas à Rússia lhe provocavam. Embora tanto a relação com Lou quanto a experiência na Rússia permaneçam presentes em textos posteriores, seus primeiros livros não representam mais do que o momento do encontro entre tais experiências e uma certa tradição lírica. No âmbito de língua francesa, que Rilke conhecia muito bem, era a época em que a poesia de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé era exaltada sob o (questionável) nome de “simbolismo”; no âmbito de língua alemã, Nietzsche determinava a verdade como uma rede de metáforas e iniciava sua filosofia “com o martelo”, Fritz Malthner escrevia sobre o fracasso da linguagem e Lorde Chandos, personagem de um texto Hugo von Hofmannsthal, observava a desintegração da mesma.

Como nos autores citados, a busca de uma nova linguagem, em Rilke, já se opunha, com maior ou menor sucesso, às estreitezas da razão cartesiana. Mas somente quando ele vai a Paris, em 1902, encontra um rumo claro para sua criação artística. Rilke passara um breve período na pequena cidade de Worpswede, na qual moravam vários pintores alemães do início do século XX; ali conhece a pintora Paula Modersohn-Becker e sua amiga Clara Westhoff, através da qual entra em contato com Rodin. A convivência com artistas plásticos não só reforça o gosto de Rilke pela história da arte, mas também desperta nele a paixão por “ver” e a busca pela exatidão da representação artística. Sua ida para Paris dará vigor ao novo ethos: desaparece o gesto do eu que “sente” para dar lugar a um olhar objetivo da vida. Embora a celebração da vida em si mesma, alternada com uma certa queda pela decadência, estivesse presente em muitos textos da época, aqui se trata de uma tentativa de conhecimento: apreender a vida em movimento.

Em Rilke, o conhecimento do real se dá por meio da literatura: ele não acontece “antes” do texto literário, como se um conteúdo filosófico devesse ser “traduzido” em forma poética, tampouco “depois” que o texto está terminado, como se a criação artística fosse apenas um intervalo entre dois pontos. Rilke, admirador confesso de Valéry, é um poeta ligado ao entretempo, ao “processo” de escrever. Mas, ao contrário do poeta francês, Rilke não valoriza o “processo” em si mesmo, isolado de seu resultado, apenas o observa como condição de possibilidade para alcançar um objeto fora de si, somente acessível ao sujeito por meio da linguagem. Quando se desviam desse ímpeto cognitivo, os textos de Rilke parecem resvalar num patético quase insustentável. Um verso como “Ela já era raiz” (“Sie war schon Wurzel”), do poema Orpheus, Eurydike, Hermes, nada acrescenta, por exemplo, ao de resto impressionante texto – talvez apenas aumente a impaciência de Orfeu para sair do mundo dos mortos. Em si mesmo, é apenas um verso de efeito duvidoso, como tantos outros, devidamente satirizados ao longo da recepção de Rilke.

O desafio de conhecer a própria vida por meio da literatura viria a implicar, necessária e paradoxalmente, um retorno à morte como uma experiência vital. Assim se iniciam as anotações parisienses de Malte Laurids Brigge:

“É então aqui que as pessoas vêm viver; eu antes diria que é aqui que se morre. Hoje saí. E vi: hospitais. Vi um homem que cambaleava e caiu. Juntaram-se pessoas em volta, e isso poupou-me o resto. Vi uma mulher grávida. […] Depois vi uma casa singularmente cega, cega de gota serena, não estava registrada no plano, mas por sobre a porta via-se ainda bem legível: Asyle de nuit[1].

As primeiras coisas vistas pelo protagonista do romance estão todas ligadas à doença e morte; os parágrafos se alternarão entre o que Malte vê e o que ouve, mas é ainda logo no início que ele escreve:

 “Aprendo a ver. Não sei por que, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar onde até agora acabava sempre. Tenho um interior de que não sabia. Tudo lá vai dar agora. Não sei o que ali acontece. […] Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo. Por exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há muitas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias”.

Dois anos antes de seu falecimento, Rilke ainda escreverá sobre o protagonista:

 “[…] o jovem M. L. Brigge sente necessidade de tornar apreensível para si mesmo, por meio de fenômenos e imagens, a vida que continuamente se vai recolhendo ao invisível; encontra estes fenômenos e imagens ora nas próprias recordações da infância, ora no seu ambiente parisiense, ora nas suas reminiscências de leituras. E tudo isso tem, onde quer que ele o tenha vivido, a mesma validade para ele, a mesma duração e a mesma presença”[2].

 Em seu ensaio sobre Rodin, escrito e publicado em 1902, Rilke descreve o impulso que movia o escultor, sem disfarçar que este é também o seu ideal de arte:

 “Com essa descoberta [da superfície] começa o autêntico trabalho de Rodin. […] Não havia poses, nem grupos, nem composição. Havia somente incontáveis superfícies vivas, havia somente vida […]. Rodin percebia a vida, que estava em toda parte, em qualquer lugar que olhasse. Ele a percebia em todos os lugares, observava-a, dirigia-se a ela. Ele a esperava onde ela hesitava, na sua superação; ele a pegava onde ela corria, e encontrava-a em todos os lugares em seu tamanho original, com a mesma força que a impelia. Não havia então nenhuma parte do corpo diminuta ou sem significado: ele era vivo” [3].

 Pouco depois de redigir o ensaio, Rilke começa a escrever os poemas de Neue Gedichte (“Novos poemas”) – “Der Panther” (“A pantera”) foi escrito em novembro de 1902; Der neuen Gedichte anderer Teil (“A outra parte dos novos poemas”) também acompanha a redação de um novo “Relato” sobre a obra de Rodin, publicado em 1907, a quem Rilke dedica seu livro. Ignorar os nexos entre os escritos de Rilke e a inegável relação de seus poemas com o real equivaleria a fazer de Rilke um pré-concretista chique. Considerá-los em seu conjunto e em seu ímpeto de conhecimento do real nos oferece a chave de leitura não só de Novos poemas, mas de toda sua obra. A mudança do visível, do olhar – atitude que caracteriza Novos poemas/ A outra parte dos novos poemas para o invisível, a escuta – atitude que caracteriza Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno –, não é mais do que o desenvolvimento que o próprio Rilke previu para o jovem Malte: “a vida que se recolhe ao invisível”, uma vez que a tarefa de captar em um só fôlego a vida e a morte e registrá-las em todas as suas variações estaria fadada ao insucesso.

Mas, antes de seguir rumo ao invisível, Rilke – na imitação do mestre Rodin, que continuou a admirar mesmo após o conflito entre os dois – deixa de lado a abstração transcendente do Livro das horas para se deter em cada um dos objetos ao seu redor: obras de arte, animais, plantas, figuras históricas, legendárias ou bíblicas, impressões de viagem, cidades – e cada um dos fenômenos, figuras ou objetos é apresentado como a vida em ato. “A pantera” torna-se, nos termos de Eliot, o “correlato objetivo” de uma experiência, mas não a “expressão” de um eu que se dilata até a natureza.

DER PANTHER

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille Steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
Sich lautlos auf. – Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

 

A PANTERA [trad. Geir Campos]

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído – e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

 

Neste poema, em que o “eu” não comparece em nenhuma forma verbal ou nominal, todos os versos acontecem em terceira pessoa e descrevem movimentos: dos olhos, dos passos, de uma imagem captada pelo olhar. Na forma lingüística, nada trai aqui o estado de ânimo do eu que escreve; a identificação também é evitada pela comparação explícita do “como se”, tão característico dos poemas de Rilke. Entretanto, a tentativa de apreensão do real – que quase obriga o poema ao enjambement – é o ápice de tensão da subjetividade.

É o encontro com o real, a busca do movimento da vida – visível ou invisível, como no poema “Archaïscher Torso Apollos” (“Torso arcaico de Apolo”) – que interpela o eu, devolvendo-lhe o olhar que este lhe dedicara. Os dois últimos versos do poema, na insuperável tradução de Manuel Bandeira, dizem: “… pois ali ponto não há / que não te mire. Força é mudares de vida”. A descoberta da subjetividade – com sua conseqüente implicação ética – deve-se ao olhar atento ao real.

A passagem da abstração transcendente à objetividade apaixonada de Novos poemas é sintetizada pelo próprio Rilke em 1907:

“… a natureza era para mim, então [em Livros das Horas], um ensejo geral, uma evocação, um instrumento em cujas cordas minhas mãos se reconheciam; eu ainda não sentava diante dela; me deixava levar pela alma que dela emanava; ela incidia sobre mim com sua vastidão, com sua grande e exagerada existência, como o profetizar vinha a Saul; exatamente assim. Eu caminhava ao redor e via, mas não via a natureza, e sim a história que ela me inspirava. Teria aprendido muito pouco, naquela época, diante de Cézanne e de Van Gogh. Por isso, por Cézanne ter tanto a ver comigo agora, noto como me tornei diferente” [4].

A objetividade apaixonada, quase obcecada por um motivo em constante mudança, como o Mont Sainte-Victoire seria para Cézanne, implica uma nova transição, que Rilke formulará nesse mesmo ano, mas que só finalizará após longos anos de crise criativa:

“As coisas da arte são sempre resultado de ter estado em perigo, de ter ido até o fim de uma experiência, até um ponto que ninguém consegue ultrapassar. Quanto mais se avança, tanto mais própria, tanto mais pessoal, tanto mais singular torna-se uma vivência, e a coisa da arte é enfim a expressão necessária, irreprimível e o mais definitiva possível desta singularidade […]. Aí está a enorme ajuda das coisas da arte para a vida daquele que tem que fazê-las […]” [5].

Em 1912, após duas longas visitas ao castelo de Duíno, em 1910 e 1911, Rilke escreve as duas primeiras elegias. Ao contrário do que boa parte da crítica afirmou, as Elegias de Duíno, publicadas somente em 1922, estão impregnadas pelos sofrimentos da Primeira Guerra Mundial: talvez fosse possível dizer que o sentimento de abandono, o medo, a angústia da cidade grande – que caracterizam as vivências de Malte – são levadas a seu extremo após a guerra, quase como se Rilke não pudesse ter escrito as Elegias antes do término do confronto mundial. Em carta a um amigo, Rilke escreve:

“Passei todos os anos da guerra, par hasard plutôt, esperando em Munique, pensando sempre, tem que ter um fim, sem compreender, sem compreender, sem compreender. Não compreender: sim, esta foi toda a minha atividade nesses anos, posso lhe assegurar que não foi fácil!” [6]

A partir de 1919, Rilke passa a ser hóspede de amigos na Suíça, mora por alguns meses em um pequeno castelo em Irchel; em seguida, um amigo aluga para o poeta a torre de Muzot, que Rilke habitará até seu falecimento. Somente então consegue retomar a criação iniciada em 1912 em Duíno. Enquanto ainda escreve as Elegias, no início de 1922, Rilke redige, em menos de 20 dias, os Sonetos a Orfeu.

Como antes as Cartas sobre Cézanne, os Sonetos são a homenagem de um artista a outro, um diálogo entre o cantor mítico e o novo Orfeu. As Elegias são o canto fúnebre de um mundo que desaparecera por causa da guerra, as palavras de um Orfeu moderno que perdeu Eurídice e tudo o mais e que, no entanto, sobreviveu às Mênades e conseguiu reintegrar, na estreita razão cartesiana, a vida e a morte: “A afirmação da vida e da morte mostram-se como um nas Elegias” [7], escreve o autor em 1925. No mesmo sentido, a imagem do anjo representa, nas palavras de Rilke:

“… aquela criatura em que a transformação do visível no invisível, que realizamos, já aparece completa. Para o anjo das Elegias todas as torres e palácios antigos são existentes, porque há muito são invisíveis, e as torres e pontes do nosso ser ainda existentes são invisíveis, embora ainda durem corporalmente (para nós). O anjo das Elegias é aquele Ser, que é responsável por reconhecer no invisível um grau mais elevado da realidade. – Por isso, ‘terrível’ para nós, pois nós, seus transformadores e amantes, ainda dependemos do visível” [8].

Ainda que a superação do visível também seja um dos paradoxos iniciados na modernidade, não é possível negar que a busca da vida em movimento – da vida que se recolhe ao invisível – é o que concede aos textos de Rilke sua grandeza.

Juliana P. Perez é doutora em Língua e Literatura Alemã pela Universidade de São Paulo. Foi professora da UFRJ de 2006 a 2009; desde abril de 2009, é professora de Literatura Alemã da FFLCH/USP.

NOTAS:


[1] Os cadernos de Malte Laurids Brigge. Tradução de Paulo Quintela. Coimbra: Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1955, pp. 3; 5.

[2] Carta de Rilke a Witold Hulewicz, Muzot sur Sierre (Valais), 10 de novembro de 1925. In: Os cadernos de Malte Laurids Brigge. Tradução de Paulo Quintela. Coimbra: Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1955, pp. 265-266.

[3] Rodin. Trad. Daniela Caldas. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995, pp. 31-32.

[4] Cartas sobre Cézanne. Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996, p. 63.

[5] Idem, p. 24.

[6] Carta de Rilke a Leopold von Schlözer, 21 de janeiro de 1920, apud  Hans Ego Holthusen. Rilke. Hamburg: 1998, p. 127.

[7] Carta de Rilke a Witold Hulewicz, 13 de novembro de 1925, apud Holthusen, p. 152.

[8] Idem.

Svetlana Alexiévich: “A Guerra não tem rosto de Mulher” – por Pablo González Blasco

Literatura | 16/03/2017 | | IFE BRASIL

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Svetlana Alexiévich: “A Guerra não tem rotos de Mulher”. Companhia das Letras. São Paulo. (2016). 390 págs.

A guerra não tem rosto de mulherA partir do momento em que esta escritora recebeu o prêmio Nobel em 2015 -ela diz ser uma jornalista que transcreve a História nas vozes daqueles que nunca tiveram protagonismo-, fiquei atento ao lançamento dos seus livros, e comprei alguns deles na primeira oportunidade. Comecei a leitura por este, espicaçado pela originalidade do tema: mulheres russas na segunda guerra mundial. Uma guerra que não era a praia delas ou que, de um modo ou outro, eram episódios que tinham sido silenciados. “Nos roubaram a Vitória. Não a compartilharam conosco. Na fronte os homens nos tinham dado um trato formidável, nos protegiam. Mas na vida normal tudo isso caiu no esquecimento”. O que não deixa de ser curioso, porque todas elas tinham sido formadas no amor à pátria, de maneira incondicional: “Sempre tínhamos estado combatendo ou nos preparando para a guerra. Nunca vivemos de outra maneira, deve ser que não sabemos como viver sem isso. Na escola ensinavam-nos a amar a morte”. Um patriotismo que se mistura com a mística da alma russa que rende, por exemplo, este testemunho paradoxal e surpreendente: “Minha mãe era uma camponesa sem estudos, acreditava em Deus. Passou toda a guerra rezando-lhe a Deus, de joelhos diante de um ícone: Salva o povo, Salva a Stalin, salva o partido comunista desse monstro que é Hitler”.

Svetlana é uma escritora que dá voz ao povo. Esta obra -parece-me que as outras também- está composta com os testemunhos, magnificamente alinhavados, de multidão de pessoas; neste caso mulheres, que participaram da Segunda grande Guerra. Uma obra polifónica -como reconheceu o comitê do Nobel- fruto de um trabalho de décadas, uma investigação arqueológica, como se comentou na nossa tertúlia literária mensal.

Escritora ou jornalista, tanto faz, mais se assemelha a uma diretora de orquestra que permite a sinfonia de um relato incrível, onde todos os instrumentos tem entrada, compassos de espera, e acordes impactantes. Basta ver, por exemplo, a metodologia que utiliza na coleta de informações: “Passo longas jornadas numa casa ou num apartamento. Tomamos chá, provamos novas blusas, falamos de cortes de cabelo e receitas de cozinha. Olhamos fotos de netos. E então, depois de um tempo, surge o esperado momento onde a pessoa se volta para o seu interior. Deixa de recordar a guerra para lembrar a juventude, um fragmento de vida. É preciso agarrar esse momento. ‘Fui à fronte tão jovem que durante a guerra cresci um pouco’ (…) Os álbuns de fotografias, são como um diário íntimo. Normalmente os diários falam de amores, aqui o tema era a morte (…). As duas tínhamos tomado chá na sua cozinha. As duas chorando”. Quando leio isto, lembro-me do que se define como pesquisa qualitativa, construída através de entrevistas, montando um sujeito coletivo, e onde, sem nenhum demérito se reconhece que o pesquisador se envolve na própria pesquisa. O que não lhe resta nada de rigor científico; é como um mergulho fenomenológico. É a história através das vozes de testemunhas humildes e participantes simples, anônimos. “Sim, isso é o que eu quero transformar em literatura. Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos humanos. Sou historiadora da alma. A pessoa concreta, discernir o ser humano inteiro. A vibração de eternidade. O que há nele de imutável. Cada um percebe a vida através do seu lugar no mundo ou do ofício em que participa. Somos gente de caminho e de conversas”.

Penso que dificilmente alguém que não fosse mulher, e com muita sensibilidade, teria conseguido semelhantes revelações dando voz a essa polifonia feminina. Não conseguiria captar os relatos em registro feminino. Se lhe escapariam os detalhes. Além de que buscaria uma objetividade que não existe. Esta escritora-jornalista funciona como um líquido revelador dos fotogramas impresso na alma das protagonistas. E o resultado é uma avalanche de sentimentos, sensações, sofrimentos, alegrias e detalhes tremendamente femininos. Os exemplos são múltiplos, variadíssimos, até encantadores no meio da tragédia.

“Quando tínhamos um tempo de descanso, começávamos a bordar alguma coisa. Uns lenços. Nos tinham dado umas meias e polainas que convertíamos em lenços e cachecóis. Apetecia-nos fazer qualquer tarefa feminina, sentíamos falta. Qualquer desculpa servia para voltar ao nosso estado natural. E a saudade de casa, e a família.  Lembro de uma moça que regressou de uma licença, tinha estado na casa dela. Ela cheirava… a casa! Fazíamos fila para cheirá-la. (…). Se renuncias a ser mulher não sobrevives na guerra. Nunca invejei os homens. Nem durante a guerra. Sempre me alegrei de ser mulher. Há quem fale sobre a beleza das armas….Para mim nunca foram belas, sou incapaz de entender o que um  homem admira numa pistola. Eu sou uma mulher (…). Meu marido me propôs matrimônio em Berlim. A guerra tinha acabado. Senti vontade de chorar, de dar-lhe um tapa. Casamento? Nesse momento? Entre tijolos queimados e fumaça? Olha como estou. Faz-me primeiro sentir-me mulher, dá-me flores, diz-me coisas bonitas. Preciso disso! (…). De uma mochila saiu um rato, e todas demos um pulo, e algumas até gritaram. O capitão não acreditava: todas vocês têm medalhas e têm medo de um rato!”

A franco atiradora, a operadora de tanques, que se imaginam no papel de Joana d’Arc. Mulheres que se misturam com sangue e lodo e não perdem o estilo e a feminilidade. “O que levei à guerra quando me alistei? Bombons. Uma mala cheia de bombons. Gastei todo o dinheiro da minha indenização em bombons. Sabia que na guerra não precisaria de dinheiro. E pedi para me enviarem ao mesmo destino que a minha amiga (..). Tínhamos acabado o exercício de tiro e voltávamos à pé. Recolhi umas violetas, um buque pequeno, e o amarrei na minha baioneta. O comandante disse: um soldado é um soldado não uma menina que recolhe flores. Um homem não o podia compreender (…).  As mulheres sempre mencionam a beleza: “estava tão bela no caixão…parecia uma noiva”. Tinham que me entregar uma medalha e minha camisa militar estava velha, fiz um colarinho branco com gaze…. Deram-me dois ovos e eu os utilizei para limpar as botas. Sim, tinha fome, mas ganhou a mulher: queria estar bonita”.

E revelações fascinantes que um repórter homem nunca conseguiria obter. “O que é o mais espantoso na guerra? A morte? Não, para mim o mais terrível era ter de levar calções de homem. Um horror. Algo ridículo, quando estás te preparando para morrer pela Pátria. Somente muito depois, entrando na Polônia, nos deram roupa interior feminina…, Mas, estás chorando? Por quê?”. Confesso que neste momento, entendi de modo contundente e definitivo algo que os homens dificilmente compreendemos: as grifes e os preços do lingerie feminino. Um universo aparte.

E também pensei se, após ler este livro, as ideias da ideologia de gênero, nos seus espasmos de uniformidade e de opção de escolha, conseguiriam subsistir: parece-me que não restaria pedra sobre pedra. “Como ser um homem? Impossível. Nossos pensamentos são uma coisa, mas a natureza é completamente diferente. Começou um bombardeio, os homens correram para se esconder. Mas nós não escutávamos as bombas, corremos para o rio, e entramos na água. Ficamos lá até sentir-nos limpas (…)”. E uma das entrevistadas fecha a questão com a pergunta que o seu neto lhe faz vez quando vê as fotografias: Vovó, antes, na guerra, você era um rapaz?

O horror da guerra plasmado nestas páginas, encontra-se temperado por essa qualidade tão feminina que é o cuidar. Os testemunhos das que exerciam funções de enfermeiras ou de médicas, vem presidido pela ternura. “O que é a felicidade no combate? É encontrar entre os que caíram alguém com vida! (…). Perdi o dom de chorar, esse dom tão de mulheres. Saltavam dos tanques em chamas, os corpos ardendo. Tinham os braços ou pernas rotas. Me pediam: Se morro, escreva à minha mãe, escreva à minha mulher (…). Minha guerra cheira a três sustâncias: sangue, clorofórmio e iodo! No final da jornada tínhamos sangue no cabelo, empapava os aventais, as máscaras. Chegava no corpo. Negra, viscosa, misturada com urina, com excrementos, com tudo o que há dentro de um ser vivo. (…). Na guerra não há cheiros de mulheres. Todos os odores são masculinos. A guerra cheira a homem!”

A descrição da guerra, duríssima, cruel, mas em registro feminino. Algo que dá vida e deixa de ser um filme de ação, como habitualmente nos descrevem no cinema, para ser um conjunto de detalhes entranháveis no meio da pior das tragédias. “Na guerra tudo é em branco e negro. Somente o sangue é vermelho(…). Estava feliz porque não era capaz de odiar.” Justamente essa feminilidade invade capilarmente o cenário, e transforma os homens. Assim o reconhecem os soldados: “Coincidi com muitas moças combatentes, mas não as víamos como mulheres. Eram nossas amigas, as que nos tiravam dos campos de batalha. Nos salvavam, curavam nossas feridas. A mim me salvaram a vida em duas ocasiões. As chamávamos irmãs”. E elas sabem do seu poder de fogo para transformar os homens, mesmo em circunstancias adversas: “Quando os homens viam uma mulher em primeira linha mudavam por completo. A voz de uma mulher lhes transformava. Uma vez comecei a cantar em voz baixa. Pensava que todos dormiam, mas de manhã o comandante me disse: não estávamos dormindo, tínhamos tanta saudade da uma voz de mulher…! ”. Lembrei de Ortega, no seu inesquecível ensaio sobre o amor, e de como as mulheres mudam o ambiente e os homens, igual que o clima muda e formata o vegetal, com influência atmosférica.

E o amor que se veste de sangue na guerra, mas conserva a tonalidade romântica feminina, por mais cruel que sejam as circunstâncias. Diz uma das muitas viúvas:  “eu já sou velha, mas a ele o vejo jovem. Igual que quando nos despedimos. Se o vejo em sonhos também o vejo jovem.  Às vezes fico na frente da sua fotografia e lhe mostro os seus cinco netos, que ele nunca conheceu (…). Quem tenha estado na guerra, sabe o que significa separar-se, nem que seja um só dia”.

E talvez é esse modo entranhável de ver a vida com perspectiva feminina, o que nos abre o caminho para o perdão. “Na sala do hospital havia dois feridos. Um alemão e um soldado nosso, queimado. Fui cuidar do nosso soldado e me disse: eu estou bem, mas este está sofrendo. -É um nazista, disse eu. Sim, mas eu estou bem e ele sofre. Não eram inimigos: eram pessoas feridas no mesmo cômodo. Surgia uma relação humana entre eles (…). De madrugada se formavam filas de crianças alemãs. Eu não podia olhar com indiferença aquelas crianças famintas. Alimentávamos eles, curávamos-lhes. Um dia reparei que estava acariciando um deles. Eu, logo eu, estava acariciando uma criança alemã. Secou-se minha boca, acostumei-me, e eles também se acostumaram”.

A guerra é sempre uma decisão de cima, que acaba soltando o ódio e as paixões irracionais, como as torcidas uniformizadas que se animalizam. Torna-se necessário resgatar o ser humano que temos todos dentro, capaz de atrocidades, mas também de arrependimento e de perdão. “Os dois estavam queimados, negros. Arrastava a nosso ferido e pensava: volto a buscar o alemão ou não?  Compreendi que se lhe deixava morreria sangrando. Regressei a buscá-lo. Arrastei os dois. Foi em Stalingrado, o combate mais terrível. Minha querida: é impossível ter um coração para o ódio e outro para o amor. O ser humano tem um só coração, e eu sempre pensava em como salvar o meu”.

Um livro impressionante, de alto impacto. Uma experiência que transforma o leitor: muitas das leitoras da nossa tertúlia literária tiveram de interromper por dias ou semanas a leitura do livro para recuperar o fôlego… da alma. E, sem dúvida, transformou a própria escritora como ela confessa abertamente: “Não vejo o final deste caminho. O mal parece infinito. Já não posso percebê-lo apenas como um fato histórico. Quem poderá me responder? Os tempos mudam, mas e os humanos? As repetições fazem me pensar na torpeza da vida. Elas contavam tudo isto como soldados. Também como mulheres”. Um livro necessário que nos faz pensar na irracionalidade da guerra. Quando acabamos não somos mais os mesmos, acontece-nos como no final de um episódio bélico: “Quando acabava o ataque era melhor não se olhar na cara. As caras são distintas, diferentes das habituais. ” Uma leitura imprescindível. Para as mulheres, que terão orgulho de comprovar como a substância da sua alma feminina sobrevive nas circunstancias mais adversas. E para os homens, que ganharemos um respeito maior e profundo por elas.  Um Nobel mais do que merecido!!!!

 

Pablo González Blasco é médico (FMUSP, 1981) e Doutor em Medicina (FMUSP, 2002). Membro Fundador (São Paulo, 1992) e Diretor Científico da SOBRAMFA – Sociedade Brasileira de Medicina de Família, e Membro Internacional da Society of Teachers of Family Medicine (STFM). É autor dos livros “O Médico de Família, hoje” (SOBRAMFA, 1997), “Medicina de Família & Cinema” (Casa do Psicólogo, 2002) “Educação da Afetividade através do Cinema” (IEF-Instituto de Ensino e Fomento/SOBRAMFA, São Paulo, 2006) , ”Humanizando a Medicina: Uma Metodologia com o Cinema” (Sâo Camilo, 2011) e “Lições de Liderança no Cinema” (SOBRAMFA, 2013). Co-autor dos livros “Princípios de Medicina de Família” (SOBRAMFA, São Paulo, 2003) e Cinemeducation: a Comprehensive Guide to using film in medical education. (Radcliffe Publishing, Oxford, UK. 2005).

Publicado originalmente em 07/02/2017 em <http://www.pablogonzalezblasco.com.br/2016/12/18/o-esgrimista-a-paixao-por-ensinar/>

 

Três poemas do livro “O impossível e depois”

Literatura | 09/12/2016 | | IFE BRASIL

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Os dias impossíveis

Os gritos, os golpes,
Os gestos desconexos,
Os pés escalando a sala,
As mãos espalmadas na vidraça.

Os gritos, os golpes,
Os gestos desconexos,
A espera da palavra,
A longa noite, a madrugada.

Os gritos, os golpes,
A noite, a madrugada,
As dores, as feridas,
O corpo, a alma.

Os gritos, a sala
revirada, a noite
a noite, a madrugada
os gestos, a solidão,

os olhos vermelhos,
as lágrimas enxutas
e exaustas. O sol,
a noite, a esperança
perplexa e amedrontada.

Lírica

Sopro os rios que vão
Solitários desaguar
Em alguma praia
De longeveres mar.

Sentada à beira
A criança brinca.
Sorri travessa,
Para ela-outra menina
No espelho refletida.

Não conhece desgosto,
Não viu águas turvas,
Apenas pingos de chuva
Na pureza do seu rosto.

Tudo é frágil, tudo acaba
Nem sempre em bom termo.
Ela dança os pés n’água
Contra a corrente do tempo.

Geração Perdida

O que sabeis do amanhã? O que é a vossa vida? Sois uma névoa que aparece por um instante e logo desaparece.
Deveríeis antes, dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. Ao contrário, agora vos gloriais alardeando. E toda jactância dessa espécie é má.
Quem sabe fazer o bem e não o faz é culpado.

(Carta de São Tiago, cap. 4, 14- 17)

Geração Perdida

os filhos dos marxistas
estamos todos perdidos
os filhos dos militares
estamos todos perdidos
os filhos dos hippies
estamos todos perdidos
os filhos dos niilistas
estamos todos perdidos

inquestionavelmente
inapelavelmente
impreterivelmente

talvez algum sábio
revendo o passado
dirá
pasmado:
O que foi feito
daquela geração fim de século?
filhos de ideologias natimortas
não ousaram
pereceram
nas apáticas águas mornas
do “estamos conosco satisfeitos”

estamos perdidos, perdidos, perdidos!
por isso urramos nas madrugadas
nos embebedamos
concordamos errado os verbos
temos preguiça
pensamos inútil
a busca por algo que esteja certo

dessa indolência
formamos um mundo
um mundo de bolhas egocêntricas
sentados sobre uma falsa inocência
chorando as consequências

do que não fizemos
do que não podíamos
do que não queremos
do que desejaríamos

multidão amedrontada
à força retirada da própria concha
pelas mãos da violência
pagamos preço de sangue
pela nossa indiferença

se a essa geração
pode ser dada qualquer escusa
foi a de que não tivemos culpa
nós não tivemos culpa
somos apenas os filhos
das filosofias de sepultura

se um dia pudéssemos
abrir as nossas portas
saltar os nossos muros
escancarar nossa revolta

seria um gemido
quase inaudível
da dor mais pura

em olhos baços
de funda amargura
suspiraremos

não temos culpa
nenhum culpa
nós
não temos
culpa
alguma
Eduardo Gama é mestre em Literatura pela USP, Jornalista, Publicitário, poeta e membro do IFE – Campinas.