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A diferença de um sorriso no rosto

Opinião Pública | 10/07/2019 | | IFE CAMPINAS

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Não faz muito tempo. Foi num dia desses, numa cidade mais ao interior do Estado. Ocorreu que fui atendido mais uma vez por uma mulher num laboratório de análises clínicas. Mas desta vez fui fazer alguns exames. Anteriormente fizera apenas uma cotação de preço. Na saída, após a realização das coletas, quem me atendeu foi essa mesma pessoa. Mulher muito simpática e de sorriso no rosto. Além disso, muito prestativa e atenciosa para comigo, um entre tantos que passam por lá diariamente.

Uma das perguntas que lhe fiz inquiriu se havia maior desconto caso eu pagasse os exames à vista. Ela já me dera um generoso desconto quando da cotação, porém, como eu não sabia se aquele valor era a prazo ou à vista, resolvi perguntar. Ela respondeu-me prontamente com bom humor e sem nenhum sinal de impaciência.

Momentos depois percebi que não havia higienizado as mãos. O laboratório é um ambiente de certo modo hospitalar, ou médico, de modo que eu precisava higienizar as mãos depois da coleta de sangue. Por algum motivo do qual não me lembro ao certo, não quis usar a pia. Enquanto isso, a mulher atendia um senhor. No entanto, eu precisava ir embora e não encontrava álcool gel, o qual cumpriria a função desejada. Aproximei-me do balcão e ela logo me perguntou do que eu precisava. Respondi e prontamente ela trouxe-me nas mãos o higienizador, enquanto, ao mesmo tempo, atendia o senhor.

Fiquei admirado. Do começo ao fim atendia bem e resolvia os problemas de modo eficaz e simpático. Todavia, em outros locais, a pessoa por vezes não demonstra vontade, parece ter preguiça, ou fica até impaciente diante de um pedido de informação. Mas este não foi o caso, fui bem atendido.

Uma hipótese que se poderia levantar – e levanto-a porque alguns podem se questionar nesse sentido – é o fato de um rapaz com boa apresentação estar por ali e a moça ou mulher demonstrar um pouco mais do que simples simpatia. Mas esta hipótese não procede. A pessoa que ela atendia nesse entretempo era um senhor, como mencionei. Contudo, atendia-o com simpatia e sorriso no rosto.

Pelo que me lembro, além do referido senhor, pude vê-la atendendo outros clientes enquanto ali estava. Atendia-os também com simpatia e sorriso. Portanto, não parecia ser um comportamento direcionado e particularizado, mas comum aos diversos clientes.

Seja como for, o que fica é que faz diferença ter um sorriso no rosto, ser atencioso, prestativo, entre outras coisas boas. Pelos atendimentos que me prestou, aquela mulher ganhou um cliente. Além de ser o melhor local conheço no segmento – pelo menos, até onde sei – houve tudo isso que lhes contei. Quem dera fôssemos bons como ela a respeito dessas qualidades.

João Toniolo é mestre e doutorando em Filosofia e membro do IFE Campinas. E-mail: joaotoniolo@ife.org.br.

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição de 10 de Julho de 2019, página A2 – Opinião.

Novelas e comportamento

Opinião Pública | 24/04/2019 | | IFE CAMPINAS

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Há vários anos, discutia com um amigo a respeito da influência negativa que as novelas teriam sobre o comportamento. Segundo ele, tudo dependeria do receptor e não do transmissor. Qualquer que fosse o conteúdo, este só teria influência caso o receptor o permitisse. À época, meu amigo era jovem e hoje talvez tenha mudado de opinião.

O fato, porém, é que muitos acreditam nesta tese: a de que o conteúdo recebido pela televisão (ou por outros meios, como o cinema, a música, os videogames etc.) não teria influência sobre o comportamento humano, mas, antes, que o conteúdo recebido teria influência na medida em que o sujeito o permitisse. Em parte isso é verdade – e só parcialmente.

Pela nossa própria constituição cognitiva, assim como pela formação que recebemos, é inevitável não haver algum filtro acerca daquilo que recebemos através do que vimos e ouvimos. Muitas vezes, esse filtro pode ser percebido quando vemos ou ouvimos alguma ideia com a qual não concordamos; outras tantas vezes, quando alguma coisa mexe com nosso senso moral, isto é, quando percebemos que aquilo que estamos vendo ou ouvindo tem algo de errado. Portanto, de fato podemos exercer algum controle sobre aquilo que recebemos pela TV ou por intermédio de outros meios.

Voltando agora a nosso ponto, um caso concreto para ilustrar como telenovelas influenciam o comportamento são as novelas da Rede Globo. Estão nas telas de milhares de pessoas ao longo do País e milhares têm o hábito de acompanhá-las.

Essas, por sua vez, por mostrarem coisas que acontecem de algum modo na vida humana, tornam-se exemplos de condutas e idéias para o espectador, fornecendo como que um padrão de como as coisas seriam ou deveriam ser. No entanto, o que transmitem muitas vezes não é propriamente o padrão do cotidiano da vida humana.

Então temos aqui dois problemas. O primeiro é ver se elas influenciam o comportamento. O segundo são os males que elas podem causar por transmitirem, ao menos de certa forma, algo como normal quando assim não é.

Com relação ao primeiro, pode-se citar uma entrevista que o economista Alberto Chong deu à revista “Época” em 2009, falando de duas pesquisas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e coordenadas por ele. O título da entrevista é “Alberto Chong – As telenovelas moldaram o Brasil”. Resumidamente, antes das telenovelas, em particular da Rede Globo, as famílias eram maiores e o divórcio não era legalmente aprovado no Brasil. Com as telenovelas, onde o sinal da Globo chegou houve uma redução significativa na fertilidade, assim como um aumento do divórcio.

Tanto o modelo de família com poucos filhos, assim como o divórcio, eram elementos trazidos pelas novelas. Com isso, pôde-se notar que elas foram moldando as famílias ao longo das décadas que precederam a pesquisa, em pelo menos dois aspectos: menos filhos e mais divórcios, que foram os itens das duas referidas pesquisas. Por outro lado, além desses dois itens, sabemos por experiência própria que vários dos temas trazidos pelas novelas acabam se transformando em realidades individuais e sociais, notadamente os polêmicos. Novelas, portanto, influenciam o comportamento.

E daqui vamos ao nosso último problema, que se refere aos males que essas novelas podem trazer. Uma vez que possuem influência, com o poder de moldar a sociedade com temas polêmicos que ferem a moral do povo, pode-se observar que muitas novelas parecem ser fonte de distorção da nossa realidade concreta e de valores que fomentam desagregação individual e social. Repare o leitor que nelas sempre há intrigas e tensões, quase que ao longo de todo um capítulo; o mesmo se pode dizer das mentiras, falsidades, ironias e arrogâncias afetadas; além disso, traições e assassínios; entre outros – tudo isso como se fosse moeda corrente na vida das pessoas e na intensidade com que tais coisas são apresentadas.

Agora me pergunto: quantas pessoas e famílias foram negativamente mudadas e sofreram em virtude de uma suposta sabedoria de “engenheiros sociais” das telenovelas? E os indivíduos e as famílias: vão deixar se moldar por aqueles que quase não conhecem e que querem fazê-los mudar para algo que talvez nem saibam o que é? Não seria melhor usar a liberdade e escolher o que se conhece e que é bom?

João Toniolo é mestre e doutorando em Filosofia e membro do IFE Campinas. E-mail: joaotoniolo@ife.org.br.

Artigo originalmente publicado no jornal Correio Popular, Edição de 24 de Abril de 2019, Página A2 – Opinião

Filhos de escanteio

Opinião Pública | 03/04/2019 | | IFE CAMPINAS

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Estava olhando lâmpadas para a casa num determinado supermercado da cidade. Às minhas costas havia um senhor reclamando. Parecia falar sozinho. Bom – pensei eu – talvez seja um maluco mesmo. Passaram-se alguns segundos e olhei ao lado. Vi um jovem que parecia estar com ele. Era seu filho, um jovem adolescente. Dali a pouco ouço o senhor comentando para o garoto algo como: “Você veio pedindo dica para passar de ano, eu lhe dei e você deixou a por** do ano passar. Você é um filho da p*** mesmo” e, reclamando, disse algumas coisas mais.

Meio maluco esse senhor com certeza é. Talvez seja alcoólatra. E antes que associem alcoolismo com renda, eu estava num supermercado frequentado notavelmente pelas classes A e B. E esse senhor não aparentava ser pobre. Mas, enfim, permanece o fato objetivo: a relação desse pai para com seu filho.

Logo pensei no que este jovem iria se tornar recebendo uma educação assim. Desde o início reparei que o garoto tinha um perfil meio deprimido, ou de baixa auto-estima. Momentos depois, já em outra seção do supermercado, pude cruzar com ambos novamente e confirmei tal perfil: cabisbaixo, pouco ânimo e retraído. Evidentemente, não dá para saber o que se passa naquela família e não se pode julgá-los. Pode ser também que estavam num dia mal, mas acho difícil. Dada a “naturalidade” com que o senhor tratava o garoto daquele modo, isso dava a entender que aquele tipo de situação não era algo muito raro em suas vidas.

O ponto, porém, é que essa situação que acabo de descrever fez-me pensar em como diversos pais têm tratado e educado seus filhos nos dias de hoje. Um modo é justamente o que aparentemente vi nesse senhor. É como se o “velho” tivesse a obrigação de dar o sustento e a vestimenta que isso só já estaria OK. Quantos pais não são assim com seus filhos hoje?! Tratam seus filhos e filhas à semelhança de um animalzinho: o importante é dar de comer, beber e vestir. Claro que, além disso, os colocam na escola e lhes propiciam de algum modo o lazer.

No entanto, olhando de certo ponto de vista, parece que estão a educar um animal de zoológico: o importante é dar aos filhos elementos para a sua “sobrevivência”: comida, bebida, escola e divertimento, mesmo porque, assim, a “fera” ficaria – repito, ficaria – “domada”. Dando isso aos filhos, os pais poderiam ficar em “paz”.

Não é preciso haver estupidez para que o tipo de educação que acabo de rascunhar se realize. Muitas vezes certos pais não são estúpidos, mas mesmo assim tratam seus filhos quase como se fossem animaizinhos. Assim, pais preocupam-se e se ocupam sobremodo consigo mesmos, só pensando em si mesmos, de tal modo que aos filhos restam elementos para a sua “sobrevivência”. Dão o necessário e estão até fisicamente presentes, mas espiritualmente ausentes para os filhos, por assim dizer. Estes, por sua vez, são deixados aos mais variados tipos de entretenimento: videogames, séries televisivas, Internet, celular, assim como outras ocupações, a exemplo do esporte. Alimentação, vestimenta etc. estão garantidos…, mas será que está havendo boa educação e amor genuíno, de doação de si próprios aos filhos? Ou os próprios interesses, hobbies, trabalhos etc. estão de tal modo tomando espaço que os filhos ficam de escanteio?

Penso que muitos pais não têm consciência clara disso, embora eu possa estar enganado nisso e em todo o restante que acabo de descrever. Acontece que, nessa mentalidade, bastaria satisfazer os sentidos e dar o necessário que a educação e a formação estariam prontas. No entanto, somos muito mais do que nossa sensibilidade, mais do que a educação formal que recebemos e mais do que aquilo com que nos ocupamos. De nada adianta dar de comer e beber, de nada adianta colocar na escola e em outras ocupações, se não se gasta tempo com os filhos para estar presente com eles, para se doar a eles gratuitamente. Com os pais pensando só em si próprios, restando pouco espaço para os filhos, estes ficam tristemente de escanteio, sofrem e fazem sofrer.

João Toniolo é mestre e doutorando em Filosofia e membro do IFE Campinas. E-mail: joaotoniolo@ife.org.br.

Artigo originalmente publicado no jornal Correio Popular, Edição de 3 de Abril de 2019, Página A2 – Opinião.

No caminho da verdade

Opinião Pública | 19/12/2018 | | IFE CAMPINAS

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Um tema em que pouco se reflete é a relação entre medo e verdade. Medo é uma paixão humana e tem suas funções, assim como suas distorções patológicas. A verdade, por sua vez, é classicamente compreendida como a adequação entre aquilo que pensamos e aquilo que, de fato, existe.

Podemos observar a relação entre ambas quando vamos a situações concretas. Uma das principais, se não a principal, é o medo de falar a verdade. Medo de falar a verdade em público. Medo de falar a verdade aos outros. Medo de falar a verdade a nossos amigos. Medo de falar a verdade… a nós mesmos.

Um dos motivos mais frequentes desse medo é ficarmos mal diante daquilo que será dito acerca de nós ou, também, o medo de desagradar os outros. Temos vergonha. Tememos sofrer consequências não desejáveis, uma vez que dizer a verdade implica arcar com consequências, implica ser responsável por aquilo que se diz ou por aquilo que se fez. Como tememos o sofrimento, tememos dizer a verdade, a qual pode trazer algum sofrimento. No fundo, parece que temos medo de nos darmos mal.

Diante dessas dificuldades, há ao menos três saídas: dizê-la, não dizê-la, ou enrolarmo-nos com círculos, voltas, desvios, minimizações, enfim, toda uma gama de possibilidades para desviar da verdade e oferecer algo mais leve, que tenha um pouco de verdade, mas que não represente bem aquilo que realmente é. Outra opção é a mentira pura e simples, a qual as pessoas também dizem. Aliás, a mentira aparece tanto neste polo puro e simples, quanto no campo intermediário das enrolações e desvios.

O problema é que tanto a mentira como os desvios da verdade geram, ao fim e ao cabo, frustrações, decepções, intranquilidades e uma série de outros problemas. O fato também é que o desvio da verdade, além da mentira, não vale a pena, por mais sedutor e fácil que esse caminho possa parecer. Isso porque, como já observava Aristóteles, o ser humano propende naturalmente ao saber.

E, na esteira do filósofo canadense Bernard Lonergan, constatamos que há em nós um desejo de entendimento e de conhecimento. Não nos contentamos com meras histórias, com meras narrativas. Queremos mais, queremos a verdade. Nesse sentido, questionamos: “Isso é verdade?” Claro que no WhatsApp, e em outros canais, muita coisa é aceita erroneamente de boa-fé, mas, mesmo as chamadas “tias do WhatsApp”, se questionam: “É assim mesmo?”, “É verdade isso?”. Portanto, se não correspondemos ao desejo natural que temos pela verdade, cedo ou tarde vem a frustração e outros problemas.

Além disso, e usando de uma terminologia empregada pelo referido filósofo canadense, há em nós duas importantes dimensões: uma é a do ego (eu) e, outra, a da persona (pessoa). Numa tradução simples, persona é aquilo que somos diante dos outros e, ego, aquilo que somos diante de nós mesmos.

Podemos muito bem ser de um jeito e nos portarmos de outro. Podemos muito bem ser uma coisa e representar outra. Podemos dizer o que não pensamos e pensar o que não dizemos, mas isso é complicado, não? Exatamente. Se não somos sinceros, se não somos honestos, há uma diferenciação problemática entre o ego e a persona. Nesse sentido, não somos unos, não temos unidade. Somos uma coisa interiormente e outra exteriormente. Tal realidade, por sua vez, gera em nós, e nos outros, confusões, mal-entendidos, complicações e até patologias mentais, como neuroses – aliás, em neuróticos é possível identificar com certa clareza essa dissociação entre o ego e a persona, quando, na cura ou na superação, essa dissociação é superada para dar lugar a uma unidade entre as duas dimensões.

Não dizer a verdade, portanto, traz, além das consequências citadas mais acima, esse drama interior de reflexos exteriores. Traz uma confusão interna, assim como uma confusão que afeta aqueles que estão ao nosso redor e, extensivamente, a ordem social. Em vez de sermos unos, somos duplos ou múltiplos. Por isso, na relação entre medo e verdade, é preciso superar o medo de dizê-la, enfrentando tal medo. Ser sincero e honesto pode doer e trazer consequências, mas é caminho seguro. A verdade é porto-seguro, é âncora. Sendo assim, é um caminho que dá segurança tanto a nós mesmos quanto aos outros.

 

João Toniolo é doutorando em Filosofia e Gestor do Núcleo de Filosofia do IFE Campinas (joaotoniolo@ife.org.br).

 

Artigo publicado no jornal Correio Popular, Página  A2 – Opinião, Edição de 19 de Dezembro de 2018.

 

Relativismo e breves reflexões

Opinião Pública | 24/01/2018 | | IFE CAMPINAS

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Uma idéia que ora ou outra se pode notar em algumas conversas e discussões é a de que a verdade seria relativa. Trata-se da concepção de que a verdade mudaria conforme o tempo e o lugar, ou ainda que cada um teria a sua. Ela, então, seria particular ou subjetiva, em oposição à verdade objetiva, reconhecível por qualquer pessoa independente de época e cultura. No entanto, com breves reflexões, podemos ver que tal concepção é problemática desde o princípio.

Um primeiro ponto a observar é que a idéia de que “a verdade é relativa” é, em si mesma, contraditória. Dizer que a verdade é relativa é querer dizer que esta afirmação (“a verdade é relativa”) não é relativa, contradizendo a própria idéia e revelando incoerência. Como ilustra um filósofo, a pessoa que disser que a verdade é relativa está pedindo para que não se acredite nela.

Normalmente, quando se está numa conversa ou discussão com alguém favorável ao relativismo, ao aparecer uma ou mais discordâncias, um relativista poderá argumentar que as coisas dependem do ponto de vista do qual se olha, que cada um enxerga as coisas de uma maneira etc. De fato, pela nossa experiência, percebemos que várias coisas são relativas.

De modo simples, há coisas que percebemos de um modo, e outros, de outro. O telhado para o qual olho neste momento é visto de outra forma por quem está do outro lado da rua. De modo complexo, pode-se notar alguns eventos históricos sobre os quais não há consenso. Há documentos que são interpretados de diferentes modos, ora para comprovar uma tese, ora para contestá-la. Mas o reconhecimento de relatividades não significa que não se possa chegar a verdades a respeito das coisas, ou que de modo geral a verdade ou o conhecimento são relativos.

Tomemos a sério a proposição de que a verdade é relativa para considerá-la em casos concretos. Pensemos no caso das ciências. Assim, se a verdade é relativa, então muitas das leis científicas que são conhecidas não seriam leis, mas regras relativas a cada cultura. Assim, se poderia construir uma ponte em nosso País levando-se em consideração a lei da gravidade. Sabemos que se isso é feito utilizando tal lei, a ponte fica de pé. Mas, se a verdade é relativa, em outro país se poderia construir a mesma ponte, porém sem se considerar que a gravidade exista. No entanto, por que uma ponte fica de pé e a outra cai, ou nem mesmo se levanta?

Contudo, o fato é que percebemos que muitas leis da ciência aplicam-se nas mais diferentes culturas e locais. Por exemplo, se assim não fosse, o carro construído no México não poderia ser usado na Europa. Ou, ainda, uma vacina não poderia ser dirigida à população mundial, mas só poderia ser utilizada em uma cultura particular. Entre tantos outros exemplos.

Por fim, pensemos em eventos históricos, nos quais o relativismo sobre a verdade está em estreita ligação com o relativismo de tipo moral. Tomemos os gulags comunistas e os campos de concentração nazistas. Se a verdade fosse relativa, então tanto faz se gulags e campos de concentração existiram ou não, tanto faz se pessoas sofreram com perseguição, trabalho forçado ou se foram mortas. Isso parece irreal, mas certa vez vi na mídia um líder político negar a existência do Holocausto. Contudo, como sabemos, negar tais eventos é absurdo.

O relativismo pode parecer interessante, mas adotá-lo priva-nos de nossas capacidades reflexiva e crítica, as quais, a propósito, nos são caras. Pois, se a verdade é relativa, podemos ficar indiferentes aos mais diversos problemas e situações, sejam eles de ordem prática, teórica ou moral. Em poucas palavras, pode-se dizer que o relativismo promove a banalização ou banimento da verdade, importante tanto para nossa vida prática como para distintas áreas do conhecimento. Estreitamente ligado a esse relativismo, como o leitor deve ter reparado, é o de tipo moral. Como não tivemos espaço para abordá-lo aqui, sugerimos como introdução o pequeno e acessível livro “A abolição do homem”, de C.S. Lewis, que conta com uma porção de referências documentais.

João Toniolo é doutorando em Filosofia e Gestor do Núcleo de Filosofia do IFE Campinas (joaotoniolo@ife.org.br).

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 24/01/2018, Página A-2, Opinião.