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O valor da paternidade

Opinião Pública | 16/05/2018 | | IFE CAMPINAS

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Com anos e anos de trabalho em matéria de direito de família, podemos notar uma série de transformações na noção de paternidade, nuances naturais antes pouco valorizadas e agora incorporadas pelas leis e pela mudança do sentido e do alcance da noção de família.

No terreno da educação familiar, a ausência do pai sempre foi uma constante. Hoje, a julgar pela tônica dos processos de família, em muitos casos, a falta do pai virou desterro: ele foi expulso do âmbito familiar e esta carência, que não se resume à ausência meramente física, adentra em outros setores que resultam irrenunciáveis para a formação dos filhos. Muitos dos relatórios psicossociais lidos nos processos são sempre uma desventura e a decisão do juiz acaba por ser uma espécie de assinalação de uma certa prudência judicial familiar de redução de danos ao caso concreto.

Atualmente, na leitura judicial dos casos de família, a falta do pai é, além de física, sobretudo emotiva, cognitiva e espiritual. Tais privações influem em todos os filhos. No entanto, as consequências repercutem mais nos filhos varões. O eclipse da paternidade gera uma relação mais empobrecida entre pai e filho, pois a vida de ambos não mais se compartilha e, logo, não há convivência. A paternidade tem uma dívida de responsabilidade intrafamiliar.

A mãe, até alguns anos atrás, era considerada a principal educadora da prole, por uma série de razões sociológicas, culturais e sociais, mas que, no fundo, levavam em conta certas peculiaridades e características psicológicas diferenciadas em razão de sua identidade sexual. Como efeito, entendia-se que a educação da prole era uma tarefa tipicamente feminina, por ter mais conta o concreto e os detalhes e em virtude de seu instinto maternal, realismo e especial sensibilidade à unidade de vida que se manifesta nos filhos.

Por outro lado, a revelia paterna era explicada pela incapacidade do pai em ter aquelas qualidades maternas, agravado pela exacerbada competitividade profissional e pela natural tendência à abstração. Sua imagem era pouco útil para a educação do filho varão. Para essa lógica monolítica, o filho não precisava integrar ambos os mundos – paterno e materno – para, depois, na maturidade, assumir e responder adequadamente às complexas contradições que estamos expostos socialmente. Pais e mães, nessa mesma lógica, não tinham parecidas habilidades educativas, matizadas por um rico contraste e, ao cabo, acabavam por justificar a exclusão de um ou de outro.

Nessa visão, o filho, sobretudo o varão, não precisava se relacionar com ambos, de maneira isolada e conjunta, pois a mãe substituía o pai completamente e, por isso, sequer se cogitava a necessidade de um equilíbrio quantitativo e qualitativo nas maneiras pelas quais pai e mãe deveriam relacionar-se com os filhos em seus respectivos papéis pedagógicos.

Nos dias atuais, seguramente, a maioria dos estudiosos de família está de acordo com a gravidade deste problema, que afeta toda a sociedade e, mais especialmente, aqueles que se ocupam do ente familiar, como pais, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e educadores, na tarefa de zelar pela formação das futuras gerações.

As soluções divergem num sentido ou noutro para a resolução de boa parte dos problemas que os filhos enfrentam em casa, na escola ou na sociedade e que são, em grande parte, reflexo da síndrome do pai faltante, definida a partir de duas perspectivas bem diversas: do filho varão, mortificado pelo efeito desse vazio, e do pai que a causa, ainda que também sofra as consequências dessa privação.

Uma das maiores descobertas antropológicas do século XX foi a de que tanto o homem quanto a mulher devem contribuir conjuntamente na construção familiar e cultural de uma sociedade. Ambos estão chamados a um sadio protagonismo nessas tarefas. Não raro, os filhos veem-se privados da presença de um modelo paterno que lhes proporcione um marco para a determinação de sua identidade existencial e a integração equilibrada das estruturas emocionais e sociais.

A paternidade é a figura familiar que ajuda o filho na descoberta de sua masculinidade e a filha na afirmação de sua feminilidade. O ocaso do pai desemboca na perda de uma importante referência fundacional e, ao cabo, na própria desestabilização familiar. Então, não tem mais sentido dizer que “não basta ser pai, tem que participar”. Hoje, é insuficiente “participar”: em matéria de paternidade, é preciso protagonizar. Com respeito à divergência, é o que penso.

André Gonçalves Fernandes. Ph.D., é juiz de direito, professor-pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 16/05/2018, Página A-2, Opinião.

Pais e filhos

Opinião Pública | 10/08/2016 | | IFE CAMPINAS

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Chego ao décimo-quarto dia dos pais em que levo as honras para casa. Seria uma espécie de “bodas de cristal”, mas, para mim, toda boda é sempre boda de champagne. Prefiro a minha parte em líquido. Sem dúvida, é uma fase vital para se fazer uma saudável pausa no trajeto, olhar para trás e, depois, retomar a caminhada.

Contemplo meu rastro existencial em retrospectiva e vejo, em meus filhos e filhas, muitas histórias. Aquelas que me contaram, as que vivi, li, sonhei, inventei e escrevi. Em suma, histórias para todos os sentidos e alcances. As mais pretéritas são do Pedro, o primeiro e, as mais recentes, da Letizia, a caçula.

Muitas dessas histórias, pela minha voz, ganharam vida na letra morta de minhas crônicas para o jornal em que escrevo desde que o mais velho nasceu. Ali mesmo onde dou vazão ao homem que está no coração do juiz que, com o passar dos anos de paternidade, assiste à sua toga sendo dilatada pelo coração dos filhos. O tempo, nessas crônicas, ao invés de apagar aquelas histórias, revitaliza-as e faz com que sirvam, muitas vezes, como lições de sabedoria.

A existência de cada filho é um mistério que permite inventar histórias e moldá-las de tal maneira, fazendo-se o uso das palavras para que pareçam verdadeiras e cheguem aos leitores e os façam chorar e rir. Sofrer desfrutando e desfrutar sofrendo, como se fossem os espectadores da grande ópera de vida daquelas histórias.

Escrever sobre as histórias dos filhos ainda parece ser um processo enigmático, onde as raízes afundam-se no mais profundo do inconsciente. Por que existem certas experiências familiares — ouvidas ou vividas — que, sem mais, sugerem-me uma história, algo que, pouco a pouco, vai se tornando urgente e peremptório?

Nunca sei por que existem algumas vivências dos filhos que se tornam exigências para fantasiar uma história, que me provocam um desassossego e uma ansiedade que são aplacados quando ela vai surgindo, sempre com surpresas e derivas imprevisíveis, como se eles, meus filhos, os protagonistas – nominados ou ocultos – de minhas crônicas, fossem apenas intermediários, numa espécie de leva-e-traz de uma fantasia que vem de alguma região ignota do espírito e, em seguida, emancipa-se da carne e do osso de cada um deles e vai viver sua própria vida nas minhas linhas. Linhas de um contador de histórias dos filhos. E, quem sabe, um dia, dos filhos dos meus filhos.

Os filhos chegam ao livro da vida com um introito de amor incondicional. Nos primeiros capítulos, dependem de nosso amor e dos cuidados que temos. Nos capítulos seguintes, retribuem com gestos que enternecem. Lá pela metade corrida do livro, as páginas ficam amareladas, porque os anos passam, os filhos crescem e outras histórias tomam forma. Histórias de escolhas: de seus próprios caminhos, amores e vocações.

Escrever sobre os filhos é uma atividade em que se aprende muito sobre si mesmo. “Escrever é uma maneira de viver”, disse Flaubert. Com razão. Não se escreve para viver, embora muitos ganhem a vida escrevendo, o que não é lá minha condição. No meu caso, vive-se para escrever, porque o escritor de vocação continuará escrevendo. Nem que seja para si mesmo ou para os filhos, tomados como ouvintes de suas próprias histórias de vida.

Mas não sem, primeiramente, inspirar-se na história de cada um deles, porque não conheço nenhum pai-escritor que não tenha sido, antes, um grande pai-leitor: do livro aberto, composto por parágrafos, linhas, entrelinhas e rodapés da história de vida de cada um de meus filhos.

Por fim, para minha esposa que, nesse livro aberto, compõe, comigo, a referência bibliográfica, deixo uma dedicatória curta e fecunda: obrigado por me amar e concretizar esse amor na pessoa de cada um dos protagonistas das histórias daqui de casa.

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, professor, pesquisador, coordenador acadêmico do IFE e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Nasce um pai

Opinião Pública | 06/07/2016 | | IFE CAMPINAS

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A paternidade pode parecer algo corriqueiro, afinal, há milhares de anos a humanidade perpetua sua espécie e nada de diferente parece existir sob o mesmo céu. Também pensei assim por muito tempo, até descobrir que seria pai.

Sempre pensei em sê-lo, mas nunca me preparei para isso e nem tinha muita preocupação em saber como isso se daria. Para mim bastava planejar “quando”, preparar tudo para a chegada do bebê e pronto. Mentalmente estava tudo organizado pragmaticamente. No entanto, todas as certezas e planos que eu tinha mudaram absurdamente, pois enquanto eu imaginava que tudo dependia de organização, de repente, a notícia de que estávamos, minha esposa e eu, esperando pela chegada de nosso primeiro bebê, tudo mudou. A notícia me paralisou e esse estado só melhorou um pouco quando vi nosso bebê pela ultrassonografia. Dali em diante, ao menos para o pai que não carrega e não tem como saber exatamente o que se passa com a mãe, vem a consciência clara de que recebeu e deve cuidar de um imenso tesouro: uma nova vida humana!

Sem me dar conta de momento, só pensava em quando o bebê, que agora sabíamos ser uma menina, nasceria. Como seria seu rostinho, se iria chorar ou dormir muito, se teria os olhos da mesma cor que os meus e de minha esposa, se seria falante, enfim, passava diante de mim um oceano de possibilidades, mas com tudo isso, percebi que algo novo começava ali: nascia um pai! Antes de ter minha filhinha nos braços eu já me tornara um pai, e minha esposa uma mãe. As preocupações mudaram, as finanças se reorientaram, a programação dos finais de semana e dias livres passaram a ser gerenciadas entre visitas a lojas de móveis e de roupas de bebê. As conversas de casal continuaram a existir, mas agora sempre entrecortadas por algum comentário, alguma preocupação, intuição ou suposição de como será nossa bebê. As orações dirigidas a Deus também mudaram, aos poucos passamos a pedir e agradecer muito mais pela nova vida que Ele nos confiou. Devagar já não vivemos mais tanto para nós mesmos, mas para uma outra criaturinha que Deus mesmo, enquanto Criador por excelência, nos chamou para sermos cocriadores com Ele.

Toda preparação para a chegada de uma nova vida, imagino, traga uma graça e uma beleza particulares, pois cada vida é única e irrepetível. Mesmo antes de nascer, minha pequena Olívia, assim como eu, já é professora. Eu o sou profissionalmente, ganho meu pão assim, mas ela o é por natureza, já que mesmo antes de nascer já tem me ensinado tanto, e fez de mim algo que diploma algum pode fazer: um pai! Nasce uma bebê e com ela um pai e uma mãe.

A beleza de uma nova vida, o seu desenvolvimento, os chutes e reviravoltas que deixam a mãe cansada, a barriga que cresce e obriga a mãe a desacelerar de tudo, os preparativos, tudo isso é belo, é humano e divino ao mesmo tempo, e me fez pensar mais seriamente do que antes no horror que é o aborto, a morte de inocentes no ventre de suas mães. O corpo de uma mulher, mormente o de uma mãe é um santuário de vida e há quem insista em transformar os ventres em túmulos. Esse pequeno ser que ali se desenvolve é sempre um presente para toda a humanidade. Todo filho nos obriga a ser melhores, pois olhando para eles, pensamos no que precisam, nos esquecemos de nós e nos damos a eles. Uma nova vida nos desinstala de nosso comodismo, nos torna menos egoístas. Sendo pai me tornei mais esposo, aprendi a amar mais, tomei consciência do que devo ser e entendi de modo mais claro por que chamo Deus de meu Pai. De fato faz todo sentido pensar, como dizia Pio XII, que “nos lares em que sempre há um berço de onde se ouve o choro de um bebê, as virtudes florescem espontaneamente, enquanto o vício se afasta como que expulso pela infância, que aí se renova qual brisa fresca e vivificante da primavera.”

■■ Luiz Raphael Tonon é professor de História e Filosofia nas redes pública e particular, gestor do Núcleo de Teologia do IFE Campinas e leigo consagrado da comunidade Católica Pantokrator (raphaeltonon@ife.org.br).

Artigo publicado originalmente no jornal Correio Popular, Página A-2 – Opinião, edição de 06 de Julho de 2016.

Pais ausentes

Opinião Pública | 23/09/2015 | | IFE CAMPINAS

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Com anos de trabalho em matéria de direito de família, podemos notar uma série de transformações na noção de paternidade, nuances naturais antes pouco valorizadas e agora incorporadas pelas leis e pela mudança do sentido e do alcance da noção de família.

No terreno da educação familiar, a ausência do pai sempre foi uma constante. Hoje, a julgar pela tônica dos processos de família, em muitos casos, a falta do pai virou desterro: ele foi expulso do âmbito familiar e esta carência, que não se resume à ausência meramente física, adentra em outros setores que resultam irrenunciáveis para a formação dos filhos. Muitos dos relatórios psicossociais lidos nos processos são sempre uma desventura e a decisão do juiz acaba por ser uma espécie de assinalação de uma certa prudência judicial familiar de redução de danos ao caso concreto.

Atualmente, na leitura judicial dos casos de família, a falta do pai é, além de física, sobretudo emotiva, cognitiva e espiritual. Tais privações influem em todos os filhos. No entanto, as consequências repercutem mais nos filhos varões. O eclipse da paternidade gera uma relação mais empobrecida entre pai e filho, pois a vida de ambos não mais se compartilha e, logo, não há convivência. A paternidade tem uma dívida de responsabilidade intrafamiliar.

A mãe, até alguns anos atrás, era considerada a principal educadora da prole, por uma série de razões sociológicas, culturais e sociais, mas que, no fundo, levavam em conta certas peculiaridades e características psicológicas diferenciadas em razão de sua identidade sexual. Como efeito, entendia-se que a educação da prole era uma tarefa tipicamente feminina, por ter mais conta o concreto e os detalhes e em virtude de seu instinto maternal, realismo e especial sensibilidade à unidade de vida que se manifesta nos filhos.

Por outro lado, a revelia paterna era explicada pela incapacidade do pai em ter aquelas qualidades maternas, agravado pela exacerbada competitividade profissional e pela natural tendência à abstração. Sua imagem era pouco útil para a educação do filho varão. Para essa lógica monolítica, o filho não precisava integrar ambos os mundos – paterno e materno – para, depois, na maturidade, assumir e responder adequadamente às complexas contradições que estamos expostos socialmente. Pais e mães, nessa mesma lógica, não tinham parecidas habilidades educativas, matizadas por um rico contraste e, ao cabo, acabavam por justificar a exclusão de um ou de outro.

Nessa visão, o filho, sobretudo o varão, não precisava se relacionar com ambos, de maneira isolada e conjunta, pois a mãe substituía o pai completamente, donde sequer se cogitava a necessidade de um equilíbrio quantitativo e qualitativo nas maneiras pelas quais pai e mãe deveriam relacionar-se com os filhos em seus respectivos papéis pedagógicos.

Nos dias atuais, as soluções divergem num sentido ou noutro para a resolução de boa parte dos problemas que os filhos enfrentam em casa, na escola ou na sociedade e que são, em grande parte, reflexo da síndrome do pai ausente, definida a partir de duas perspectivas bem diversas: do filho varão, mortificado pelo efeito dessa falta, e do pai que a causa, ainda que também sofra as consequências dessa privação.

Uma das maiores descobertas antropológicas do século XX foi a de que tanto o homem quanto a mulher devem contribuir conjuntamente na construção familiar e cultural de uma sociedade. Ambos estão chamados a um sadio protagonismo nessas tarefas e a paternidade é a figura familiar que ajuda o filho na descoberta de sua masculinidade e a filha na afirmação de sua feminilidade.

A ausência do pai desemboca na perda de uma importante referência fundacional e, ao cabo, na própria desestabilização familiar. Então, não tem mais sentido dizer que “não basta ser pai, tem que participar”. Hoje, é insuficiente “participar”: em matéria de paternidade, é preciso protagonizar. Com respeito à divergência, é o que penso.

 

André Gonçalves Fernandes é juiz de direito, doutorando em Filosofia e História da Educação, pesquisador, professor, coordenador do IFE Campinas e membro da Academia Campinense de Letras (fernandes.agf@hotmail.com)

Artigo publicado no jornal Correio Popular, edição 22/9/2015, Página A-2, Opinião.