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A treze de Maio

Opinião Pública| Teologia | 13/05/2017 | | IFE CAMPINAS

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O dia 13 de maio se aproxima e em breve também o fim de semana do Dia das Mães, providencialmente unidos neste ano. No dia 13 recordamos o centenário das aparições da Virgem Maria às três crianças portuguesas, Jacinta, Lúcia e Francisco trazendo do céu um insistente pedido de paz, penitência e conversão. Ainda neste ano celebramos também no Brasil o tricentenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a mesma Maria de Nazaré, mãe de Jesus e invocada sob tantos nomes.

A Providência Divina uniu os destinos do Brasil e de Portugal muito antes de nossa colonização, quando na Batalha de Ourique, Dom Afonso Henriques, fundador do reino de português que combatia os invasores muçulmanos da Península Ibérica teve uma visão de Cristo, relatada na crônica denominada “Anais da Santa Cruz de Coimbra”, na qual ouviu a voz do Senhor que lhe prometeu a vitória naquela e em outras batalhas. Ao povo português reservava grandes desígnios e tarefas e por intermédio do rei e dos seus descendentes afirmou que Deus fundaria um império através do qual o Seu Nome seria levado às nações mais estranhas. Entre as nações e povos estranhos confiados a Portugal estamos nós brasileiros que deles recebemos a fé cristã. Com a chegada de Cabral no dia 22 de abril de 1500, houve um esforço apostólico de Portugal de transmitir a fé aos povos aqui encontrados e já no dia 26 rezou-se a primeira missa, tendo no primitivo altar a imagem de Nossa Senhora da Esperança que viajou junto com os portugueses até nossas terras.

Em 1640, Dom João IV consagrou Portugal e seus domínios aos cuidados de Nossa Senhora da Conceição e em 1717, durante a passagem do novo governador de São Paulo e Minas Gerais, o Conde Assumar, pela vila de Guaratinguetá, três pescadores, gente simples e sem instrução miraculosamente apanharam a imagenzinha enegrecida de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal e suas colônias a que deram o título de “Aparecida”.

Em maio de 1917, quando se completavam duzentos anos do evento de Aparecida, Nossa Senhora novamente elege três pessoas simples e de pouca instrução, desta vez crianças portuguesas da cidade de Fátima e pede-lhes que anunciem ao mundo a necessidade de oração, penitência e conversão como meios eficazes para obter de Deus o fim da guerra em curso (1ª Guerra Mundial) e para que se evitasse uma nova guerra e que a Rússia espalhasse seus “erros” (numa referência clara ao comunismo) pelo mundo. Quando a Igreja aprovou o culto a Nossa Senhora de Fátima esculpiram-lhe uma imagem retratando-a tal como as crianças a viram e para tal empreitada utilizaram cedro brasileiro. Quando, no Brasil lançou-se a pedra fundamental da nova Basílica de Aparecida celebrou o Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, que trouxe consigo e depositou junto da pedra fundamental de nosso Santuário Nacional terra retirada do local em que Nossa Senhora apareceu em Fátima. Assim, por desígnio da Providência Divina que tudo dispõe para bem de seus filhos, os destinos do Brasil e de Portugal se uniram uma vez mais sob o olhar materno da Virgem.

Já se vão cem anos dos pedidos de Maria Santíssima e ainda hoje nos deparamos com os problemas para os quais Ela apontou a solução: amar e seguir seu Filho Jesus Cristo. Nada de novo em relação ao que Ela havia dito nas Bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo. 2,5). Se não alcançamos a paz almejada e se nos deparamos com um mundo em constantes conflitos políticos e econômicos à nossa volta é porque não fizemos uso das armas que temos, ou seja, a felicidade está em fazer o que Cristo nos pede e nada mais. Não se trata de uma ordem divina, mas da indicação paternal de como alcançar nosso próprio bem. Essa é a grande mensagem e o grande segredo de Fátima.

L. Raphael Tonon é professor de História, Filosofia e Ensino Religioso nas redes pública e particular, membro da Academia Marial de Aparecida, leigo consagrado da Com. Pantokrator e gestor do Núcleo de Teologia do IFE Campinas (raphaeltonon@ife.org.br).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 13/05/2017, Página A-2, Opinião.

Sínodo das Famílias: o que muda?

Teologia | 14/10/2016 | | IFE CAMPINAS

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Imagem: Carmadélio, em http://blog.comshalom.org

Imagem: Carmadélio, em http://blog.comshalom.org

 

Desde o ano passado [2015], quando foi inaugurado pelo Papa Francisco, o Sínodo das Famílias têm despertado visões e análises muito diversas dentro e fora da Igreja Católica.

Muitos agentes da grande mídia mundial viram no Sínodo “novos ares de mudança”; para os católicos progressistas, intérpretes equivocados do Concílio Vaticano II, trata-se de uma oportunidade ímpar para um novo “aggiornamento” da Igreja que poderá se constituir numa oportunidade de alterar a doutrina bimilenar da Igreja a respeito da família; para os defensores da Tradição, o Sínodo cambaleia numa linha tênue entre a misericórdia pastoral e a heresia. Os moderados vêem uma certa coragem em discutir o tema, mas não creêm em mudanças doutrinárias.

Todas essas discordâncias são fruto de propostas aventadas por alguns cardeais que sugeriram, por exemplo, a liberação da Sagrada Comunhão aos divorciados pensando em reintegrá-los não só à participação plena da Eucaristia, mas também ao Sacramento da Confissão. O uso de contraceptivos e a integração mais efetiva de membros homossexuais às comunidades cristãs e os pretensos “novos modelos de família” também foram assuntos discutidos.

A Igreja e mesmo seu líder visível, o Papa Francisco não possuem, como muitos imaginam, a prerrogativa de anular o que Deus mesmo instituiu e inscreveu na Lei Natural, e, aliás, nem parece ser esse o intuito do pontífice que mais de uma vez, quando questionado sobre a moral católica não se pronunciou recordando que o que ele pensa já está expresso no Catecismo da Igreja Católica. O papa da grande mídia parece mais uma caricatura daquilo que muitos desejam que a Igreja seja do que realmente é. Como tudo, isso tem seu lado positivo: muita gente que não dava atenção a nada do que dizia a Igreja, passa agora a olhá-la de modo mais familiar, mas por outro lado não deixa de surpreender muitos católicos com afirmações constantemente descontextualizadas da fala real do pontífice.

A comunhão aos divorciados, com todo respeito que essas pessoas merecem – já que somente elas e o próprio Deus podem saber dos sofrimentos que tiveram em seus matrimônios – é um exemplo claro de algo que doutrinariamente nunca poderá ser admitido, visto que se constituiria na demolição completa da moral católica,ou seja, uma chancela da Igreja para relações extraconjugais, mesmo ainda mantendo o vínculo válido de um casamento anterior. O afrouxamento neste ponto de doutrina seria a destruição de três sacramentos fundamentais: a Eucaristia, a Confissão e o Matrimônio. Este último seria afetado em seu aspecto indissolúvel, a Eucaristia seria afetada porque se daria a comunhão a pessoas que estão objetivamente em estado de pecado mortal e por fim, afetaria o Sacramento da Penitência porque a pessoa recasada não estaria obrigada a se confessar e nem a se arrepender de um pecado mortal, o que abriria um precedente para os demais pecados mortais, de modo que o arrependimento e a correção dos próprios erros para obter o perdão divino já não poderia ser algo requerido do fiel.

È preciso agir e pensar com misericórdia e é necessário sim que a Igreja acolha esses seus filhos que sofrem com o desmantelamento de seus matrimônios, mas a Igreja, fiel aos ensinamentos de Cristo que nos disse que o “homem não deve separar o que Deus uniu” (Mc. 10,9), não pode, não deve e nunca mudará a doutrina sobre o matrimônio. O mesmo se diga dos “novos modelos de família”, um eufemismo que mascara a Ideologia de Gênero. Só existe um único modelo natural de família: pais, mães e filhos. Quanto a questões de fé, de moral e mesmo de cidadania, embasadas nos pressupostos da Lei Natural, esses são princípios inegociáveis. Não podemos servir a dois senhores. Ou servimos à Cristo (modelo de homem por excelência) ou lutamos contra Ele. Não há meio termo.

Luiz Raphael Tonon é professor de História e Filosofia, gestor do Núcleo de Teologia do IFE Campinas e leigo consagrado da comunidade Católica Pantokrator (raphaeltonon@ife.org.br).

Artigo publicado originalmente no jornal Correio Popular, Página A-2, Opinião, edição 20 de Outubro de 2015.

Os Caminhos para a Revelação (por José Freire Nunes)

Teologia | 24/06/2016 | | IFE SÃO PAULO

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"Adoração dos pastores", de Gerard van Honthorst (1622).

“Adoração dos pastores”, de Gerard van Honthorst (1622).

 

Este artigo é uma singela síntese do curso ministrado pelo professor Thomas D’Andrea – membro do Departamento de Filosofia na Universidade de Cambridge – em São Paulo entre os dias 9 de 16 de Janeiro de 2016. Longe de sequer chegar perto do brilhantismo dos valores e idéias apresentados naquela semana de estudo e comunhão, o artigo visa oferecer ao leitor uma amostra ainda que modesta das horas desfrutadas em companhia de expoentes do pensamento ocidental, como Platão e Santo Tomás de Aquino, além da alegria de ter conhecido entre os participantes pessoas que nutrem profundo zelo e estima pela busca da Verdade.

Numa conferência em 1967[1], Leo Strauss começou sua exposição com as seguintes palavras:

Todas as esperanças que mantemos em meios às confusões e perigos do presente são fundadas positiva e negativamente, direta ou indiretamente nas experiências do passado. Essas experiências, as mais amplas e profundas que preocupam nós homens do Ocidente, são indicadas pelos nomes de duas cidades, Jerusalém e Atenas. O homem Ocidental tornou-se o que ele é e é o que ele é pelo advento simultâneo da fé bíblica e do pensamento grego. Para compreendermos a nós mesmos e para iluminar o nosso caminho sem pistas para o futuro, nós precisamos entender Jerusalém e Atenas.

Este artigo conta a história do casamento dessas duas cidades e do filho gerado por elas.

Segundo Jacques Maritain, os gregos foram o “povo escolhido” da razão, os primeiros a propor uma explicação abrangente da ordem cosmológica em que estavam inseridos. Além da mitologia grega – que por sua vez representava alegoricamente eventos centrais como a criação, o decaimento da natureza humana e a morte – em Atenas desenvolveu-se a filosofia: amor ao conhecimento.

O conhecimento, para os primeiros filósofos, era visto como uma força libertadora capaz de fazer com que o homem alcançasse seu propósito: viver uma boa vida; sendo uma boa vida aquela centrada na contemplação. Para Aristóteles, essa questão era de suma importância.

Em seu texto “Protrepticus”, dirigido ao Rei de Ciprus em 350 A.C[2], Aristóteles busca persuadir o governante a reconhecer que uma boa vida só pode ser alcançada por meio da contemplação e que aquela é consequência da busca pelo conhecimento amparada na razão.

Segundo Aristóteles, as coisas existem por desígnio do pensamento, da natureza ou por mero acaso. Aquelas produto do acaso, muito embora sejam boas incidentalmente, são necessariamente de ordem inferior, porquanto não tem propósito nem fim previamente determinados. De outra forma, tudo aquilo que é produto do pensamento traz consigo um propósito e um fim (afinal, todo artesão realiza seu trabalho por um motivo almejando um resultado).

Aquelas coisas oriundas do pensamento são boas e belas à medida que seu propósito e fim estejam bem orientados: a arte da medicina é a arte de curar doenças, não de adoentar pacientes; a arte da arquitetura consiste em construir moradias, não as dilapidar. Com isso, todas as coisas, desde que propriamente orientadas, trazem consigo um bom fim e propósito.

Isso dito, dado que tudo tem um fim e propósito, quais seriam então o propósito e o fim do homem?

Segundo Pitágoras o homem existiria “para contemplar os céus[3]”; para Anaxágoras: “para contemplar tudo aquilo que se relaciona aos céus e às estrelas e à lua e ao sol nos céus, todo o restante não tendo importância[4]”. Com isso, o homem seria orientado à contemplação daquilo que o transcende.

Foi em Atenas que essa atitude filosófica floresceu. Dela salta aos olhos seu caráter especulativo e ascendente: por meio da indagação, os filósofos se engajam em especulações acerca da existência e, pelo esforço do intelecto guiado pela razão, conseguem ascender a um patamar mais elevado de entendimento como se num salto. Essa é a atitude que marca Atenas.

Muito foi dito sobre Atenas, mas resta perguntar: estaria essa atitude de acordo com aquela de Jerusalém?

Em sua Carta aos Hebreus[5], São Paulo salienta o principal aspecto da mentalidade de Jerusalém: a obediência a Deus.

Pela fé Abraão obedeceu quando Deus o chamou, e partiu para uma terra que lhe prometia dar, como uma herança. E foi, sem mesmo saber para onde ia. Sempre em resultado da sua fé, ele aceitou habitar nessa outra terra como um estrangeiro, vivendo em tendas, tal como Isaac e Jacob, aos quais Deus fez também a mesma promessa.  É que Abraão esperava aquela cidade solidamente estabelecida, cujo arquiteto e construtor é Deus mesmo.

Para os judeus, essa atitude dos gregos seria uma maneira dissonante de relacionar-se com Aquele que transcende o tempo e espaço. Ao passo que os gregos tinham sua filosofia, os judeus tinham sua Revelação.

Por que Revelação? Precisamente por ser inacessível ao homem especulativamente. A escolha do povo de Israel, o envio dos profetas e a Aliança foram atos unilaterais de vontade de Deus para instruir seu povo, visto que o conteúdo dessa instrução era inacessível pela mera via ascendente da razão. E a Lei, uma vez que vem de Deus, deve ser aceita sem titubear, como a instrução de um pai a seu filho ou o comando de um pastor ao seu rebanho. Ou seja, trata-se de uma relação assimétrica pela qual Deus comunica seu designo ao homem, restando a este exercitar o que o Cardeal John Henry Newman chamou de “gramática do assentimento”.

Toda a história dos judeus narrada no Antigo Testamento, desde a Aliança com Abraão, passando pela escravidão no Egito, o Êxodo e a chegada à Terra Prometida são capítulos marcados pela necessidade de se obedecer resolutamente aos comandos de Yahweh.

Percebe-se então que Atenas e Jerusalém são cidades que aparentemente se desenvolveram de maneiras antitéticas quanto à maneira pela qual o homem se relaciona com a vida e o conhecimento. Resta, portanto, a seguinte indagação: como esses relatos aparentemente conflitantes moldaram o desenvolvimento do Ocidente? Como os filósofos e teólogos medievais lidaram com a tensão latente entre filosofia e Revelação, razão e fé, Atenas e Jerusalém?

Uma das maneiras de lidar com essa tensão foi desenvolvida por um filósofo árabe cuja forma latina do nome é Averroes, o qual deu ensejo à escola de pensamento conhecida como Averroísmo.

Averroes, nascido na Espanha no século XII, desenvolveu seu método como reação ao teologismo de alguns de seus compatriotas árabes. Para ele, a Verdade não seria encontrada em nenhuma forma de revelação, mas nos trabalhos de Aristóteles. Ele dizia que um estudo teológico bem orientado não somente sugere, mas insta a todo aquele que deseja conhecer a Deus o uso da razão para contemplar a obra Deste. Sendo assim, uma boa metafísica deve ser embasada em fundamentos lógicos sólidos, sendo necessário então o estudo da Lógica para entender o designo Deus.

Isso dito, uma questão surge: se a revelação impele o homem a buscar Deus racionalmente, porque Deus revelaria algo? A própria razão como entendida pelos gregos não seria suficiente? Para encarar esse problema, Averroes debruçou-se sobre os trabalhos de Aristóteles.

Segundo Aristóteles, existem três classes de homens e cada uma delas pode ser persuadida por um dos seguintes tipos de argumentos: (a) aqueles retoricamente atrativos; (b) aqueles que deixam probabilidades dialéticas abertas; e (c) aqueles cujas conclusões derivam necessariamente de premissas claras.

O homem comum seria persuadido pelo primeiro tipo de argumento, usualmente associado a uma figura carismática que por meio de artifícios retóricos é capaz de encantar seu interlocutor com um bom relato e deflagrar os sentimentos certos em seus espectadores.  Segundo Averroes, a maioria das pessoas faria parte dessa primeira classe de homens. Com um homem prático, ele entendia isso e não via problemas, afinal: “Você não civilizará uma tribo de Beduínos por meio de metafísica[6]”.

Não da mesma forma com a segunda classe de homens. Apesar de também serem instigados a crer por um bom pregador, eles querem ao menos alguma evidência de que sua fé seja razoável. Felizmente, nada é mais simples do que achar evidências para reforçar crenças já existentes. Quanto à teologia, ela se restringiria a mostrar a razoabilidade da fé e o fato de que ela em nada contraria a razão, restando aos teólogos um papel secundário.

Todavia, o cenário é bem diferente para os homens da terceira classe. Para eles – os filósofos – todas as conclusões derivaram necessariamente de premissas claramente articuladas, não havendo espaço para nenhum tipo de revelação divina, dado que a razão seria suficiente para se adquirir conhecimento, dispensando-se a necessidade de recorrer a artifícios retóricos ou meras probabilidades dialéticas.

Em síntese: revelação seria filosofia simplificada aos néscios.

Apesar de sua tenaz defesa da metafísica, Averroes ficava embasbacado com a força civilizatória da Revelação ao elevar povos imersos no mais baixo grau de barbarismo aos mais elevados patamares de civilização. Isso nunca nenhum filósofo conseguiu alcançar, ficando seu ensinamento sempre restrito a um pequeno círculo de discípulos.

Ora, essa postura aparentemente conciliatória desagrada tanto o teólogo como o filósofo. Enquanto aquele não se conforma com a afirmação que sua fé é uma mera simplificação da filosofia para pessoas intelectualmente limitadas, este fica incomodado com fato de que a teologia também contenha aspectos da verdade mais acessíveis. Ou seja, Averroes conseguiu a proeza de desagradar gregos e troianos com sua abordagem conciliatória. Alguns séculos depois, David Hume se encontrou na mesma posição: “(…) pobre Hume, que do seu lado do mar é considerado de tão pouca religião, é aqui considerado como tendo muita[7]”. Visto o fracasso de Averroes, restou a Santo Tomás de Aquino no século XIII conciliar Atenas e Jerusalém.

Segundo Santo Tomás, razão e fé são ferramentas epistemológicas aplicadas a dois grupos diferentes de fenômenos. Enquanto ter fé é crer em algo porque foi relevado por Deus, ter ciência é assentir a algo percebido à luz da razão. Em outros termos, existe uma diferença entre saber que algo é verdadeiro e crer que algo é verdadeiro, e essa distinção delimita o campo de atuação da filosofia e da teologia. Se alguém sabe que algo é verdadeiro, o objeto da ciência não é passível de crença, dado que se se sabe é impossível crer. Igualmente, ninguém pode ter ciência de um objeto de crença, porque, se assim o fosse, o objeto seria de ciência, não de crença. Com isso, o ponto crucial é descobrir quais são as características do objeto estudado.

Dizer que os fundamentos da teologia – os chamados “artigos de fé” – são demonstráveis faria com que eles não fossem mais objeto dessa disciplina, ficando o homem somente com a teologia natural: metafísica. Cabe ressaltar que os artigos de fé não são meras probabilidades, mas sim a certeza de que Deus os comunicou por meio da Revelação. Todavia, quais sãos os fundamentos que levam a crer que Deus realmente falou? Os milagres, os profetas por Ele enviados, as profecias que se cumpriram e o nascimento de sua Igreja.

Santo Tomás continua e afirma que, além de artigos de fé, como a Trindade e a Encarnação, a Revelação também traz consigo elementos que podem ser percebidos racionalmente, tais como a existência de Deus e a imortalidade da alma.

Contudo, se a Revelação foi obra de Deus pelo fato dos artigos de fé serem inalcançáveis pela razão, por que ela também conteria doutrinas racionalmente acessíveis? “Porque embora existam poucos metafísicos, todos devem ser salvos[8]”. Mesmo a afirmação de que a existência de Deus e a imortalidade da alma podem ser percebidas pela razão foi recepcionada com profundo ceticismo, como por Guilherme de Ockham, quando não com a mais profunda revolta, como no caso de Voltaire. Dessa forma, com o intuito de atingir um maior número de pessoas e pacificar ocasionais querelas filosóficas, Deus teria incluído esses aspectos à Revelação.

Sendo assim, Santo Tomás logrou conciliar Jerusalém e Atenas, fé e razão e teologia e filosofia. Contudo, embora sua síntese contenha elementos de ambas as cidades, ela não pode ser vista meramente como realocação de algumas peças para formar uma nova escultura; como afirma Pierre Manent: “Nem profeta ou filósofo sozinho é capaz de manter o Ocidente[9]”. Diante disso, Santo Tomás personificou a atitude do filho de Atenas e Jerusalém: Roma, cidade de onde a Boa-Nova espalhou-se pelo mundo.

Não é exagero afirmar que o evento mais surpreendente da História foi o nascimento de uma criança filho de uma moça judia e de um rapaz descendente de Davi. Esse evento mudaria os rumos, não somente de Roma, mas do mundo. No Evangelho Segundo Lucas[10], a passagem que narra esse nascimento é magistral pela sua sutileza e seu caráter sintético:

Naqueles dias César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano. Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria. E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se. Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galileia para a Judeia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi. Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho.

Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

São Lucas, após rapidamente apresentar o panorama do que se passava, chamou atenção ao fato singular merecedor de toda atenção: o nascimento de Jesus Cristo.

Aos olhos de Roma, o ensinamento de Jesus, a formação em seu redor de um círculo de apóstolos, seus ensinamentos e morte pouco representaram além de um foco de resistência local que logo feneceria com a morte do pastor do rebanho. Apesar disso, de ovelhas sem pastor, os cristãos surpreendentemente cresceram em número e passaram a ser ferozmente perseguidos. De maneira ainda mais surpreendente, depois de anos submetidos à perseguição, em 380 D.C o imperador Teodósio I editou o Édito da Tessalônica estabelecendo o cristianismo como a religião oficial do Império Romano. Nesse sentido, são quase proféticas as palavras proferidas por Gamaliel nos Atos dos Apóstolos[11]:

Mas, levantando-se no conselho um certo fariseu, chamado Gamaliel, doutor da lei, venerado por todo o povo, mandou que por um pouco levassem para fora os apóstolos;

E disse-lhes: Homens israelitas, acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes homens, Porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada.

Depois deste levantou-se Judas, o galileu, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; mas também este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos.

E agora vos digo: Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará,
Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus.

Olhando-se para trás, percebe-se que a obra não foi desfeita. Ao invés do abatimento, a fé cristã se fortaleceu. Não somente Antioquia, Jerusalém e Alexandria foram testemunhas da pregação apostólica, mas logo mais Roma, Londres e Paris também o seriam. Posteriormente, não somente a Europa, a Ásia e a África estariam influenciadas pela fé cristã, mas todo o mundo desde a América até a Oceania. A Igreja, que se estabeleceu em Roma no bojo do ensinamento apostólico, foi o epicentro de onde a Boa Nova da Ressurreição de Jesus espalhou-se. Nesse contexto, a Igreja, inspirada nas cartas de São Paulo, cresceu como o Corpo Místico de Cristo, do qual participam todos os fiéis espalhados pelo mundo unidos pela mesma cidade: Roma.

Roma, então, é o filho de Atenas e Jerusalém, a cidade mediadora da tensão entre fé e razão. De Atenas, ela herdou a razão de Platão e Aristóteles. De Jerusalém, a fé dos profetas e as promessas da vinda do Messias. Por sua vez, Roma absorveu as lições dessas cidades para contar uma história: a história da encarnação de Deus. Nessa história, os judeus constituem o povo escolhido por Yahweh para o qual foi prometido um Messias. Por sua vez, os gregos foram o povo que entenderam os aspectos racionalmente acessíveis da Revelação, preparando a mentalidade dos pagãos para recebê-la.

Jerusalém e Atenas trilharam caminhos diferentes que se comunicam, aplainando montanhas e desbravando o território para chegarem a Roma. Foram esses os caminhos que levaram ao desenvolvimento do Ocidente. Desses caminhos, outros surgiram, alguns se distanciando mais e outros menos. No entanto, algo inegável e observado por Scott Hahn é que, no final, todos os caminhos levam a Roma[12].

José Freire Nunes é estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco

Artigo enviado a nós pelo IFE São Paulo.

NOTAS:

[1] Conferência de 1967, publicada em inglês (Strauss, 1997, pp. 377-405). Tradução: Teresinha Costa e Marília Mazzucchelli. Revisão: Mario Miranda Filho. Tradução concedida de Jewish philosophy and the crisis of modernity: essays and lectures in modern jewish thought (ed. K. H. Green). Nova Iorque: State University of New York Press, 1997.

[2] ARISTOTLE, Protrepticus. Notre Dame. University of Notre Dame Press. Translated by Anton-Hermann Chroust. 1964.

[3] Ibid.p.8

[4] Ibid.p.8

[5] Hebreus 11:8-10

[6] GILSON, Etienne. Reason and Revelation in the Middle Ages. In: The Richards Lectures in the University of Virginia, 1939, Virginia, New York: Charles Scribner’s Sons, 1939. p.43.

[7] CAMPBELL, Mossner. The Life of Hume, Londres, 1954, p.485, citando uma carta de James MacDonald de 6 de junho de 1764.

[8] GILSON, Etienne. Reason and Revelation in the Middle Ages. In: The Richards Lectures in the University of Virginia, New York: Charles Scribner’s Sons, 1939. p.82.

[9] MANENT, Pierre. Between Athens and Jerusalem. 2012: http://www.firstthings.com/article/2012/02/between-athens-and-jerusalem

[10] Lc 2:1-7

[11] At 5:34-39

[12] Referência ao livro “Todos os Caminhos Levam a Roma”, escrito pelo casal Scott e Kimberly Hahn no qual eles narram suas respectivas jornadas espirituais e como isso os levou a converterem-se ao catolicismo.

A Virgem e o comunismo

Teologia | 29/09/2015 | | IFE CAMPINAS

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Reprodução

Ilustração: reprodução

 

Há quase cem anos a notícia de que três crianças portuguesas, de sete, nove e dez anos de idade respectivamente estavam vendo e conversando com a Virgem Maria agitou a imprensa internacional e estarreceu a própria Igreja.

Eram três pequenos pastores de ovelhas, muito pobres, analfabetos e que não sabiam nada de política e quase nada de teologia. Já na primeira aparição, Nossa Senhora pediria à Lúcia, a mais velha dos três e que era a única que falava com a Virgem, visto que Francisco só a via, mas não a ouvia e Jacinta a via e ouvia, mas não falava com Ela, que aprendesse a ler e escrever. Lúcia seria a transmissora dessas desconcertantes mensagens.

A Mãe de Jesus avisava que seu Filho estava muito ofendido com os pecados da humanidade e que seu braço pesava sobre os muitos erros que se cometiam indistintamente em todo canto. A aparição ocorreu pouco tempo antes do fim da Primeira Guerra Mundial e Nossa Senhora fazia um apelo à conversão, pedia a reza do terço diariamente, a frequência aos sacramentos e que as pessoas mudassem de vida senão no reinado de Pio XI viria outra guerra ainda pior e a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. A tudo isso, Nossa Senhora ainda acrescentou o pedido de que o mundo fosse consagrado ao seu Imaculado Coração, com uma menção especial à Rússia.

Os “erros da Rússia”, mencionados pela Virgem Maria são uma referência clara e ao mesmo tempo uma condenação veemente da ideologia socialista como pretensa solução para os problemas políticos, econômicos e culturais da humanidade. A aparição se deu em Fátima, Portugal, no ano de 1917 e coincide exatamente com a Revolução Socialista, também chamada de “bolchevique”, ocorrida na Rússia no mesmo ano.

Os apelos de Nossa Senhora não foram atendidos a tempo e, realmente, após o advento da Segunda Guerra Mundial, a URSS desponta como uma potência socialista e os “erros da Rússia” se espalham pelo mundo ainda mais. A Guerra Fria foi o tempo propício da propagação dessas nefastas doutrinas por todo o mundo. No Brasil, a índole cristã de nossa nação não aderiu conscientemente a essas ideologias, porém, durante a Ditadura Militar, usando a tese da “válvula de escape”, a fim de acalmar militantes socialistas, nossas universidades foram entregues aos seus cuidados e aqueles que antes lutavam na guerrilha, passaram a destruir a cultura como cupim, ou seja, destruíam por dentro os fundamentos da cultura brasileira, enquanto a casca, a exterioridade parecia se manter. Os “erros da Rússia” chegaram até nós e hoje se expressam no projeto de poder do partido dominante, se expressam no financiamento da ideia de criar uma “pátria grande” que unifique a América Latina e a transforme num conjunto de republiquetas comunistas; na ideia de Reforma Política que criaria os “sovietes” brasileiros e beneficiariam apenas o partido que já está no poder e que também se expressam em interpretações teológicas marxistas que tentam conciliar o inconciliável: o materialismo dialético e a realidade transcendental da fé, corroendo as consciências de muita gente dentro da própria Igreja.

Os “erros da Rússia” estão diante de nossos olhos e já fazem parte de nosso cotidiano. Combatamos valentemente esses erros através de uma consciência clara da realidade de uma recusa sistemática a tais propostas e de uma ação que impeça o seu avanço. Paulo VI já dizia que “em Maria, tudo se refere a Cristo e Dele depende”, ou seja, Ela sempre nos direciona e orienta para seu Filho; corramos portanto na direção que Ela nos indica e confiemos em sua maternal promessa feita em Fátima: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!” Deste triunfo depende, inclusive a estabilidade da ordem social e isto não é mero piedosismo pueril, mas uma realidade que transcende nossa lógica simplória.

■■ Luiz Raphael Tonon é professor de História e Filosofia, Gestor do Núcleo de Teologia do IFE Campinas e leigo consagrado da comunidade Católica Pantokrator.

Artigo publicado no jornal Correio Popular, em 28 de Setembro de 2015, Página A2 – Opinião.

Imagem: Ilustração que acompanha o artigo na versão impressa, Página A2.

Sábio, porém, covarde!

Teologia | 17/03/2015 | | IFE CAMPINAS

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Eccehomo1 - Antonio Ciseri (DP)

Pôncio Pilatos, govenador romano da Judeia no tempo de Jesus, entrou no Credo católico sem sequer ser cristão, o que se deveu certamente ao papel que desempenhou na condenação de Cristo e às proféticas palavras que saíram de sua boca, mesmo sem que ele se desse conta disso.

Quando levaram-lhe Jesus, Pilatos pergunta-lhe se é rei dos judeus e como resposta veio um simples “tu o dizes”. O governador julgou-o inocente, se impressionou e conforme a narrativa do Evangelho “procurava meios para soltá-lo”(Lc 23,14-17). Intrigado com seu prisioneiro questiona: “O que é a verdade?” (Jo 18, 37-38). Jesus, nada responde. Os Padres da Igreja, já nos primeiros séculos do cristianismo interpretaram essa pergunta afirmando que Pilatos queria saber “o quê”, mas Jesus revelou-lhe “Quem é a Verdade”. Nesse diálogo se estabelece a grande diferença entre a cosmovisão pagã e a cristã. A resposta não foi verbalizada, já que a própria Verdade estava diante dos olhos do governador.

Bento XVI, na encíclica Deus Charitas Est afirmava que o cristianismo não nasce de uma grande ideia ou de um complexo sistema filosófico, mas sim de uma pessoa concreta: Jesus Cristo. O cristianismo é uma fé encarnada, transcendente, mas também imanente, tal como o ser humano que tem dentro de si o desejo pelo transcendente, mas que vive às voltas com toda sua realidade imanente, não em estado de oposição entre uma realidade e outra, mas em estado de comunhão.

Jesus notou a angústia do governador frente às autoridades judaicas que exigiam sua condenação. O pedido era legal, mas não era justo e Pilatos o percebeu. Foi sábio, porém, covarde. Percebeu a injustiça, compreendeu a manipulação, identificou quem era inocente, mas foi covarde, lavou suas mãos e passou a questão a outros. O seu dilema interior foi grande, encontrou-se com a Verdade, mas não foi capaz de defendê-la. Jesus demonstrou que para calar-se diante de acusações claramente falsas, sem abrir a boca para defender-se é um ato que exige mais coragem do que prender, julgar e condenar alguém.

Se defendermos a verdade, como dizia Santo Tomás de Aquino, estamos fadados a ter poucos amigos. Testemunhar a verdade é mais do que constatá-la ou reconhecer onde ela se encontra, antes, implica em admiti-la sem reservas e estar pronto a morrer por ela. Em tempos tão marcados pela pusilanimidade, a atitude de Pilatos se reproduz em larga escala, perpetuando a covardia em conhecer e defender a verdade.

Leão XIII, no fim do século XIX afirmou que “a audácia dos maus cresce na mesma proporção em que a omissão dos bons”. Muitos reconhecem a verdade, mas são covardes para defendê-la e cada vez mais os elementos de nossa própria sociedade vão se liquefazendo aos olhos daqueles que têm possibilidades efetivas de mudar a situação, mas nada fazem, porque se conformam e se submetem ao mutismo imposto pelo que é mau.

Não se trata de analisar a sociedade de modo fatalista, mas de constatar que para alcançar a Verdade é necessário um honesto trabalho intelectual que exige, em primeiro lugar, uma firme disposição de alcançá-la e busca dos meios necessários para atingir esse fim.

Portanto, seja pela via da razão ou pela via da Revelação, podemos entender que de tão simples que era, o mistério de Deus acabou sendo desprezado. Nós pobres seres humanos temos dessas coisas… Imaginamos que o que vem de Deus deve ser na medida de nossa fantasia tacanha. Ordinariamente Deus não age assim, costuma escolher o que é mais vil e desprezível para confundir nossa pretensa sabedoria. Deus age no cotidiano da história humana, e é sempre um mistério. O mistério, diferente do que pensamos, não é algo sobre o que não podemos saber nada, mas é algo sobre o quê não podemos saber tudo. Não podemos abarcar Deus em nossa racionalidade, mas podemos alcançá-lo seguramente, pois de tanto nos amar Ele quis se parecer conosco e para isso vestiu-se de carne.

Luiz Raphael Tonon, professor de História e Filosofia, gestor do Núcleo de Teologia do IFE Campinas.

Artigo originalmente publicado no jornal Correio Popular, de 24/04/2014, Página A2 – Opinião.

Imagem: Ecce homo! [Eis o homem!], de Antonio Ciseri, 1871. Imagem em Domínio Público disponível neste link.