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Todos os posts de Letícia Maria Barbano

Sobre Letícia Maria Barbano

IFE São Carlos

As outras culturas do estupro

Opinião Pública | 17/06/2016 | | IFE SÃO CARLOS

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"Muñeca Barbie antes de 1997 y después de 1997. Comparación de la anatomía." (Ilustração por Ajzh2074/Wikimedia Commons)

“Muñeca Barbie antes de 1997 y después de 1997. Comparación de la anatomía.” (Ilustração por Ajzh2074/Wikimedia Commons)

 

Se entendermos “cultura” como um conjunto de manifestações e hábitos sociais, artísticos, religiosos, linguísticos e comportamentais de uma sociedade, poderíamos questionar se existe a chamada “cultura do estupro”. Se por um lado há um repúdio explícito da população em relação a esse crime, por outro é cada vez mais recorrente a divulgação de notícias envolvendo esse tipo de violência.

Pode ser que não notemos campanhas publicitárias, manifestações artísticas, ou comportamentos da maioria das pessoas que façam declaradamente apologia à violência sexual, porém, é nítido notar que em todos os lugares que olhamos – nas novelas, nas revistas, nos noticiários, na publicidade, nas conversas de esquina – há quase sempre um assunto relacionado ao sexo.

O que antes era assunto privado, de conversas breves e discretas, hoje é tratado como necessidade básica do ser humano, tema essencial de qualquer encontro com amigos, tabu quebrado e escancarado: o sexo se tornou o centro da vida de quase todo mundo. Desde a liberação sexual dos anos sessenta, passando pelo consumo de pornografia aumentado consideravelmente com a popularização da internet, até chegarmos às letras hipersexualizadas do funk ou às cenas picantes das novelas populares em horário nobre – a todo momento somos bombardeados por informações com teor sexual que objetifica a figura humana, em especial a mulher.

O problema não é falar sobre sexo, o problema é vulgarizar o sexo, dissociá-lo do amor e de seu significado, falar somente sobre isso, e da maneira errada. A cultura do uso hedonista do corpo delineou nossas ações para enxergar outros seres humanos como pedaços de carne para nosso deleite.

Pode não existir uma cultura do estupro cristalizada, mas existem “culturas” que estão deformando a visão das pessoas sobre sexualidade, e levando alguns ao ato sexual não consentido. Querer acabar com essa situação é apenas querer que uma parte do problema desapareça. Se queremos diminuir consideravelmente o número de estupros, antes é necessário acabar com a cultura do sexo livre, com a cultura da pornografia, com a cultura da objetificação feminina e com tantas outras “culturas” reducionistas que contribuem apenas para diminuir a dignidade do ser humano.

Letícia Maria Barbano escreve para o blog “Modéstia e Pudor” (www.modestiaepudor.com) e coordena o IFE São Carlos.

Artigo publicado originalmente no jornal Correio Popular, edição 11/06/2016, Página A2 – Opinião.

A violência contra a mulher

Opinião Pública | 08/12/2015 | | IFE SÃO CARLOS

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Ilustração: Granville (Jean-Ignace-Isidore Gérard) – H. Fournier Éditeur, Paris, 1845. Fonte: Wikimedia Commons.

 

Ocasionando acaloradas discussões entre diversos grupos, o tema da redação do Enem 2015, “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, provocou opiniões binárias do que parecia se dividir entre “direita” e “esquerda”. Mas, afinal, como sugeriram alguns, esse tema é doutrinador? É um tema pertinente?

Temas de redações dificilmente são doutrinadores. O que é doutrinado ideologicamente ou não é a opinião individual dos alunos sobre o assunto. A violência contra a mulher existe, no Brasil e no mundo, e a razão disso é a crise de valores morais que passa nossa sociedade. Em contrapartida, a frase da feminista de segunda onda, Simone de Beauvoir, em uma questão no primeiro dia da prova, convidava os vestibulandos a uma reflexão com viés feminista sobre o tópico, cuja linha coloca a desigualdade de gênero como principal origem do problema.

Desde a constituição da burguesia, no início da modernidade, nos solidificamos como uma cultura materialista, cujo valor ao capital supera o valor às virtudes e à ética. Isto foi transposto aos relacionamentos humanos, e passamos, progressivamente, à tendência de objetificar as pessoas, como se elas fossem parte dos bens materiais que temos e adquirimos.

Dessa linha de perda de bases morais para bases materiais, advém a transformação do amor conjugal em sentimentalismo: o “amor” torna-se simples emoção volúvel e efêmera. Um casal que tem como fundamento esse tipo de apego, sem analisar certas condições racionais para a união, tenderá a não ter como valor cotidiano a doação mútua no matrimônio, mas o uso dos próprios vícios para destruir a si e ao outro, abrindo caminho para a violência doméstica.

Todavia, sem considerar essas e outras questões de diversas esferas tão necessárias e pertinentes para se entender a problemática, surge o feminismo com a visão unilateral de que homens são sempre potencialmente agressores e mulheres são sempre potencialmente vítimas. Tal ideologia, travestida de busca por igualdade de gênero, ignora as diferenças biológicas e psicológicas de homens e mulheres e, ao invés de utilizar-se dessas para potencializar a vida em sociedade, promove uma constante luta de classes entre ambos. Na realidade, o feminismo, especialmente a partir de sua segunda onda, reforça a visão materialista, e inverte o comportamento que critica como machista, objetificando os homens ao enxergá-los como possíveis agressores.

A resposta feminista para a questão da violência contra mulher toma como premissa o ódio entre os sexos, algo oposto à premissa ética de que na relação entre os indivíduos de uma sociedade a base deve ser o respeito e o amor, este último entendido no sentido de doação. Nos diversos séculos ao longo da história, as culturas que conheceram um alto padrão de moralidade, como a judaico-cristã, foram as com menores índices de violência contra mulher, e onde a figura feminina mais encontrou valorização. Como podemos retornar a esse respeito às mulheres se nossa cultura se desmoraliza cotidianamente?

A violência contra a mulher existe e persiste? Sim. Mas o feminismo apresenta uma resposta errada para um problema real. Uma solução correta deve considerar aspectos morais da sociedade, de modo a permitir que os indivíduos sigam valores éticos de caridade, fidelidade, amor ao próximo, bondade, honestidade, entre outros. O que lhe faz ser uma pessoa boa? A polícia? As leis? Não, certamente você me responderá que são os seus valores. É, pois, a restauração de moral e de virtudes que reformula uma sociedade e que pode diminuir a violência, inclusive a contra a mulher.

■ ■ Letícia Maria Barbano escreve para o blog Modéstia e Pudor (www.modestiaepudor.com) e coordena o IFE São Carlos.

Artigo publicado originalmente no jornal Correio Popular, edição de 22 de Novembro de 2015, Página A2 – Opinião.

* Nota dos Editores IFE: A autora possui um artigo científico sobre machismo, patriarcalismo etc. que desmistifica muito do que tem sido dito nas universidades, na mídia e em outros canais, artigo este que recomendamos a leitura:

MACHISMO, PATRIARCALISMO, MORAL E A DISSOLUÇÃO DOS PAPÉIS OCUPACIONAIS

http://www.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/refacs/article/view/1097

Existe e persiste a violência contra a mulher?

Opinião Pública | 23/11/2015 | | IFE SÃO CARLOS

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Ocasionando acaloradas discussões entre diversos grupos, o tema da redação do ENEM 2015, “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, provocou opiniões binárias do que parecia se dividir entre “direita” e “esquerda”. Mas, afinal, como sugeriram alguns, este tema é doutrinador? É um tema pertinente?

Temas de redações dificilmente são doutrinadores. O que é doutrinado ideologicamente ou não é a opinião individual dos alunos sobre o assunto. A violência contra a mulher existe, no Brasil e no mundo, e a razão disso é a crise de valores morais que passa nossa sociedade. Em contrapartida, a frase da feminista de segunda onda, Simone de Beauvoir, em uma questão no primeiro dia da prova, convidava os vestibulandos a uma reflexão com viés feminista sobre o tópico, cuja linha coloca a desigualdade de gênero como principal origem do problema.

Desde a constituição da burguesia, no início da modernidade, nos solidificamos como uma cultura materialista, cujo valor ao capital supera o valor às virtudes e à ética. Isto foi transposto aos relacionamentos humanos, e passamos, progressivamente, à tendência de objetificar as pessoas, como se elas fossem parte dos bens materiais que temos e adquirimos.

Desta linha de perda de bases morais para bases materiais, advém a transformação do amor conjugal em sentimentalismo: o “amor” torna-se simples emoção volúvel e efêmera. Um casal que tem como fundamento este tipo de apego, sem analisar certas condições racionais para a união, tenderá a não ter como valor cotidiano a doação mutua no matrimônio, mas o uso dos próprios vícios para destruir a si e ao outro, abrindo caminho para a violência doméstica.

Todavia, sem considerar estas e outras questões de diversas esferas tão necessárias e pertinentes para se entender a problemática, surge o feminismo com a visão unilateral de que homens são sempre potencialmente agressores e mulheres são sempre potencialmente vítimas.  Tal ideologia, travestida de busca por igualdade de gênero, ignora as diferenças biológicas e psicológicas de homens e mulheres e, ao invés de utilizar-se destas para potencializar a vida em sociedade, promove uma constante luta de classes entre ambos. Na realidade, o feminismo, especialmente a partir de sua segunda onda, reforça a visão materialista, e inverte o comportamento que critica como machista, objetificando os homens ao enxergá-los como possíveis agressores.

A resposta feminista para a questão da violência contra mulher toma como premissa o ódio entre os sexos, algo oposto à premissa ética de que na relação entre os indivíduos de uma sociedade a base deve ser o respeito e o amor, este último entendido no sentido de doação. Nos diversos séculos ao longo da história, as culturas que conheceram um alto padrão de moralidade, como a judaico-cristã, foram as com menores índices de violência contra mulher, e onde a figura feminina mais encontrou valorização. Como podemos retornar a este respeito às mulheres se nossa cultura se desmoraliza cotidianamente?

A violência contra a mulher existe e persiste? Sim. Mas o feminismo apresenta uma resposta errada para um problema real. Uma solução correta deve considerar aspectos morais da sociedade, de modo a permitir que os indivíduos sigam valores éticos de caridade, fidelidade, amor ao próximo, bondade, honestidade, entre outros. O que lhe faz ser uma pessoa boa? A polícia? As leis? Não, certamente você me responderá que são os seus valores. É, pois, a restauração de moral e de virtudes que reformula uma sociedade e que pode diminuir a violência, inclusive a contra a mulher.

Letícia Maria Barbano escreve para o blog “Modéstia e Pudor” (www.modestiaepudor.com) e coordena o IFE São Carlos.

Artigo publicado originalmente no jornal Correio Popular, Página A2 – Opinião, em 22 de novembro de 2015.

Sexualidade mal compreendida

Opinião Pública | 06/10/2015 | | IFE SÃO CARLOS

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Sempre que pronunciamos a palavra “sexualidade” um certo desconforto reina no ambiente. Felizmente, nosso senso de pudor nos alerta que este assunto deveria ser tratado de uma maneira discreta, confidente e delicada, sem ser afetado por discursos curiosos em locais impróprios e idades prematuras.

Todavia, desde os anos sessenta e o estouro da revolução sexual, certos grupos políticos e certas linhas de pesquisa têm defendido uma abordagem liberal da sexualidade humana, defendendo que o ser humano, dono de seu próprio corpo, pode fazer dele o que bem entender, inclusive para o próprio prazer.

Deste tipo de pensamento advém a defesa e uso da pornografia, prostituição, e – o mais preocupante atualmente – a sexualização precoce de crianças.

Algumas linhas de pesquisa – de embasamentos duvidosos – indicam que é bom e saudável cada pessoa, especialmente a criança, buscar o prazer próprio como modo de autoconhecimento.

Todavia, estudos recentes da Neurologia indicam que a sexualidade desordenada, especialmente influenciada pela pornografia e masturbação, levam o cérebro a liberar grandes doses de dopamina, um neurotransmissor que nos dá sensações de prazer e satisfação. Quando a descarga deste componente começa a ser constante, o cérebro, em um tipo de mecanismo de proteção, começa a bloquear a passagem desta substância, o que resulta em um número cada vez menor da sensação de prazer. O bloqueio de sensações agradáveis se estende para outras situações da vida que gerariam bem estar – estar com os amigos, tomar sorvete, ir ao cinema, estar em família.

O resultado são pessoas – e, infelizmente, muitas vezes crianças e adolescentes – depressivos e insatisfeitos com suas vidas, pois perderam a capacidade de encontrar sentido e sentir prazer nas pequenas situações cotidianas.

Outros estudos mostram que quando o cérebro se acostuma com a pornografia ou o prazer solitário, tende a passar a enxergar as outras pessoas apenas por um aspecto sexual. Este tipo de objetificação de pessoas traz aos relacionamentos humanos a característica do utilitarismo, egocentrismo e narcisismo, problemas que levam a maioria dos namoros e casamentos ao fracasso.

A sexualidade humana foi criada para ser ordenada buscando o “bem no outro”. É sobre isto que argumenta o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, quando afirma que “quando é negada a autotranscendência da existência, a própria existência é desfigurada. Ela é materializada. O ser fica reduzido a mera coisa. O ser humano é despersonalizado. E, o que é mais importante, o sujeito é transformado em objeto”.

É no plano do amor, algo muito maior que sentimentalismos ou genitalismos, que o ser humano atinge seu ápice como humano. O oposto do amor não é o ódio, mas o “usar” a outra pessoa. Se não ensinamos às crianças estes aspectos da sexualidade e dos relacionamentos, como podemos almejar um mundo mais humano e menos utilitarista?

■■ Letícia Maria Barbano é estudante de Terapia Ocupacional, participa de grupos de pesquisa sobre o Desenvolvimento Humano, escreve para o blog “Modéstia&Pudor” (www.modestiaepudor.com) e coordena o IFE São Carlos.

Artigo publicado no jornal Correio Popular, Página A2 – Opinião, em 05 de Outubro de 2015.

O que há de errado com o mundo?

Opinião Pública | 24/08/2015 | | IFE SÃO CARLOS

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É quase corriqueiro ouvir algum bom senhor conservador comentar com um pouco de desânimo: “Hoje em dia os valores estão todos mudados, mesmo!”. Que valores? Que mudanças?

Pode parecer clichê de gente mais velha pensar que o modo de vida de antigamente era melhor. Mas observe a sua vida e a das pessoas nas diversas esferas que compõem a sociedade – desde a cultura até a política e economia – e note como, de maneira geral, os sujeitos parecem agir de um modo muito individualista, mesquinho, hipócrita e imoral.
Condena-se o maltrato aos animais, mas apoia-se o aborto. Condena-se as famílias numerosas, mas apoia-se o sexo livre. Condena-se a corrupção dos políticos, mas apóia-se levar para casa algo da fábrica que se trabalha.

Poderíamos tentar buscar onde que a sociedade começou a decair tanto em valores e conduta. Encontraríamos que as piores condutas do ser humano e as mais chocantes atrocidades do mundo se passaram em épocas de relativismo e ausência de uma moral cristã. Os exemplos estão contidos desde nos holocaustos humanos das civilizações antigas, passando pela desumanização social dos pagãos pré-Idade Média até chegarmos ao famigerado comportamento burguês e revolucionário da Renascença.

Em todos os lugares em que perdeu-se o referencial do certo e do errado, o certo foi transformado em errado e passou-se a viver vícios como virtudes. Os pequenos vícios – como atrasos, esquecimento de pedido de permissões, falta de atenção, etc – são elevados ao patamar de “grandes coisas erradas feitas pelas pessoas”, enquanto que grandes vícios – como orgulho, inveja, falta de caridade, sexo fora do matrimônio, etc – são transformados em atitudes normais e até “intrínsecas” ao ser humano.

Não é que antigamente era melhor (na verdade estamos nos relativizando há séculos). É que hoje os erros estão mais públicos e mais evidentes. Certa vez, um jornal pediu a alguns escritores para responder à pergunta: “O que há de errado com o mundo?”. Chesterton enviou a resposta mais sucinta: “Prezados Senhores: Eu. Atenciosamente, G.K. Chesterton”.

Letícia Maria Barbano escreve no blog Modéstia&Pudor (www.modestiaepudor.com) e é coordenadora do IFE São Carlos.

Originalmente publicado em 22 de Agosto de 2015 no “Caderno C” do jornal Correio Popular de Campinas.