Sexualidade mal compreendida

Opinião Pública | 06/10/2015 | | IFE SÃO CARLOS

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Sempre que pronunciamos a palavra “sexualidade” um certo desconforto reina no ambiente. Felizmente, nosso senso de pudor nos alerta que este assunto deveria ser tratado de uma maneira discreta, confidente e delicada, sem ser afetado por discursos curiosos em locais impróprios e idades prematuras.

Todavia, desde os anos sessenta e o estouro da revolução sexual, certos grupos políticos e certas linhas de pesquisa têm defendido uma abordagem liberal da sexualidade humana, defendendo que o ser humano, dono de seu próprio corpo, pode fazer dele o que bem entender, inclusive para o próprio prazer.

Deste tipo de pensamento advém a defesa e uso da pornografia, prostituição, e – o mais preocupante atualmente – a sexualização precoce de crianças.

Algumas linhas de pesquisa – de embasamentos duvidosos – indicam que é bom e saudável cada pessoa, especialmente a criança, buscar o prazer próprio como modo de autoconhecimento.

Todavia, estudos recentes da Neurologia indicam que a sexualidade desordenada, especialmente influenciada pela pornografia e masturbação, levam o cérebro a liberar grandes doses de dopamina, um neurotransmissor que nos dá sensações de prazer e satisfação. Quando a descarga deste componente começa a ser constante, o cérebro, em um tipo de mecanismo de proteção, começa a bloquear a passagem desta substância, o que resulta em um número cada vez menor da sensação de prazer. O bloqueio de sensações agradáveis se estende para outras situações da vida que gerariam bem estar – estar com os amigos, tomar sorvete, ir ao cinema, estar em família.

O resultado são pessoas – e, infelizmente, muitas vezes crianças e adolescentes – depressivos e insatisfeitos com suas vidas, pois perderam a capacidade de encontrar sentido e sentir prazer nas pequenas situações cotidianas.

Outros estudos mostram que quando o cérebro se acostuma com a pornografia ou o prazer solitário, tende a passar a enxergar as outras pessoas apenas por um aspecto sexual. Este tipo de objetificação de pessoas traz aos relacionamentos humanos a característica do utilitarismo, egocentrismo e narcisismo, problemas que levam a maioria dos namoros e casamentos ao fracasso.

A sexualidade humana foi criada para ser ordenada buscando o “bem no outro”. É sobre isto que argumenta o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, quando afirma que “quando é negada a autotranscendência da existência, a própria existência é desfigurada. Ela é materializada. O ser fica reduzido a mera coisa. O ser humano é despersonalizado. E, o que é mais importante, o sujeito é transformado em objeto”.

É no plano do amor, algo muito maior que sentimentalismos ou genitalismos, que o ser humano atinge seu ápice como humano. O oposto do amor não é o ódio, mas o “usar” a outra pessoa. Se não ensinamos às crianças estes aspectos da sexualidade e dos relacionamentos, como podemos almejar um mundo mais humano e menos utilitarista?

■ ■ Letícia Maria Barbano é graduada e mestranda em Terapia Ocupacional, participa de grupos de pesquisa sobre o Desenvolvimento Humano e é membro do IFE São Carlos.

Artigo publicado no jornal Correio Popular, Página A2 – Opinião, em 05 de Outubro de 2015.